Porque conhecimento é liberdade, aconselhamos-te livros sobre o tema

Escolhemos livros diferentes na sua génese, forma e motivação. Ficção, história, filosofia, activismo e psicologia são alguns dos ingredientes que alimentam a noção e o desejo de liberdade.

O conceito de liberdade é tão vasto e subjectivo que nem se a lista fosse de 200 títulos daríamos conta da abrangência que exige. Assim propusemo-nos a fazer uma escolha mais curta, resumindo, e de que maneira, a lista, tentando não perder amplitude. Escolhemos livros diferentes na sua génese, forma e motivação. Ficção, história, filosofia, activismo e psicologia são alguns dos ingredientes que alimentam a noção e o desejo de liberdade. A lista é tal como o conceito apenas e sempre só um princípio para leituras nas mais diversas direcções. Porque conhecimento também é liberdade e nunca é demais obtê-lo através dos mais variados formatos; nem incentivar a que todos o façam.

Desobediência Civil, Henry David Thoreau

É praticamente impossível falar de liberdade sem mencionar umas das referências mais marcantes do anarquismo ocidental. Henry David Thoreau escreveu esta peça central da luta contra as injustiças depois de ter sido preso por não pagar os impostos. Para o americano esta era a única forma de um justo viver em dignidade num mundo repleto de leis injustas feitas para oprimir as minorias. A Desobediência Civil fala do carácter desumano das leis, numa postura denunciante da burocracia enquanto forma de opressão. Thoreau começa o livro com uma passagem clássica e amplamente citada nos mais diversos contextos, O melhor governo é o que menos governa”, uma crítica às leis impositivas e, simultaneamente, um desafio à prática da cidadania.


 A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord

No mundo onde as liberdades se consagraram sob forma de rótulos e a história parece ter cessado a sua progressão, a obra prima de Guy Debord relança as bases para o jogo da contemporaneidade. É uma crítica severa ao mundo que nos anos 60 se começava a revelar e serviu de base ao Maio de 68, embora desde então a sua influência tenha voltado a decair. É muitas vezes citado tendo-se tornado numa espécie de referência pop, estatuto que Guy Debord seguramente teria rejeitado. É uma obra de inspiração marxista, escrita de um modo simples em que cada excerto se cinge ao seu objecto crítico. A evolução da língua, a relação entre a arte e a técnica, o peso da religião na definição social e cultural, a cristalização da humanidade num gigante espectáculo são algumas das ideias chave desta obra que denuncia a estagnação ideológica do mundo a partir dos anos 60.


A Hacker Manifesto, McKenzie Wark

Em termos formais, A Hacker Manifesto de McKenzie Wark inspira-se no livro supra-citado. Em termos de conteúdo, adapta-se aos tempos que correm estabelecendo alguns normas de conduta e consciência para o que motiva e deve ser um hacker, no sentido mais lato. McKenzie Wark explica no seu livro como o conceito habitualmente associado à informática é bem mais abstracto que isso e se define pela criação de novas coisas, conceitos e significados a partir da subversão e evolução dos pré-existentes — uma alusão à cultura do remix vigente na internet como por exemplo Aaron Swartz defendeu durante a sua vida.

 


Pensar, Depressa e Devagar, Daniel Kahneman

Não é uma escolha tão óbvia como as anteriores; Pensar, Depressa e Devagar, não nos falta de liberdade contra um opressor ou burocracia proibicionista, pelo contrário, fala-nos da ditadura auto-imposta pela ideia de sermos totalmente racionais. Ao longo de mais de 400 páginas, o economista e psicólogo Daniel Kahneman elenca uma série de experiências científicas e as suas conclusões, revelando o substracto de aleatoriedade de onde surgem a maioria das nossas certezas.

 

 

O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo ou, para nós, a liberdade de ser mulher. No livro histórico para a corrente feminista, de Beauvoir apresenta um existencialismo feminista que prescreve uma revolução moral. É a construção social da mulher como a quinta-essência dos “Outros” que a escritora francesa identifica como fundamental para a opressão das mulheres e contra ela que luta, teorizando. De Beauvoir afirmava que as mulheres são tão capazes de fazer escolhas como os homens e que, por isso, podem optar por elevar-se, movendo-se para além da imanência, à qual eram anteriormente resignadas, para alcançarem a transcendência, uma posição na qual um indivíduo assume a responsabilidade para si e para o mundo, onde escolhe a sua liberdade. “Querer ser livre é também querer livres os outros” é uma das suas frases mais icónicas. Descreve o relacionamento com Sartre, que durou 50 anos. Os dois mantinham uma relação aberta dentro de uma proposta de “pacto de liberdade”.


Se Isto É Um Homem, Primo Levi

Desta lista é talvez o livro mais literal, no sentido em que, se estar preso é o contrário de estar livre, Primo Levi viveu-o na primeira pessoa, numa das piores prisões de que a história tem memória. Se Isto É Um Homem é uma das mais lúcidas e impressionantes visões dos campos de extermínio nazi e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus. Da experiência no campo de Auschwitz nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já não conta.

 


O Estrangeiro, Albert Camus

É um dos pai do Absurdismo, o conceito filosófico que se refere ao conflito entre a tendência humana para procurar constantemente um significado para a vida e a inabilidade humana para o encontrar de facto. Camus aceitou a ideia do Absurdo e viveu apesar dela, sem resignação. Acreditava que, ao negar qualquer crença e amarras morais, revoltando-se contra o Absurdo e, simultaneamente, aceitando-o como inevitável, o indivíduo conseguiria aproveitar a liberdade na sua totalidade e contentar-se com as próprias decisões. O Estrangeiro é o seu mais famoso romance e pertence à sua “trilogia do absurdo” – do qual também fazem parte O Mito de Sísifo e a peça de teatro Calígula. Nele, Camus apresenta o mundo como essencialmente sem sentido e como se, assim, a única forma de conseguir chegar a um significado ou propósito fosse criar um por si mesmo. A liberdade de ser o indivíduo, e não o acto, a dar significado a um determinado contexto.


Portugal Hoje, o Medo de Existir, de José Gil

Um livro que depressa se torna familiar, seja pela acessibilidade da escrita deste nosso filósofo, seja por revermos nele a nossa vivência, a nossa mãe e avós, políticos e ‘artistas’, enfim.. Portugal.

Uma obra que tenta explicar ao mundo (e aos portugueses) um Portugal ressacado de anos de ditadura e ‘crises’, de não-inscrição e ‘até logos’, de obrigações e ‘obrigados’, de ser-se pequenino, da falta de liberdade e das ‘liberdadezitas’, etc.

De certa maneira, uma antítese do português ‘poeta’ de que nos falava Agostinho da Silva, mas que serve quase como o interlúdio em jeito de psicanálise (à la Frank Ocean) ao álbum do Fernando Pessoa, Quinto Império – um Portugal ainda por cumprir.

Por vezes intitulada de crítica infecciosa e desertora, nah!, José Gil escreveu a meu ver uma sincera carta de amor a Portugal, uma carta que visa a reconciliação, aceitação e educação de um país que não se conhece, não se entende e não se celebra