Isao Takahata, o resumo da obra de um dos mestres de animação japonesa

E um obrigado sincero ao mestre por ter deixado estes e muitos mais tesouros para as gerações futuras.

Isao Takahata faleceu no dia 5 de Abril, já com a idade avançada de 82 anos. A sua carreira confunde-se com a história da animação japonesa na segunda metade do século XX e no início do novo milénio. Aqui ficam algumas recomendações para revisitar a obra:

Séries de televisão

O primeiro trabalho do senhor que salta à memória do portugueses que viram a RTP 1 durante os anos 70, 80 e 90 em Portugal é inevitavelmente Heidi. Lançado em 1974 no Japão, Heidi conta a história de uma criança adorável nos alpes austríacos, com uma paisagem natural, onde vive com o avô até se separar dele e arranjar um trabalho numa casa da alta burguesia na cidade. Separada da família e da natureza sofre uma tristeza imensa até voltar às montanhas. No mesmo registo infantil mas com carga emocional acentuada, é lançada em 1976 a história de Marco, um rapaz italiano, também ele adorável, que vai em busca da mãe que está a trabalhar na Argentina quando adoece. Os temas de abertura de ambas as séries são icónicos e nostálgicos, susceptíveis de fazer (sobretudo os nossos pais) soltar algumas lágrimas — Disso e de pôr toda a gente contarolar, numa clara demonstração do peso de Isao mesmo na vida de quem provavelmente não sabe quem ele foi.

O nome que aparece ligado incondicionalmente a Isao Takahata é Hayao Miyazaki. Quando se conheceram nos estúdios Toei, o cinema japonês começou a sua grande mudança. Durante toda a década de 60 e 70 a parceria deu ao mundo títulos como Lupin III, que foi passando na Sic Radical. Outra criação impressionante devido à sua mensagem ambientalista e complexidade das personagens foi Conan, o rapaz do futuro. Popularizaram-se vários filmes pós-apocalípticos com o selo de qualidade de Hayao Miyazaki, mas a influência de Takahata não pode ser ignorada.

Estúdios Ghibli

Em Conan são introduzidos os temas anti-guerra e a preocupação ambiental e esse é o ponto de partida para se perceberem os filmes desenvolvidos mais tarde pelos dois. Após produzirem Nausicaä do Vale do Vento, a dupla formou os Estúdios Ghibli, onde se revezaram a produzir e a realizar os filmes um do outro. Quem está familiarizado com os filmes dos Estudios Ghibli, sabe que é comum existir uma moral que não tão infantilizada como nos filmes de animação originais dos Estados Unidos. Os temas são sérios e fortes. Nesta fase, a obra prima que se refere sempre que se mencionam filmes de guerra é O túmulo dos Pirilampos. O filme é realizado por Takahata mas a história original é parte de uma autobiografia de Akiyuki Nosaka. O trama envolve dois irmãos que tentam sobreviver aos horrores da Segunda Guerra Mundial, num cenário infernal e de extremas dificuldades. Emocionalmente pesado, é de uma qualidade estética ímpar. Se alguém quiser ver apenas um filme de Isao Takahata, deverá ser este. (Aviso: É de chorar baba e ranho)

Nos anos 90, o filme que deve ser referido é Pom Poko. Neste filme, Cães Guaxinim mágicos (guaxinins naturais da Ásia) envolvem-se numa guerra contra os humanos pelo território. A mensagem é de cariz marcadamente ambientalista, mas o filme não deixa de ser hilariante e emocionante.

Mais recentemente, Isao realizou o filme O Conto da Princesa Kaguya, que para além de arrecadar um prémio no festival de animação de Lisboa Monstra em 2015, também foi nomeado para o Oscar de melhor animação nesse mesmo ano.

O legado de Isao Takahata é ainda maior e infelizmente é impossível referir tudo. Estas sugestões são uma pista para se conhecer mais da animação japonesa e um obrigado sincero ao mestre por ter deixado estes e muitos mais tesouros para as gerações futuras.