La Casa De Papel: sabes a história de “Bella Ciao”, a música símbolo da série?

Remonta à Segunda Guerra Mundial e ao fascismo de Mussolini mas tem sido entoada como forma de protesto por todo o mundo, em várias línguas.

la casa de papel série

Tenhas ou não visto a série, sejas ou não fã, já deves ter ouvido falar da série La Casa de Papel. É o último mega sucesso do Netflix, um fenómeno viral tardio que veio da espanhola Antena 3. Tardio porque a série estreou em Maio de 2017 no seu país de origem e chegou ao Netflix no Natal. Ao longo de três meses, foi acumulando mais do que espectadores, adeptos fervorosos da história do assalto à Fábrica Nacional de Moneda y Timbre, em Madrid.

A história tem todos os ingredientes certos para o sucesso: suspense, um plano meticulosamente executado, personagens carismáticos (intelectualmente e não só) e o facto de poder ser acompanhada de uma enfiada, em jeito de binge watch, sponsored by Netflix. Parece um filme lento, que podes acompanhar com mais pormenor por partes (episódios) mas que por isso facilmente te agarra ao ecrã, ainda que, no fundo, o argumento não seja muito diferente do de outros filmes sobre assaltos a bancos veja-se por exemplo Inside Man (ou O Assalto Perfeito, em português) onde um assaltante inteligente cria um plano mirabolante e tem de lidar com um bom negociador de reféns. Neste não há máscaras, há panos brancos para tapar o rosto, mas se quiseres máscaras tens The Town, de e com Ben Affleck, que também interpreta um perspicaz assaltante de um banco que acaba por se envolver com uma das reféns tudo isto, mascarado de freira.

À receita para o êxito junta-se a banda sonora que vai de Schubert a Beethoven e até um Fado português incluiu, mas há uma canção especifica, que sonoriza um momento de flashback entre o Professor (Álvaro Morte) e Berlim (Pedro Alonso): “Bella Ciao”.

Mas que música é “Bella Ciao” afinal? Faz sentido idolatrá-la como os fãs de La Casa de Papel têm feito, sem saber o seu contexto?

Historicamente, “Bella Ciao” foi um símbolo da resistência italiana durante a Segunda Guerra Mundial, como protesto contra as invasões e a política de extrema direita de Benito Mussolini, entre os anos de 1943 e 1945. Foi ainda a banda sonora de vários protestos de partidos de esquerda por todo o mundo, incluindo as manifestações pro-democracia em Hong Kong, em 2014, ou a mais recente campanha eleitoral dos partidos de extrema esquerda na Grécia, como o Syriza.

Sabe-se que serviu de inspiração ao cineasta Roberto Rosselini para o seu clássico Roma, città aperta (ainda que a música não faça parte da banda sonora).

A sua origem é pouco precisa. Alguns historiadores sustentam a tese de que “Bella Ciao” terá sido inspirada num cântico entoado por camponeses da zona italiana de Emilia Romagna, no início do século XX. Para outros especialistas, segundo o site da Agência Italiana de Notícias, a canção é “um conjunto de influências de músicas populares do norte da Itália”.

Nessa altura a música diria qualquer coisa como:

E entre insetos e mosquitos, oh querida, adeus, um duro trabalho devo fazer.
O capataz em pé com o seu bastão, oh querida, adeus,
e nós, encurvadas, a trabalhar!
Trabalho infame, por pouco dinheiro, oh querida, adeus!
e a consumir a tua vida!
Mas virá o dia em que todas nós, oh querida, adeus, trabalharemos em liberdade.

Reformulada, aquando da Segunda Grande Guerra, contra o governo fascista de Mussolini e a invasão alemã, a letra dizia o seguinte:

E se eu morrer como resistente
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E se eu morrer como resistente
Tu deves sepultar-me
E sepultar-me na montanha
Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!
E sepultar-me na montanha
Sob a sombra de uma linda flor

Em Maio de 1968, a música foi entoada de novo por operários e estudantes nos protestos como forma de rebelião e hino comunista. Desde então, são muitos os músicos que a cantaram em protesto pelo mundo e muitas as versões regravadas em várias línguas (por artistas italianos, russos, bósnios, croatas, sérvios, húngaros, ingleses, espanhóis, alemães, turcos, japoneses, chineses e curdos). Entre as mais conhecidas está a do artista francês Manu Chao.