A falta de liberdade de expressão no mundo do futebol

Jogadores, árbitros e treinadores vivem num ambiente pesado e poluído, do qual nem a comunicação social se safa.

Celebrámos há uns dias um dos mais importantes aniversários da nação. No dia 25 recordam-se as conquistas de Abril, não se deixa cair no esquecimento o passado tenebroso da repressão e em cima disto proteja-se o futuro. É usual dizer que todos os dias do ano é importante remar para que o dia 24 de 1974 e tudo aquilo que representa não volte. Em Abril de 2018, os dias estão mais extremados e as pessoas mais inflamadas, deixando um pouco de lado a tolerância e os valores de liberdade de expressão que se tornam mais valiosos a cada mês que passa.

O futebol é o espelho da sociedade fanática em que vivemos. Fenómeno de alienação colectiva mais famoso em Portugal, o desporto futebol consiste num campo de batalha, onde se procura a todo o custo ter razão, encarar o adversário como inimigo e cativar os adeptos para integrarem as trincheiras numa guerra perdida. Os valores democráticos que tentam imperar no país há mais de 40 anos foram esquecidos por quem manda, consolidando um clima de arrastamento dos mais fiéis seguidores dos clubes.

Se o futebol nunca foi apenas e só o jogo nas quatro linhas, hoje a comunicação do futebol tem duas realidades opostas. Por um lado, os mais entusiasmantes agentes do futebol (jogadores, treinadores, árbitros) estão cada vez mais em silêncio, dominados pelas máquinas dos clubes ou das instituições. No outro lado da moeda, as instituições assumem uma comunicação de acção e reacção constante nos canais próprios ou através da comunicação social onde procuram que a sua retórica contagie os adeptos afectos e ao mesmo tempo que imponha a sua verdade perante as pessoas de uma forma geral.

É relevante esmiuçar as duas realidades. Começando pelos actores do fenómeno, importa dizer que os jogadores de futebol são hoje peões com vontades limitadas. Têm objectivos e sonhos datados no tempo estando na mão de treinadores, clubes e agentes. Naturalmente que o desempenho real pode ditar melhor ou pior sucesso, porém são activos (palavra económica para definir uma pessoa) demasiado dependentes das entidades patronais. O agente jogador tem a sua liberdade penhorada até terminar a carreira, senão vejamos: quando um jogador de um clube grande dá uma entrevista a um órgão de comunicação social existe um espaço controlado de perguntas e ao mesmo tempo uma bolha de lugares comuns de respostas. As afirmações que recorrentemente ouvimos da boca de um jogador não reflectem menos apetência intelectual, mas sim posições seguras que não agitam águas. Quantas vezes ouvimos posições políticas de jogadores perante este ou outro assunto? Poucas. Não é difícil perceber porquê. Não interessa ao clube, não interessa ao jogador, a sociedade do futebol não tem abertura para isto. Perde o adepto que gosta de futebol, apenas.

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Os árbitros são historicamente o alvo mais fácil por parte dos adeptos. O elemento neutro dentro do campo deve funcionar como ator imparcial, julgando as acções no relvado com o conhecimento elevado sobre as leis do jogo. Os árbitros não têm voz. São a classe mais corporativa do desporto e representados por um líder que de forma única os representa. Ao longo dos anos tem-se adensado o debate sobre dar voz aos árbitros. Como agente do jogo era de importância máxima ouvir as justificações sobre as decisões técnicas mas também sobre a abordagem que iriam ter para cada jogo. Sendo este cenário totalmente improvável, será utópico ouvir um juiz desportivo sobre outros temas da sociedade civil.

Dos agentes dentro do campo, os treinadores de futebol são aqueles que mais ouvimos ao longo da época. Em cada conferência de imprensa, o líder do balneário tem a liberdade controlada para responder às questões dos jornalistas. Neste ecossistemas há duas variáveis a ter em conta. O perfil e o feitio do treinador irão ditar a riqueza e a liberdade genuína numa conferência de imprensa. São vários os exemplos de treinador que fazem parte de uma máquina de clube oleada onde uma certa retórica é repetida até à exaustão com chavões bacocas. Depois há outros treinadores que devido à sua personalidade conseguem dar conteúdo novo e fresco, falando do jogo, das decisões tácticas e mesmo das questões fraturantes diárias no clube.

A segunda variável a ter em conta passa pelo papel da comunicação social na conferência de imprensa, neste particular e no futebol em geral. No momento de encontro entre o treinador e os jornalistas, quem tem a liberdade das questões pode ditar o rumo de um acontecimento rico e proveitoso ou pelo contrário insistindo no ambiente pesado e poluído que se vive.

A comunicação social deve ser o porta-voz do futebol para os adeptos. Da forma mais objetiva possível não deve escamotear a essência do futebol e tem obrigação moral de valorizar o produto que a sustenta. Independentemente do desfecho do campeonato 2017/2018, esta época fica marcada pelos conteúdos acessórios e pelo grau zero de informação de futebol. O essencial continua a ser aquilo que os adeptos querem, mas não aquilo que tem mais receita. Infelizmente os bons profissionais dos media continuam a remar contra uma maré forte e poderosa que a todo o custo quer manter o status quo podre do futebol português. Também por isto, os adeptos do futebol começam a refugiar-se na essência daquilo que os apaixona. O aparecimento de podcasts de clube (Sporting 160, A Culpa é do Cavani ou Benfica FM) e de futebol no geral (Linha Lateral) mostram que o adepto livre continua a querer qualidade, seja com os seus pares, seja com especialistas honestos e com conhecimento aprofundando sobre o jogo.

Importará reflectir sobre a liberdade no futebol, tendo presente que o adepto é aquilo que restará quando tudo o resto falir.