Desdicionário da Língua Portuguesa, o dicionário que se não fosse inventado tinha de existir

É uma espécie de dicionário do imaginário que agora, depois de um hiato digital, ganha forma física sob o desígnio de um neologismo: desdicionário.

Nasceu há uns anos no Facebook com o nome Novas palavras Novas e rapidamente, pela sua pertinência e a facilidade com que o público se identificou com os significados tornou-se num caso sério de popularidade especialmente entre a comunidade criativa. É uma espécie de dicionário do imaginário que agora, depois de um hiato digital, ganha forma física sob o desígnio de um neologismo: desdicionário.

Publicado por Novas Palavras Novas em Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

O Desdicionário é obra do criativo (termo utilizado para designar alguém que faz várias coisas com criatividade) português Luís Leal Miranda e reúne 219 verbetes para palavras inventadas que foram passando pelo Facebook do projecto. Com edição da Stolen Books juntou-se ao projecto o elemento gráfico a que esta editora nos vai acostumando (livro do Bráulio, remember?), desta feita com ilustrações da autoria de José Cardoso. O resultado são 200 e poucas páginas de humor bem temperado de criatividade, daquele que para além nos fazer rir nos deixa a pensar.

O Orlando é um nerbo (o gerúndio do verbo "orlar").

Publicado por Novas Palavras Novas em Quarta-feira, 30 de Setembro de 2015

As palavras inventadas por Luís Leal Miranda são mais do que simples piadas fáceis. Embora sejam simples piadas põem a perspectiva uma das regras clássicas da comunicação nacional, a língua, mostrando ao leitor como apesar de parecer estanque uma língua pode ser infinitamente dinâmica, reinventando-se.

Foi com estas ideias em mente que, por e-mail, desafiámos o autor a responder a questões da nossa mera curiosidade numa conversa que nos deixou a olhar para este livro com outros olhos — menos sérios, mais criativos, com tudo o que de sério tem a criatividade que nos deixa a pensar, destrói preconceitos e redefine regras.

A primeira coisa de que me lembrei ao ver este projecto ainda no Facebook foi duma passagem da Sociedade do Espectáculo onde o Debord aponta como um dos motivos para a “cristalização” da ideologia dos países poder ser a idade avançada das suas línguas e o facto de se tornarem “mortas” e imutáveis. Projectos como este, podem ter o efeito contrário ao despertarem o público para a possibilidade de evolução da língua?

LLM: A nossa língua não está morta nem moribunda. Está bastante viva, sobretudo porque recebe transfusões regulares de estrangeirismos, tecnicismos e vulgarismos. Mas é uma língua um pouco emperrada quanto aos neologismos. É preciso fazer uns alongamentos, exercitar os músculos. (há aquele mito de que a língua é o músculo mais forte do corpo, etc).

Aquilo que eu tento fazer no desdicionário é brincar com as palavras – não é uma aula de educação física, é o recreio da escola. Não é desporto organizado, é calvinbola.

Respondendo à pergunta: gostava que o livro despertasse a curiosidade para a criação de novas palavras. Pode ser um passatempo interessante, como a canaricultura, a aquariofilia ou a criação de bichos-da-seda. Chamemos-lhe logocultura, etimofilia ou neologística.

Publicado por Novas Palavras Novas em Segunda-feira, 2 de Abril de 2018

O objectivo lúdico é indissociável do projecto mas às vezes gostavas que olhassem para o desdicionário com um olhar mais sério?

LLM: O nosso vocabulário é um camião dos bombeiros da Lego muito bem montado. Mas podemos transformá-lo numa nave espacial se esquecermos as instruções. O meu respeito pelas leis que regem o léxico é mínimo e o meu conhecimento das regras para a formação de palavras é elementar. Mas gosto de me divertir com elas.

Por isso prefiro que olhares sérios se afastem do livro. Até porque lhes pode fazer mal à vista. O desdicionário é um objecto meramente lúdico. Uma brincadeira. Pode fazer-nos ponderar a rigidez com que nos exprimimos ou sensibilizar-nos para algumas expressões novas e estranhas que ouvimos por aí. Mas não há ali material para dissertações académicas.

Publicado por Novas Palavras Novas em Sexta-feira, 25 de Setembro de 2015

Alguma das palavras inventadas acabou por ficar no teu léxico ou das pessoas que te rodeiam? Propositadamente ou sem querer?

Muitas delas eu já usava no meu dia-a-dia antes do livro sair: já comia croissandes* de fiambre e manteiga, já fazia apneia moral em viagens de taxi,  etc. As pessoas à minha volta foram sendo contagiadas, mas o uso destas palavras é muito pontual.

Publicado por Novas Palavras Novas em Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2016

Quais são os próximos passos do projecto? Há alguma evolução possível ou o livro já era algo que não tinhas imaginado?

LLM: O livro tem 200 e tais palavras e eu já inventei mais de 500. Parece que vou continuar a fazê-lo porque tenho o cérebro sintonizado nesta frequência de onda. Não consigo parar. É possível que haja uma segunda edição, revista e aumentada, uma colecção de tapetes de rato, um musical e uma linha de perfumes. Não sei ao certo. Tenho para sair no início do Verão dois livros pequenos editados por uma editora minúscula: o Novo Alfabetário do Português Contemporâneo e As Letras Secretas do Alfabeto. São uma espécie de sucessores espirituais deste desdicionário.

*Croissandes: uma sandes normal, de queijo ou fiambre, com croissant no lugar do pão.