Beyoncé deu um espectáculo de UX no Coachella

Beychella foi um espectáculo dentro do espectáculo do Coachella. Um espectáculo de cultura de massas e de empatia.

Sou a pior pessoa para falar de cultura pop. Sou ainda a pior pessoa para falar sobre Beyoncé. Mantenho-me a par das novidades, mas dificilmente dou tempo de antena a música industrializada. E, vá lá, não me venham com a questão hipsterista, porque para além das camisas vintage, ainda acredito na autenticidade das coisas, e isso reflecte-se muito nos artistas que sigo ou nas salas de concerto que frequento.

Não vou ser hipócrita: também me mantenho a par das tours dos meus artistas preferidos, mesmo aqueles que põem tanta autenticidade nas suas criações, que tentam ser contracorrente, mas que toda a magia das suas tournées se perde em 40 minutos de vídeo no YouTube. Acreditem, é verdade. Nos dias anteriores ao concerto de Arcade Fire no Campo Pequeno, o entusiasmo era tanto que fiz da minha playlist um vídeo carregado no YouTube por um tal Larry Rulz, que mostrava com definição todo o concerto e setlist de um gig em Nova Iorque.

Claro que as coisas no Campo Pequeno não foram diferentes: “Everything Now” para abrir o apetite, “No Cars Go” para por o pessoal no mood, “Wake Up” para a despedida (irónico, não é, um álbum que é uma verdadeira crítica  o conteúdo, estraga a magia de um fã com conteúdo). E o panorama não é muito diferente de artista para artista, porque a indústria cultural assim o exige. Engraçado, quem diria que me iria lembrar de Theodor Adorno das aulas de Sociologia da Comunicação.

O conceito de indústria cultural veio substituir a expressão “cultura de massa”, pois a sociedade de hoje envolveu-se na cultura para que esta se transformasse numa força capaz de transmutar a arte num produto sem autenticidade. Um produto comercial, facilmente transportável, industrializado, sem valor crítico e carácter genuíno.

Para que possamos perceber melhor, imaginem o concerto de Arcade Fire que vos falei materializado numa t-shirt que podemos encomendar online. As réplicas que vemos na Feira do Relógio são a reprodução gratuita nas plataformas online, que, se já falávamos de um produto extremamente massificado e sem autenticidade, vem agora tornar-se ainda mais abrangente e sem valor comercial.

Este é o panorama da cultura, que nos devia fazer pensar um bocadinho. Pelo menos a mim, o concerto da Beyoncé no Coachella fez-me pensar que são estas artistas que transformaram a indústria que continuam a ter o poder de a transformar novamente, pela verdadeira definição da palavra cultura. A Beyoncé não é só um nome impulsionador da indústria cultural com uma função basilar comercial, é também um ponto de viragem de como assistimos a concertos na era digital. E o Beychella é um verdadeiro exemplo disso, pelo seu storytelling e manifestação cultural e pela experiência na ótica do utilizador, cof* cof*, óptica do espectador. Algo pré-fabricado, sim, mas muito bem pensado em termos de User Experience. E algo, possivelmente, pensado para dar um high hook e marcar a viragem da indústria cultural, voltando aos pressupostos da cultura de massas: espontaneidade (embora pensada), originalidade e propósito.

O Coachella foi marcado, em primeiro lugar, por um statement gigantesco: a primeira mulher negra a ser headline de um dos maiores e mais famosos festivais do mundo. Esta foi a linha transversal do concerto, onde houve espaço para homenagear a cultura negra, não só através das músicas, como através de mensagens semióticas embutidas nas roupas ou nas cores do espetáculo. Mas a internet está cheia deste ponto de vista, e eu quando vos falei de User Experience noto que a Beyoncé conseguiu por o utilizador na linha da frente, pondo de parte a massificação do seu concerto, havendo lugar para quem estava no recinto ou na internet a assistir ao stream online, fazendo com que o Beychella trouxesse para cima da mesa uma nova experiência cultural.

Falo de UX, porque uma das palavras de ordem da User Experience é a empatia, e eu tenho a certeza que a equipa da Beyoncé pensou em cada perfil de cada um dos fãs, longe ou perto, que assistiram ao seu maravilhoso concerto. Isto não é mais do que desenhar as diferentes personas a quem quis proporcionar um espetáculo incrível, colocando-se em diferentes posições, porque esta transmissão no YouTube foi excelente durante 3 horas. Tudo isto suportado por uma equipa exclusiva de filmagem para levar os melhores ângulos aos seus fãs. Mas do início: claramente que as perguntas estratégicas que aplicamos num projecto resolvido por usabilidade são aplicadas aqui: qual o insight, qual o problema a ser resolvido, o brainstorming, a fase de testes, o feedback, um processo fundamental para qualquer produto ou serviço que usa os conceitos de UX.

Quando ao brainstorming, sabemos que ao longo do tempo vão aparecendo os primeiros protótipos: aqui, desde o rascunho do palco aos figurinos (na verdade quantos rascunhos foram feitos para chegar ao produto final)? Só depois entramos na fase de teste: e não é que os ensaios que duravam 11 horas diárias? Sem teste, é impossível saber se vai resultar, dando então destaque a esta fase – tão importante quanto o próprio produto.

Relativamente ao feedback, o mesmo podem pesquisar na internet, pois existem milhares de críticas, artigos, fotos e teorias dos fãs. Para mim, na óptica do utilizador, é um sinal claro de que ainda há esperança naquilo que consumimos culturalmente, pondo assim o consumidor no centro da acção e trazendo mais relevância aquilo que para os mais céticos deixou de o ser – na verdade, somos nós que interessamos, não é verdade?