O caso do sniper israelita que está a chocar o mundo

"Um tal ódio e desprezo pela vida de um palestiniano é o reflexo da mentalidade cruel da ocupação militar de Israel e do impulso que tem a sua política sistemática de disparar a matar contra os civis palestinianos", declarou em comunicado o responsável da OLP.

Fotografia da zona da vedação da faixa de Gaza

Remonta ao fim-de-semana passado, quando um vídeo que mostra um sniper israelita a abater um manifestante palestiniano, perante aplausos e louvores de outros soldados, surgiu na Internet.

O angustiante vídeo, que foi legendado pelo jornal israelita Haaretz, foi aparentemente gravado através de uns binóculos ou de uma arma, e mostra a felicidade do soldado que o gravou quando o manifestante é atingido. Grita “Sim! Filho da puta!” eufórico e vangloria-se de ter captado o momento em vídeo. Enquanto os manifestantes correm para ajudar o homem que foi atingido, ouve-se outro soldado a dizer: “Uau, alguém foi atingido na cabeça.” Momentos depois, quando uma outra voz diz que não viu o que aconteceu, um deles ri-se, ao dizer que o manifestante que foi baleado “voou no ar”.

O vídeo foi divulgado num contexto de tensão na região, que aumentou desde que começou a chamada “Marcha do Retorno”, a mobilização que reclama o direito ao retorno dos refugiados palestinianos e que prosseguirá, segundo os seus organizadores, até 15 de Maio. A 30 de Março concentraram-se cerca de 30 mil pessoas junto da fronteira com Israel, e no último fim de semana mais 20 mil fizeram o mesmo, em cinco pontos da Faixa de Gaza, onde se montaram simbólicos acampamentos permanentes e têm decorrido várias actividades.

No total, incluindo dois palestinianos mortos em confrontos distintos, o balanço de mortos desde 30 de Março ascende a pelo menos 32 cidadãos palestinianos, segundo o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza. Não houve qualquer vítima do lado israelita.

A justificação do exército israelita

Um comunicado das Forças de Defesa israelitas confirmou entretanto a veracidade do vídeo, mas diz que o episódio não aconteceu durante esta mais recente onda de protestos em Gaza, durante a qual atiradores israelitas já mataram pelo menos 27 manifestantes. Ocorreu a 22 de Dezembro, disse o Exército, durante protestos em Gaza por causa da decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

O Exército israelita considerou hoje, após ter concluído uma investigação, que vai enviar as suas conclusões para o Gabinete Geral Militar, entidade encarregada da aplicação dos códigos de conduta. Em comunicado, refere que o vídeo foi gravado por um soldado que nem sequer fazia parte da unidade que abriu fogo e que estava destacada para acompanhar manifestações de protesto. O exército garantiu que estas manifestações foram “violentas”, uma vez que os manifestantes — disse — lançaram pedras e aproximaram-se da fronteira.

“Uma vez que nenhuma (das advertências) teve êxito, disparou-se uma única bala contra um dos palestinianos, suspeito de ter organizado e de liderar este incidente, enquanto este estava a poucos metros da vedação. Atingiu-o na perna e este ficou ferido”, indicaram os militares.“Quanto à gravação não autorizada de uma acção operacional, a distribuição do material e as declarações realizadas, devemos levar em conta que estas não se ajustam ao grau de contenção que se espera dos soldados. Em consequência, o comando lidará com elas”, acrescenta a mesma nota.

O Governo defende o tiro e aplausos ao momento

Apesar da declaração de desaprovação do exército, altos funcionários israelitas têm feito de tudo para defender o comportamento dos soldados captado em vídeo.

O ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, escreveu no Twitter que também ele comemorou o tiroteio, ainda que o facto de ter sido gravado tenha sido lamentável. “O sniper deveria receber uma medalha e quem filmou deveria ser despromovido”, escreveu ele em hebraico, com uma imagem fixa do vídeo.

“Chegámos a um nível de insanidade e desilusão”, disse o ministro da Segurança Pública, Gilad Erdan, à rádio israelita. “O último dia em Israel foi assim tão aborrecido para este vídeo ter esta exposição toda? Tirar uma situação destas do campo de batalha, quando os soldados estão sob stress e estão a ser-lhes atirados explosivos e enfrentam tentativas de infiltração, e julgar a sua resposta humana das poltronas em Tel Aviv?” A opinião foi partilhada pelo Ministro da Educação que disse que “qualquer pessoa que já tenha estado num campo de batalha sabe que estar sentado em Tel Aviv ou em estúdios de televisão e julgar soldados pelos seus comentários, quando eles estão ocupados a defender a fronteira, não pode ser levado a sério.”

Como num desfile de declarações infelizes, também o Ministro da Ciência e Tecnologia disse que certamente o homem atingido “não era um civil inocente que se aproximava em procura da paz.” Reconhece que episódios como este não devem acontecer porque mancham a imagem de Israel, que tem pela frente um caminho muito difícil, se não impossível, no que à sua diplomacia pública diz respeito.

“Qual é o motivo para toda esta agitação?”, perguntou no Twitter Oren Hazan, do partido Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Qualquer um que se aproxima da cerca, armado ou não, vai levar. Como deve ser!”

A defesa da Palestina

Yousef Munayyer, que dirige a Campanha norte-americana pelos Direitos Palestinianos, refere quão extremas e reprováveis são as actuais regras militares israelitas, ao permitir o uso de fogo letal contra manifestantes que chegam se aproximem de Gaza.

O secretário-geral da Organização de Libertação da Palestina, Saeb Erekat, apelou entretanto à comunidade internacional para que investigue o vídeo no centro da polémica. “Um tal ódio e desprezo pela vida de um palestiniano é o reflexo da mentalidade cruel da ocupação militar de Israel e do impulso que tem a sua política sistemática de disparar a matar contra os civis palestinianos”, declarou em comunicado o responsável da OLP.

Erekat vê no vídeo um exemplo daquilo que considera serem “crimes de guerra” israelitas. Por isso mesmo, considera que o Tribunal Penal Internacional deve abrir uma investigação contra Israel, porque apesar de este caso ter sido filmado e por isso ter tido uma repercussão maior que outros, os casos de violência desproporcional no seio deste conflito são muitos, principalmente nas últimas semanas.

Israel enfrenta fortes críticas das organizações de defesa dos direitos humanos, inclusive israelitas, pela utilização de balas verdadeiras contra os manifestantes. Depois do dia 30 de Março, durante o qual 19 palestinianos foram mortos, a União Europeia e a ONU pediram a abertura de um inquérito independente. Dia 6, durante uma nova jornada de manifestações marcada por confrontos, foram mortos dez palestinianos, entre os quais Yaser Murtaja, um jornalista envergando um colete em que se lia “Press”, fazendo com que a UE se interrogasse novamente sobre o uso proporcionado ou não da violência por Israel.

O Governo de Benjamin Netanyahu acusa o Hamas, no poder na Faixa de Gaza, de estar por detrás deste movimento de protesto, e afirma que os soldados israelitas abriram fogo contra manifestantes que tentavam infiltrar-se no seu território apenas por necessidade e para impedir ataques. O executivo veio também dizer que o jornalista morto era membro do braço armado do movimento islamita: um “terrorista vinculado ao braço militar do Hamas” com “uma patente similar à de capitão”.

Um colega de trabalho de Murtaja considerou “ridículas” as declarações do Ministro da Defesa, que assegurou que o jornalista cobrava dinheiro do Hamas desde 2011 e usava um drone para reunir informações sobre as tropas israelitas instaladas na fronteira com Gaza. Segundo o sindicato de jornalistas palestinianos, cinco profissionais da área ficaram feridos nesse dia, e podiam ser identificados claramente devido aos coletes que usavam.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, manifestou-se “profundamente preocupado” com os confrontos na Faixa de Gaza e pede “uma investigação independente e transparente a estes incidentes.” A posição de Guterres, divulgada na página oficial da ONU, solicita “a todos os envolvidos que se abstenham de qualquer acto que possa causar mais vítimas, em particular quaisquer medidas que possam colocar civis em risco.” O líder da ONU acredita que “esta tragédia sublinha a necessidade de revitalizar o processo de paz, com o objectivo de criar condições para um regresso das negociações que vão permitir que palestinianos e israelitas vivam lado a lado em paz e segurança.”

Em Portugal, o parlamento condenou, com votos favoráveis de todos os partidos menos o CDS-PP, que se absteve, a “violência desproporcional do exército de Israel” contra palestinianos em Gaza e pediu “um apuramento independente” sobre estes incidentes. Neste voto de condenação e pesar apresentado pelo PS, o parlamento também “apela ao respeito por Israel das suas responsabilidades decorrentes do direito internacional humanitário e à realização de um apuramento independente e transparente dos actos que conduziram aos confrontos” e “manifesta a sua solidariedade com os esforços da comunidade internacional em encontrar uma solução justa, assente numa solução de dois Estados e aceite pelas partes para o conflito israelo-palestiniano”.

O futuro

É incerto, como sempre tem sido a vida na fronteira entre Palestina e Israel.

O Egipto abriu ontem por um período de três dias a sua fronteira com a Faixa de Gaza para os casos “humanitários”, comunicou a autoridade palestiniana responsável pelos controlos fronteiriços. Esta é a quarta vez desde o início do ano que o Egipto abre a passagem fronteiriça de Rafah, entre o sudoeste do enclave palestiniano e a península montanhosa e desértica do Sinai egípcio. Os casos “humanitários” referem-se a pessoas doentes ou feridas, que não possam receber tratamento adequado na Faixa de Gaza, que sofre um bloqueio nas fronteiras terrestre e marítima por parte de Israel há mais de dez anos. A agência noticiosa France Presse constatou que um autocarro com 70 pessoas, na maioria mulheres e crianças, cruzou a fronteira de Rafah para entrar no Egipto.

A abertura foi anunciada numa altura em que, pela terceira quinta-feira consecutiva, palestinianos manifestam-se ao longo da linha fronteiriça entre Gaza e Israel. De acordo com a comunicação social israelita, o Egipto tenta acalmar a crise entre palestinianos e israelitas — O Egito é um dos dois únicos países árabes que assinaram um tratado de paz com Israel, negociado com os dirigentes do movimento Hamas, que exerce poder administrativo em Gaza.

Até 15 de Maio muito acontecerá. Os palestinianos reclamam o “direito de regresso” de cerca de 700.000 palestinianos expulsos das suas terras ou vítimas da guerra que se seguiu à criação de Israel, em 1948. O ponto de passagem de Rafah é a única saída para os habitantes de Gaza que pretendam entrar no Egipto, mas os egípcios têm mantido a fronteira fechada nos últimos anos, invocando questões de segurança.

Os ministros árabes dos Negócios Estrangeiros reuniram-se hoje em Riade, a capital saudita, para preparar a próxima cimeira da Liga Árabe, prevista para domingo em Damam, leste da Arábia Saudita, com a questão palestiniana na agenda. O ministro jordano assegurou que o problema é “a prioridade dos árabes”, sublinhou o “perigo” de Israel prosseguir “a ocupação” do território e “a privação do direito do povo palestiniano de possuir um Estado e a liberdade”. Neste contexto, o secretário-geral da Liga Árabe, o egípcio Ahmed Aboul-Gheit, sustentou que a decisão dos Estados Unidos de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel constitui “um repto sem precedentes” para o conflito israelo-palestiniano.