Stephen Hawking: para além de genial, um homem de causas

Hawking liderou o pelotão, mas também bateu continência contra este, em avisos que o mundo por vezes se escusou a ouvir.

Stephen Hawking na marca contra a guerra do Vietname em 1968 (foto via Lewis Morley Archive)

Sobre a competência técnica e científica de Stephen Hawking, não resta qualquer tipo de dúvida; sobre a sua resiliência pessoal e capacidade de superação, a avançada idade da sua morte para uma pessoa na sua condição – com Esclerose Lateral Amiotrófica – diz tudo; mas Stephen Hawking não se esgotava a sua iniciativa nesse dois capítulos por si só inspiradores, associando-se frequentemente a causas políticas e humanitárias, posicionando-se sobretudo contra conflitos armados ou ocupação de territórios indevidos.

No dia da sua morte, lembramos as suas frases mais marcantes, as suas conclusões científicas mais notáveis. Mas, numa altura em que a especialização técnica se dissocia cada vez mais do rigor ético em prol do lucro e do sucesso mediático, recordamos também momentos em que o notável físico vestiu a camisola do activismo, posicionando-se, com a mesma força com que lutou contra o desconhecido e a doença, contra a norma política vigente ou acontecimentos específicos.

Hawking contra a Guerra do Vietname

Um desses primeiros momentos, registado numa icónica fotografia que nos mostra um Hawking bem diferente e numa condição de saúde melhor que àquela a que nos habituámos, passou-se em 1969 quando o físico terá juntado-se à marcha contra a Guerra do Vietname ao lado da actriz Vanessa Redgrave e do escritor paquistanês Tariq Ali. Mesmo que hoje se duvide da veracidade da fotografia, sobre a sua posição a certeza é unânime. Contudo, nem a notabilização e o lugar de destaque no mundo das ciências, que começou a ganhar dois anos mais tarde – com a sua primeira grande descoberta –, a conquistar abalaram o seu espírito humanitário.

THE MAN IN THJE 1968 PIC IS NOT STEPHEN HAWKINGSSad that Stephen Hawking has left us…he opposed the Vietnam war and…

Publicado por Tariq Ali em Quarta-feira, 14 de Março de 2018

Hawking contra a Guerra do Iraque

Anos mais tarde, em 2004 e com o despoletar da intervenção militar no Iraque, Hawking voltou a assumir sem medos e, desta feita, perante um mundo que já o ouvia atentamente, a postura de activista social, apelidando a decisão dos Estados Unidos de invadir o Iraque como criminosa e baseada em mentiras. “A primeira é que estávamos em perigo pelas armas de destruição em massa e a segunda é que o Iraque tenha sido culpado do 11 de Setembro”, disse na altura.

Se para o segundo motivo ainda se acumulam teorias, possíveis respostas e explicações, sobre o primeiro ponto rapidamente se provou a razão do britânico que nessa intervenção não poupou nas palavras. “Tem sido uma tragédia para todas as famílias que perderam os seus membros. Já morreram perto de 100 mil pessoas, metade delas crianças e mulheres. Se isto não é um crime de guerra, é o quê?”, acrescentou o físico teórico.

Nessa marcante intervenção, no Trafalgar Square, em Westminster, Inglaterra, organizada pela Stop The War Coallition, viu-se como nem as debilidades físicas lhe tiravam o discernimento, a coragem ou o à vontade. Entre as suas chamadas de atenção, leu alguns dos nomes dos civis iraquianos, mortos pela guerra, e, fazendo referência ao seu problema, pediu desculpa pela sua pronúncia, lembrando que o seu sintetizador de voz não estava preparado para aquela língua.

Hawking contra o Governo de Israel

Com o passar do tempo e o evoluir das causas, Hawking nunca se coibiu de dar a sua opinião, mesmo contra a corrente. No Reino Unido, foi sempre um advogado de defesa da causa quotidiana que é o sistema nacional de saúde e, mesmo em tópicos de monta internacional, onde a polarização é evidente e as conclusões saem a medo, Hawking não temia falar. Foi o que fez contra as políticas do Governo de Israel.

Hawking, que até 2006 visitou quatro vezes o país, mudou radicalmente a sua postura aquando da sua última visita. Se à chegada dizia querer conhecer “cientistas israelitas e palestinianos”, ao regresso as suas convicções estavam pela proteção deste último povo – algo que se tornou público e evidente em 2009.  Numa intervenção para a Al Jazeera, Hawking condenou veementemente três ataques à zona de Gaza, considerando-os “completamente desproporcionais” e afirmando que “a situação é como África do Sul antes dos anos 1990 e não pode continuar”.

E se essas afirmações tinham deixado clara a sua posição, quatro anos depois foram as acções a comprová-lo. Em 2013, Hawking juntou-se a uma série de outros intelectuais boicotando uma a Conferência Presidencial Israelita para a qual havia sido convidado, pelo então Primeiro-Ministro israelita, Shimon Peres. Depois de numa primeira instância ter aceite o convite, Hawking terá endereçado uma carta ao Peres, que fora posteriormente publicada pelo British Committee for the Universities of Palestine, na qual reiterou o carácter independente da sua decisão, que disse ter tomado com base no seu conhecimento sobre a Palestina e as opiniões unânimes dos académicos que conheceu nessa zona do globo – uma decisão que chocou as instâncias centrais israelitas, chegando a ser apelidada de anti-democrática e contra a liberdade.

Nos últimos anos da sua vida, Hawking não deixou morrer este seu espírito. Recentemente, no Web Summit, em Lisboa, partilhou algumas das suas preocupações do ponto de vista social. embora politicamente a sua voz já não fosse tão activa – muito fruto da sua condição –, Stephen Hawking debruçou-se sobre o potencial destruidor da inteligência artificial e a necessidade de ter cuidado nos avanços tecnológicos. Uma afirmação que deixa indelével o seu à vontade em posicionar-se contra consensos e maiorias mesmo em temas sensíveis, e revela para quem não conhecia o homem por trás do ícone, a consciência em que se baseou a sua obra e vida.

Hoje, no dia da sua morte e no contexto como o artigo começa por descrever, é mais importante que nunca sublinhar como Hawking liderou o pelotão, mas como também bateu continência contra este, em avisos que o mundo por vezes se escusou a ouvir.