Livro de Receitas para Anarquistas: da liberdade da publicação à prisão do arrependimento

Um pequeno manual com receitas para explosivos, drogas recreativas, armas caseiras e outros instrumentos de desordem.

Quando pensamos em questões mais abstractas como a felicidade ou a liberdade, temos tendência para pensar numa lógica quase imediata de quanto mais melhor. E, se do ponto de vista social, esta lógica é um bom pretexto para a tolerância — deixar os outros serem tão livres quanto puderem —, do ponto de vista pessoal esta questão pode ganhar múltiplos sentidos e dar aso a outro tipo de constrições como os remorsos. É esse o exemplo de William Powell que ainda hoje permanece actual, apesar do seu falecimento em Julho de 2016, ainda para mais, numa área que nos é tão sensível quanto a liberdade de expressão ou de publicação.

William Powell tinha 19 anos, cabelos desguedelhados e uma barba revoltada que espelhava a sua atitude perante o mundo que o rodeava quando escreveu e publicou o livro que mudou a sua vida e não só, The Anarchist Cookbook — o livro de receitas anarquistas; um pequeno manual com receitas para explosivos, drogas recreativas, armas caseiras e outros instrumentos de desordem.

O pequeno livro que Powell publicou como símbolo da sua luta é um exemplo uma contra-cultura emergente nos Estados Unidos que protestava contra as ocupações militares promovidas pelo país mas se outro sobreviveram à turbulência e hoje em dia são vistos como ídolos, o seu exercício libertário pode ter ido, no entendimento de alguns, longe demais e até para si se tornou motivo de arrependimento — como aliás revela no documentário American Anarchist, rodado pouco tempo antes da sua morte.

William Powell no filme American Anarchist

The Anarchist Cookbook é um desafio aos standards e liberdade de publicação e simultaneamente um sucesso de vendas. Se estes parâmetros podiam ser causa de orgulho e indicadores do mérito do seu escritor, as consequências por vezes associadas ao título acabaram por ser motivo de arrependimento. Um arrependimento que nem a nota inicial atenua.

“Read this book, but keep in mind that the topics written about here are illegal and constitutes a threat. Also, more importantly, almost all the recipes are dangerous, especially to the individual who plays around with them without knowing what he is doing. Use care, caution, and common sense. This book is not for children or morons.”

William Powell escreveu o livro como um acto de revolta contra a guerra do Vietname e a aceitação tácita da violência nesses contextos. Assim coordenou como resposta a publicação de um livro que, no seu jovem ideário, daria por um lado ferramentas aos povos para se oprimirem contra a violência dos estados e, por outro, tornaria transparente as manobras e técnicas por este utilizados, podendo consciencializar uma massa alargada de pessoas para a problemática.

Se no imediato essa estratégia lhe pareceu de algo modo exequível, 40 anos depois, Powell vê nos atentados e ataques terroristas associados à sua obra que motivou as pessoas erradas e nas guerras que se seguiram ao Vietnam, como o caso do Iraque, a prova do insucesso em toda a prova da sua acção.

Em 2013, numa das notas de arrependimento mais conhecidas sobre o seu trabalho em que pedia a retirada de circulação do livro, William Powell explica sucintamente o seu fracasso recorrendo para isso a uma frase de Aristóteles: ficar chateado é fácil. Foi com base nesta premissa que Powell percebeu que a raiva contra o sistema o tinha feito singrar pelo caminho mais fácil e, como o próprio completa no seu artigo, difícil é saber com quem e quando se chatear, algo que falhou na missiva do então jovem norte-americano.

Até à data, o livro já tinha vendido mais de 2 milhões de cópias. Pelo seu intuito puramente activista, William Powell abdicou dos direito de publicação e comercialização que ficaram nas mãos da editora que, apesar dos pedidos do autor, continua a vendê-lo contra a sua vontade.