O que se aprende num fim-de-semana 100% desconectado

Liberdade para estar simplesmente, liberdade para pensar.

Desliguei o wi-fi e os dados móveis, e activei um modo especial no smartphone restringindo-o a seis apps. Meti-me no comboio para Coimbra, apanhei uma boleia até à Lousã (porque a linha ferroviária foi desactivada em 2010 – com a promessa de construção de um Metro do Mondego, entretanto cancelado porque se percebeu que seria caríssimo), e da Lousã até à recôndita Cerdeira. Uma Aldeia do Xisto localizada numa encosta algo inclinada da Serra da Lousã.

Não é fácil lá chegar sem ser de carro e, mesmo assim, exige uma condução cautelosa pelas curvas apertadas e subidas íngremes. A paisagem ao longo da viagem surpreende e compensa a exigência — de repente, estava entre montes verdejantes (com excepção de alguns que foram apanhados pelos incêndios de 2017), cascatas vivas de água, e de histórias sobre veados e javalis. À chegada, um silêncio relaxante e um frio desconfortante, mas bom. Aquilo tudo ia ser o meu wallpaper durante um fim-de-semana, em vez do meu próximo post no Instagram.

Sabia de ante mão que a rede móvel em Cerdeira seria escassa e que wi-fi só no café da aldeia, e essas eram apenas as desculpas de que precisava para fazer uma pausa na tecnologia. Andava a precisar disso e, se no início estava um pouco apreensivo, dois dias sem fazer um único scroll, swipe ou tweet soube que nem o entrecosto com castanhas do restaurante Sabores de Aldeia, no Candal, ao pé (e a meia hora a pé) de Cerdeira.

O digital causa-nos fatiga mesmo sem nos apercebermos. Antigamente, as pessoas recebiam em sua casa as novidades de outras, por mensageiros e cartas, depois surgiram os telefones e a televisão tornando tudo ligeiramente mais próximo, agora a internet que faz com que essas novidades nos persigam. No bolso, transportamos smartphones que nos mantém agarrados por motivos que nem sempre conseguimos explicar e que, às vezes, nos transformam em autênticos zombies no meio da rua. Ligam-nos ao mundo lá de fora mas desligam-nos do mundo em redor.

E isto pode parecer a conversa do costume quando se fala de tecnologia, mas é uma conversa que é preciso levar mais a sério. A internet, as redes sociais e os smartphones têm os seus efeitos sociais e psicológicos – os serviços estão desenhados para nos prenderem o máximo de tempo possível, através de notificações constantes e de outras mecânicas que mexem com o nosso cérebro, criando a sensação de mal estar quando não estamos conectados. Sem darmos por isso, estamos viciados e, se achamos que não, basta fazer o teste desligando tudo durante uns dias ou uma semana. Faz lembrar o vício do fumo, que a certo ponto se torna um hábito que pouco questionamos porque escolhemos não pensar nas consequências.

Nem a propósito, na semana antes de ir, um colega meu do cowork do Baldaya – do qual faz parte o Shifter – tinha-me falado de um desafio de desconectar da internet, que havia feito e inspirado mais dois colegas a fazer. Numa pequena conversa na nossa sala, falámos sobre o o facto de uma das primeiras coisas que fazemos de manhã ser consultar as notificações do telemóvel, para ver o que perdemos durante a noite. Partilhei a minha experiência de evitar esse comportamento e de, há uns meses para cá, andar com os dados móveis desligados quando estou fora do escritório e à noite – regra que nem sempre dá para respeitar, infelizmente. Noutra conversa, na mesma semana, um amigo meu partilhou a sua frustração de não conseguir deixar a internet, onde acabava por perder demasiado tempo. (Sinais, sinais everywhere.)

É verdade que a tecnologia se tornou parte integrante das nossas vidas. Desde que tive o meu primeiro smartphone, quando é que estive desconectado? Foi uma das perguntas que me fiz enquanto estava em Cerdeira. E lembrei-me do desconforto que senti no passado em estar offline, das vezes em que pedia aos meus pais para nas férias de família arranjarem alojamento com wi-fi, das partilhas que faço nas redes quando me estou a divertir e das que os outros fazem. Em suma, da necessidade que sentimos de estar sempre ligados e a partilhar (ou a pensar que partilhamos).

Mas a verdade é que o mundo corre lá fora enquanto estamos ligados. Num sítio onde o nosso smartphone é só phone, fica a Cerdeira Village. Um nome é em inglês porque a coisa é internacional. Uma espécie de refúgio criativo onde pessoas de várias partes do mundo vão para criar e se deixar inspirar pela natureza e pela calma envolvente. Este empreendimento turístico – porque afinal é isso que é – é dinamizado por workshops de vez em quando. Um desses workshops era o motivo principal da minha viagem. Sobre escrita de viagem, um tema que me interessou pelo facto de saber pouco ou nada sobre ele.

Escrever de viagens, sem distrações

Escrita de viagem tem dois grandes ramos: o literário, composto por autores como Fernão Mendes Pinto, cronista de A Peregrinação, ou José Saramago com o seu Viagens Em Portugal; e o jornalístico, género em desuso pelo menos em Portugal e que tem vindo a ser substituído por artigos mais superficiais sobre hotéis, restaurantes e outros pontos de interesse turístico. É uma escrita que pode adoptar diferentes estilos e inclusive ser em poesia. Neste tipo de textos, geralmente escritos na primeira pessoa, o autor conta-nos a sua viagem – a sua perspectiva sobre os lugares, as pessoas e os costumes; são relatos obviamente subjectivos e que muitas vezes servem como documentos históricos e/ou de reflexão sobre questões políticas, sociais…

A escrita de viagem é, sobretudo, um exercício de tempo – algo que em Cerdeira, e sem smartphones por perto, existe em abundância. Não havia distracções, não havia forma de cair na foto fácil no Instagram ou de uma qualquer notificação no WhatsApp nos atrapalhar: somos nós e o que está em nosso redor e isso é bom quando visitamos um lugar novo. Aprendi muito, dei valor ao caderno e ao lápis como há algum tempo não dava, abri um livro nos tempos mortos, li uma revista antes de me deitar. A bateria do telemóvel lá durou os dois dias sem um único carregamento só com aquelas seis apps de “emergência” – pouco o utilizei.

Segunda-feira, lá voltei a conectar-me à internet e percebi que pouco ou nada tinha perdido. Os algoritmos do Facebook trataram de mostrar o que consideraram mais relevante no topo do News Feed, o mesmo fizeram os do Twitter. Acima de tudo, o fim-de-semana desconectado serviu para relativizar o que se passa online. Não vou deixar de usar a internet, muito menos as redes sociais pois oferecem conteúdos e conhecimentos que gosto de ter e que me são úteis – até para o meu trabalho diário. Mas aprendi que o que se passa na internet é apenas uma parte do mundo que me rodeia e que está tantas vezes cheia de futilidades, ideias pouco maturadas, muito pouco pensamento e reflexão. Ah, e muitas polémicas sem nexo – já me deixei de me meter nelas –, que são cenas que apenas existem nas redes sociais (especialmente no Twitter) e que apenas reforçam a ideia de que a bolha não é um mero preconceito.

Procuro tirar o maior proveito da internet. Prometi a mim mesmo dar mais importância ao resto. Limitar o tempo que passo online e as vezes que por dia consulto as notificações no telemóvel ou abro as redes sociais ao mínimo necessário/razoável. Comecei a dar mais valor ao papel e a um caderno de linhas que passa a estar sempre comigo. Não precisamos de uma app para tudo, até porque consome bateria e a vista – faço as minhas listas de tarefas à mão, anoto em vez de tweetar. Passei a dar mais valor e a mim e ao meu pensamento.

(O redactor deste artigo viajou a convite da Cerdeira Village, mas escreveu este texto com total isenção.)