Quem são os donos de tanta informação gratuita?

O financiamento directo, a facilitação no fornecimento de um determinado serviço ou o estabelecimento de contratos publicitários que explorem e financiem desde logo o projecto são algumas das componentes diferenciadoras.

Apesar de ser uma área de negócio muito particular, onde as margens de lucro e a rentabilidade são pouco convidativas, no macro-contexto as empresas de media seguem a mesma tendência que as demais noutros sectores. Essa tendência é a da concentração do poder em grandes grupos. Uma dinâmica muitas vezes associada à retórica da inevitabilidade e que vai mascarando as debilidades mais profundas do sector.

Se noutras geografias os jornais de referência ainda se notabilizam ao nível da tiragem conseguindo ser sustentáveis, em Portugal, até esses se vêem forçados a reestruturações para sobreviver numa área onde a capacidade de investimento se tornou vital. Não é só a demanda de novos formatos mas também a necessidade de, através desses formatos, conquistarem — ou re-conquistarem — um público pouco activo na busca de informação.

Para além da pertinência, rigor e engenho é preciso capacidade de amplificar e distribuir mensagens num ambiente onde os media competem com produtores de conteúdo de todos os tipos. A somar a isso juntam-se os custos de manutenção de uma infraestrutura capaz, quer a nível técnico quer humano. É neste cenário que mesmo projectos tão disruptivos quanto o The Intercept, por exemplo, se suportam, das mais diversas formas associando-se a grupos económicos de poder ou a milionários em nome individual. Esta configuração não esconde nada de ilegal, imoral ou incorrecto, mas levanta dois pontos de importante debate. Por um lado, a pouca transparência e, por outro, a falência dos modelos de negócio praticados pelos jornais, à medida que a comunicação e as relações se digitalizam.

O estabelecimento de consórcios ou a influência de grupos de poder na imprensa e jornalismo — sejam eles privados ou públicos — é um assunto transversal mas com diversas materializações possíveis. A relação entre os universos financeiro e editorial nem sempre é explícita, não porque os órgãos a escondam mas porque a ideia construída sobre a isenção do jornalismo torna o leitor insensível às várias componentes de negócio, permitindo que uma marca editorial exista realmente. A transição para um universo de informação disponível gratuitamente, com o nascimento da “internet social”, deteriora a noção de responsabilidade detida pelo leitor que não paga para ler. Neste contexto, emergem e destacam-se as marcas com maior capacidade de investimento sendo as alternativas relegadas a planos onde o crescimento é difícil. Assim se explica a fraca baixa percentagem de meios de comunicação fora do mainstream nacional.

O financiamento directo, a facilitação no fornecimento de um determinado serviço ou o estabelecimento de contratos publicitários que explorem e financiem desde logo o projecto são algumas das componentes diferenciadoras.

No trabalho propriamente dito, a influência pode nem ser estrutural mas a subjectividade de uma marca editorial nunca pode ser entendida como totalmente neutra — a escolha dos temas, dos ângulos de abordagem, dos cronistas, tudo aporta uma carga simbólica inalienável que se traduz na agenda de cada OCS. E, por nos habituarmos a conotar tudo com rótulos simplistas como esquerda e direita, tudo tem um lado mais objectivo mesmo que se pressuponha a restrição aos factos de cada profissional.

O processo complexo, desde a seleção dos temas em função das prioridades até aos destaques dados seja nas redes sociais — através da escolha dos formatos — ou no plano físico — através dos destaques em capas, pode tornar-se permeável. Essa possível permeabilidade é de resto conhecida e reconhecida, como evidencia por exemplo as notícias sobre o processo de José Sócrates e a denuncia sobre a detenção de 17% do grupo fundador do jornal I por parte de Carlos Santos Silva ou, mais recentemente, a denúncia feita por Daniel Oliveira num artigo de opinião publicado no Expresso visando o Correio da Manhã e a sua parca cobertura do caso da poluição no Tejo, apontando como explicação o facto de Celtejo, uma das principais visadas, e Cofina terem uma estrutura acionista semelhante com Paulo Fernandes como pivot — sendo CEO da Cofina e CEO da Altri, detentora da Celtejo.

A presunção da inocência é óbvia e inapelável e este artigo não pretende de modo algum levantar suspeições sobre a idoneidade e independência de quem quer que seja. As conclusões ficam para o leitor, aqui queremos apenas encarar e elencar alguns factos que acabam por ficar submersos na espuma dos dias, para que futuras leituras sejam mais conscientes — partindo pelo menos da ideia que a total isenção é praticamente inalcançável. De resto, até o timing de lançamento de uma notícia deve ser considerado — veja-se como Feliciano Barreiras Duarte, ex-secretário de Estado, só viu o seu currículo escrutinado pela imprensa quando se tornou nº 2 do PSD na liderança de Rui Rio — o ex-deputado até colabora regularmente com dois órgãos de comunicação social.

Se nos primórdios a escassez de meios técnicos e de um público alfabetizado fazia do jornalismo a forma de difusão por excelência de factos importantes, hoje em dia, os media funcionam antes como criadores de narrativas num universo extremamente complexo — valendo-se da falsa ideia de cobertura total e neutra, criada pela produção exaustiva de conteúdo.

Os donos da informação gratuita são, assim, não necessariamente os receptores das mensagens — consumidores da informação — mas, pelo contrário, os interessados em difundir narrativas assentes em determinados valores, que podem estar mais ou menos expressos nas respectivas linhas editoriais. Não sendo necessariamente mau este cenário, que permite uma maior pluraridade no panorama editorial, não pode ser esquecido em qualquer altura da nossa relação com as diferentes marcas; pelo contrário, este deve ser um critério activo na sua avaliação. Como? Por exemplo, relativizando a sofisticação.

Como referido na introdução, o custo das infraestruturas é uma das principais componentes diferenciadoras. Assim em vez de valorizarmos por absoluto a sofisticação dos órgãos de comunicação social, devemos focar a nossa análise no conteúdo, relativizando essa componente. A título ilustrativo, tome-se como exemplo as alternativas apontadas num outro artigo do Shifter e a simplicidade de cada um dos projectos, indício provável da sua organicidade.

Como David Foster Wallace, um conceituado ensaísta sobre este tópico, expressava num das suas várias abordagens ao tema, a passagem da noção de factos, para a noção de ‘verdade’ tornou os media cada vez mais ideológicos — não no sentido banal de associação a um partido ou espectro político mas no sentido mais objectivo de apenas propagarem as condições sociais em que puderam nascer. Assim, um órgão de comunicação social detido por empresários tenderá a recair sobre a agenda do mercado livre, como um detido por um partido político só conceberá a política nessas condições. Se em alguns casos todos estes agentes são úteis ao normal funcionamento social, por outro distanciam-se de uma noção de progresso transversal, capaz de se focar em temas de base como os direitos humanos.

“The ever increasing number of ideological news outlets creates precisely the kind of relativism that cultural conservatives decry, a kind of epistemic free-for-all in which “the truth” is wholly a matter of perspective and agenda. In some respects all this variety is probably good, productive of difference and dialogue and so on. But it can also be confusing and stressful for the average citizen. Short of signing on to a particular mass ideology and patronizing only those partisan news sources that ratify what you want to believe, it is increasingly hard to determine which sources to pay attention to and how exactly to distinguish real information from spin.”

A necessidade de os OCS subsistirem no sistema capitalista, equiparados a outras empresas, torna difícil a definição dos critérios do seu sucesso que podem, muitas vezes, neste contexto, sobrepôr-se e contrariar-se, sobretudo em modelos de negócio que dependem mais do que da comparticipação dos consumidores (pagamentos, subscrições, donativos), da massiva concentração destes (publicidade). Outro ponto considerável e muitas vezes esquecido tem a ver com a concessão de créditos bancários para a manutenção destas marcas, algo que também foge ao acesso totalmente equitativo e democrático.

O assunto, que daria para o dobro da extensão é apenas uma nota da debilidade dos modelos vigentes e da sua influência no sentido de enfraquecer o sistema democrático, tem sido debatido em todas as frentes. Um dos últimos círculos onde a discussão teve lugar foi no centro da UE, onde uma Comissão designada para estudar o fenómeno deixou 5 recomendações.

  1. enhance transparency of online news, involving an adequate and privacy-compliant sharing of data about the systems that enable their circulation online;
  2. promote  media and information literacy to counter disinformation and help users navigate the digital media environment;
  3. develop tools for empowering users and journalists to tackle disinformation and foster a positive engagement with fast-evolving information technologies;
  4. safeguard the diversity and sustainability of the European news media ecosystem, and
  5. promote continued research on the impact of disinformation in Europe to evaluate the measures taken by different actors and constantly adjust the necessary responses.

O assunto é extenso e sensível e qualquer conclusão que tentasse responder objectivamente à pergunta do título seria sempre francamente insuficiente. Só uma prática diária treinada, consciente e que procure cruzar as diferentes realidades representadas pelos media pode fazer com que os leitores resgatem a informação, tornando-se também eles construtores — e, sobretudo,  ‘descontrutores’ — das narrativas sociais predominantes.