A história de Lula da Silva não é tão complexa quanto parece

É o primeiro ex presidente do Brasil encarcerado. Por enquanto, por tempo indeterminado.

Luiz Inácio Lula da Silva
Fotografia de Mídia Ninja

O Dia que durou 50 horas

Desafiou o guião delineado por Sérgio Moro. Durante dois dias, rodeou-se de apoiantes na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Paulo, para medir forças com o poder judicial que o condenou a 12 anos e um mês de prisão efectiva pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Contra a vontade dos milhares de apoiantes que entre gritos de “não se entrega” que o impediram de abandonar o quartel general à primeira tentativa, Luiz Inácio Lula da Silva entregou-se à Polícia Federal em tempo real, com a tranquilidade de quem sabe que muita água vai rolar. É o primeiro ex presidente do Brasil encarcerado. Por enquanto, por tempo indeterminado.

A Hipótese

“Quem sabe na semana que vem estamos juntos”. A sugestão foi deixada pelo próprio Lula da Silva num vídeo divulgado na ressaca da chegada do fundador do PT às instalações da Polícia Federal em Curitiba. Na mensagem reiterou a inocência e disse-se vítima de perseguição da “mente doentia” do juiz que emitiu a ordem de prisão menos de 24 horas depois do Supremo Tribunal Federal ter negado o habeas corpus que o mantinha em liberdade até que estivessem esgotadas todas as hipóteses de recurso. Lula fala com a propriedade de quem espera uma tomada de posição da Comissão de Direitos Humanos da ONU que, mesmo sem poder de interferir nos assuntos internos de cada país, pode contribuir para uma reviravolta. Também sabe que a meio da semana o plenário do Supremo Tribunal Federal pode mudar o curso da história se decidir a favor das duas Ações Declaratórias de Constitucionalidade contra a antecipação da pena para condenados de segunda instância. Em qualquer dos casos, o novo interlocutor a defesa do ex presidente passa a ser o juiz da Vara de Execuções Penais de Curitiba. Na lista dos possíveis recursos ainda cabem o Tribunal de Justiça do Paraná, o Supremo Tribunal de Justiça e, uma vez mais, o Supremo Tribunal Federal. Em última instância, do alto dos seus 72 anos, sete deles no poder, sabe que à luz da lei brasileira pode requerer prisão domiciliária alegando como doença grave as incapacidades que resultaram do cancro que lhe foi diagnosticado em 2012. Enquanto estiver detido, há vigília permanente, nas palavras da líder do PT Gleisi Hoffmann já não é só a cidade da Lava Jato, é “a capital da resistência”.

“Lula Livre”

A palavra de ordem deu o mote ao acampamento improvisado que promete não arredar pé das imediações da Polícia Federal de Curitiba até que Lula seja libertado. A menos de duzentos metros da cela onde se encontra o pernambucano de quem se fala, erguem-se lonas da vigília permanente que, logo nas primeiras horas, enfrentou balas de borracha e bombas de gás lacrimogéneo. Em causa a decisão do juiz da cidade que, a pedido da Prefeitura, proibiu qualquer tipo de manifestação junto à sede da PF para “garantir a segurança da população e evitar acontecimentos violentos”. A versão brasileira do El País conta que a repressão das autoridades sobre os apoiantes de Lula da Silva começou no preciso momento em que o helicóptero que o transportava de São Paulo “tocou no prédio da PF”. O episódio fez nove feridos e gerou uma onda de indignação entre os líderes do PT, MST e PCdoB que, à semelhança, engrossam as fileiras dos que se recusam a deixar cair o ainda candidato às eleições presidenciais de outubro.

Nem um passo atrás

Para já, não há plano B. Lula é o candidato do PT. Vencedor em todas as sondagens, depende da interpretação que o Tribunal Superior Eleitoral fizer da lei Ficha Limpa para se manter na corrida ao Planalto. Até 15 de agosto, prazo até ao qual as candidaturas têm de estar validadas, é mais uma hipótese em aberto. Longe dos 80% com que abandonou os dois mandatos consecutivos, o que os últimos dias têm provado que Lula não deixa ninguém indiferente. Nem os anónimos que orquestraram o voo do ex presidente para Curitiba ficam de fora. Nas últimas horas, caiu na rede um trecho de uma gravação em que uma voz não identificada invade a frequência aérea e perante as críticas do piloto deixa no ar “manda esse lixo da janela abaixo”. A repercussão do áudio, cuja autenticidade já foi provada, foi de tal ordem que a Força Aérea Brasileira se desdobrou em esclarecimentos para afastar suspeitas sobre os militares e controladores de voo.

O retrato do país dividido está entre os que apoiam e os que continuam a pedir a cabeça de Lula da Silva. Em paralelo com os que festejam a ordem de captura emitida por Sérgio Moro, Dilma Rousseff, por exemplo, está entre os que divulgaram a morada da prisão de Curitiba. “Mande uma carta para Lula”. E já começaram a chegar.

 

Fico com a pureza das crianças #eusoulula #lulalivre

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Sem surpresa, uma outra carta que indica Lula a Nobel da Paz foi subscrita por mais de 100 mil pessoas, em poucas horas.

Lançada pelo ativista Adolfo Pérez Esquivel, distinguido pela luta contra a ditadura militar argentina, o abaixo assinado arrisca-se a ser mais uma pedra no sapato do sistema que acusou e condenou em tempo record. É menos complexo do que parece.

Meses antes da destituição de Dilma Rousseff, em 2016, Lula da Silva é acusado pelo Ministério Público de receber um apartamento em Guarujá, no litoral de São Paulo, como contrapartida do favorecimento da construtora OAS em contratos com a Petrobrás. Em julho do ano passado, apesar da defesa do ex presidente ter demonstrado que a propriedade do famoso triplex nunca havia sido transmitida a Lula nem muito menos registada, Sérgio Moro condenou-o a 9 anos e seis meses de prisão. Alegou “forte convicção”. No início deste ano, o filme repete-se em Porto Alegre no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). A defesa mostra que o apartamento de luxo imputado ao ex presidente foi dado como garantia num processo de dívidas que envolvia a construtora OAS e perante o arrolamento de bens assinado por uma juíza de Brasilía, o TRF4 confirma e agrava a pena para 12 anos e um mês de pena em regime fechado.

Efeito Lula

Entretanto, em todo o mundo sucedem-se as reações à prisão de Lula da Silva.

O Presidente da Bolívia. Evo Morales chama-lhe “uma das maiores injustiças do século XXI”.

Em Buenos Aires, a Mulher do Fim do Mundo, Elza Soares arrancou um sonoro “Lula Libre” do público, depois de se insurgir contra o “triste momento político e social”.

Jean Luc Mélenchon, o líder do movimento França Insubmissa, denuncia um golpe de estado

Em Madrid, Pablo Iglesias aproveitou um encontro do Podemos para manifestar solidariedade com o ex presidente brasileiro.

Em demonstrações colectivas, várias cidades do mundo, juntam-se à onda de protestos.

 

E até no serviço de rádio britânico, BBC, é possível ouvir vozes que clamam a inocência do ex-presidente brasileiro.

Texto de Teresa Camarão