A informação nutricional e a moda do “sem tudo e mais alguma coisa”

Numa era em que a informação é quase infinita, ficamos meio perdidos entre o sem glúten, sem lactose, sem açúcar e sem nada.

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Hoje em dia a alimentação é tema recorrente. E ainda bem. Ainda bem que as pessoas estão a ganhar mais consciência e a interessar-se mais por saber aquilo que estão a comer.

No entanto, numa era em que a informação é quase infinita, ficamos meio perdidos entre o sem glúten, sem lactose, sem açúcar e sem nada. A informação é tanta, está em tantos sítios, há tanta gente a dizer coisas diferentes, que damos por nós completamente perdidos na maionese e a questionar tudo: “mas então, o que é comer bem afinal? Comer carne faz bem? Comer lacticínios faz mal? Vou ou não comer glúten? Vou ou não comer açúcar?”

 

“It’s beyond strange that so many humans are clueless about how they should feed themselves. Every wild species on the planet knows how to do it; presumably ours did, too, before our oversized brains found new ways to complicate things. Now, we’re the only species that can be baffled about the “right” way to eat” – The Last Conversation You’ll Ever Need to Have About Eating Right, by Mark Bittman and David L. Katz

Recebo frequentemente pessoas no meu trabalho que me perguntam: “tem aveia sem glúten?”. E eu pergunto “mas é celíaco?”. Quem sou eu para questionar as opções dos outros, mas esta coisa de fazer tudo só porque sim irrita-me um bocadinho. Uma coisa é não comer glúten porque se é celíaco, ou porque não sendo celíaco não conseguimos digerir bem esta proteína, e de cada vez que a comemos sentimo-nos inchados e com algum mal estar. Outra coisa totalmente diferente é fazer tudo aquilo que aparece porque “ah li que faz mal”.

Ponto 1: a aveia não tem glúten. Nunca teve, nem nunca terá. 

O que acontece é que a maioria das fábricas onde se produz aveia produzem também produtos com trigo e outros cereais onde o glúten está presente. E nesse caso pode existir contaminação cruzada e a tua aveia sem glúten já foi. Quando assim é, o rótulo tem sempre a indicação de que o produto pode conter glúten. E “pode conter” é muito diferente de “contém”. “Pode conter” não é apto para celíacos, mas é apto para ti que não queres comer glúten porque de facto já percebeste que o teu organismo não se dá bem com ele, e até para ti que não comes glúten porque faz mal. Por isso, vamos lá relaxar e deixar-nos de extremismos.

Ponto 2: cuidado com o marketing. Lê os rótulos e informa-te bem. 

Hoje em dia, se for preciso, temos bananas sem lactose. E o que quero dizer com isto é que as grandes indústrias se apoderaram deste boom da comida saudável e natural, para venderem mais. Escreve-se “sem glúten” numa embalagem de um produto que nunca na vida teve glúten e “natural” numa bebida vegetal cujo primeiro ingrediente é açúcar (não vamos referir marcas, mas fica atento da próxima vez que fores às compras).

Não é porque diz “sem açúcar”, “natural” ou “saudável” que é realmente bom. Muitas vezes se olhares para o rótulo vais perceber que não é nada natural nem nada saudável. E aqui a estratégia é muito simples: evita as listas longas de ingredientes e os nomes desconhecidos. Se um produto tiver mais do que 3 ou 4 ingredientes, significa que já é mais processado do que deveria. Os alimentos mais saudáveis são aqueles que não têm rótulo, como a fruta e os legumes. Pensa nisto.

 

“Um erro muito comum é o de as pessoas assumirem que todos os produtos que estão no supermercado e que têm a descrição de produtos isentos de glúten, são alimentos saudáveis. Um alimento processado e com uma data de validade alargada, nunca poderá ser um alimento saudável. Sendo que a maioria dos produtos sem glúten acabam por ser muito ricos em açúcares, gorduras hidrogenadas e aditivos alimentares.”Diana Patrício, Naturopata

 

Ponto 3: a dieta/estilo alimentar perfeito não existe

Para já porque somos todos diferentes, temos necessidades diferentes e formas de ver a comida diferentes. Isto significa que nunca poderá existir um único tipo de alimentação que funcione para milhões de pessoas. No entanto, uma coisa é certa: não há estilo alimentar que não privilegie os vegetais frescos, a fruta e os cereais integrais.

 

“Ethical concerns aside, which diet is the best: vegan, vegetarian, or omnivorous? We don’t know, because the study to prove that any one diet is “best” for human health hasn’t been done, and probably can’t be. So, for our health, the “best” diet is a theme: an emphasis on vegetables, fruits, whole grains, beans, lentils, nuts, seeds, and plain water for thirst. That can be with or without seafood; with or without dairy; with or without eggs; with or without some meat; high or low in total fat.” – The Last Conversation You’ll Ever Need to Have About Eating Right, by Mark Bittman and David L. Katz

 

Ponto 4: não te coloques dentro de uma caixa/estilo alimentar pensando que nunca poderás sair dela

O ser humano cresce e vai evoluindo, assim como as nossas opiniões. Por isso se decidiste ser vegan, ou paleo, ou vegetariano, ou macrobiótico, ou seja o que for, e passado 6 meses percebes que não queres continuar a fazer esse tipo de alimentação, sai dessa caixa, porque tens essa liberdade. És tu que vives no teu corpo, por isso, quem melhor que tu sabe o que funciona melhor para ele? Acima de tudo, faz aquilo que te fizer sentido e não te coloques dentro de uma caixinha a pensar que não podes sair dela.

Por fim, deixamos-te algumas sugestões de leitura, se és curioso no que toca a este assunto:

– The Last Conversation You’ll Ever Need to Have About Eating Right

  • “Saber Comer”, um livro do jornalista americano Michael Polland, com regras práticas que todos podemos adoptar para ter uma alimentação mais limpa. Regras como “não coma nada que a sua bisavó não achasse que era comida” ou “evite produtos alimentares que se gabem dos seus benefícios para a saúde”

  • “Em Defesa da Comida”, outro livro do mesmo autor, que desta vez faz uma breve reflexão sobre porque é que comer se tornou numa actividade tão complicada.