A doença silenciosa que a tua amiga pode ter

A endometriose é mais comum que aquilo que pensavas. Não ignores os sintomas, fica a conhecer melhor a doença.

Se já alguma vez ouviste alguém queixar-se de dores menstruais ao ponto de não conseguir fazer alguma coisa, o mais provável é teres demonstrado alguma solidariedade, encolhido os ombros, e a vida de ambos continuou como se nada fosse.

Se calhar essa pessoa é uma amiga tua. Se calhar é a tua prima ou até a tua irmã. Se calhar essa pessoa és tu.

Nesse caso, tenho uma novidade para ti: existe uma doença que se chama endometriose cujo principal sintoma são essas dores menstruais debilitantes.

Endo-quê?

Endometriose. Sem entrar em detalhes demasiado técnicos, trata-se do crescimento de tecido semelhante ao do endométrio (tecido que se encontra no útero, que cresce durante a ovulação e que descama durante o período menstrual) em partes do corpo em que não é suposto: zona pélvica ou até mesmo nariz, pulmões e cérebro.

É uma doença crónica que acomete uma em cada 10 pessoas que tenham sistema reprodutor feminino e a ela estão associados muitos sintomas, sendo o mais flagrante as cólicas menstruais intensas.

Cólicas menstruais, e não só

É importante sublinhar que nem todas as mulheres com endometriose sofrem de dores menstruais. Inchaço abdominal, crises de sintomas semelhantes aos da apendicite, náuseas, vómitos e/ou alterações intestinais durante a menstruação, dor lombar crónica e infertilidade são apenas alguns sinais da presença de endometriose.

Os sintomas têm tendência para irem progredindo ao longo dos anos, podendo ser silenciados pela toma da pílula. Mas atenção: a doença continuará a desenvolver-se silenciosamente.

Eu sou uma das pessoas afectadas. Levei 13 anos até descobrir que, afinal, as dores que me aniquilavam periodicamente as vísceras eram um sintoma de uma doença – e não fui um caso excepcional. Segundo a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, uma mulher leva em média entre 8 a 12 anos desde as primeiras queixas até obter um diagnóstico.

Uma doença complexa de gerir

Até ao momento, não se pode dizer que exista uma cura ou tratamento. Idealmente, as aderências de endometriose podem ser removidas cirurgicamente.

Mas, se a intervenção não for feita pelas mãos certas, a taxa de reincidência pode ser muito alta, que é o que acontece na esmagadora maioria das vezes — conferindo à doença o carácter de reincidente.

A verdade é que há muito poucos cirurgiões no mundo que estejam verdadeiramente habilitados a realizar esta cirurgia com uma baixa probabilidade de a doença voltar. Existem, no entanto, várias formas de manter os sintomas sob controlo e recuperar, assim, alguma qualidade de vida.

Falta de informação e de falta de apoio

Apesar de muito frequente e desgastante, a endometriose é pouco falada, pouco conhecida e pouco estudada. Recentemente esteve nas bocas do mundo por causa da actriz norte-americana Lena Dunham, portadora da doença que veio a público divulgar que fez uma histerectomia para se “curar”. Por isso, desde que fui diagnosticada, arregacei mangas e criei O Meu Útero para disseminar informação, gerar consciencialização sobre a doença e partilhar formas alternativas de controlo dos sintomas. Dei-me conta que me tornei naquilo a que chamam pelas redes sociais de “endo-activista”.

E sabes porque é que é importante este activismo?

Porque da próxima vez que a tua amiga, prima ou irmã se queixar das suas agonizantes dores menstruais, tu já não vais encolher os ombros como se nada fosse. Tu vais dizer-lhe que existe uma doença que se chama endometriose.

Este texto foi escrito por Catarina Maia, portadora de endometriose que criou o projecto O Meu Útero para lutar por uma maior consciencialização sobre a doença.