Umberto Eco disse na voz de Maia: “Quem disse que a verdade vos libertará?”

A guerra é um assunto que diz respeito a todos nós, mas não podemos confiar totalmente nos media.

A notícia não é de hoje, nem deste ano, mas a actualidade da estratégia não está por isso posta em causa. Um dia depois de se assinalarem 15 anos sobre a invasão do Iraque, e num mês em que dedicamos particular atenção ao sensível tema da informação, recordamos uma notícia que por muito estrondo que tenham causado na altura, não fez eco por muito tempo – a notícia de que o Governo norte-americano terá pago 500 milhões de dólares a uma empresa de relações públicas para criar vídeos de propaganda falsos, simulando cenas de guerra e destruição.

A revelação foi feita pelo Bureau of Investigative Journalism e o seu detalhe mostra bem como o plano mediático se tornou num autêntico campo de batalha, onde profissionais altamente treinados e qualificados se degladeiam por conquistar credibilidade para os seus pontos de vista. O arsenal de armas com que se luta nessa guerra é verdadeiramente assustador. Sem ser sequer equiparável com o sofrimento que se passa em locais de conflito, mostra como todos nós acabamos por ser soldados rasos num conflito global.

Realidade ou ficção?

Se estranhas algumas das notícias sobre os conflitos armados por te parecerem tão surreais, só dás razão ao que nos leva a escrever este artigo. Afinal de contas, essa desconfiança é uma evidência de que revelar as verdades mais chocantes pode ser a melhor forma de as continuar a resguardar em segredo, como diz Umberto Eco, num dos seus livros, sobre a influência da CIA na democracia europeia, o Número Zero.

Nessa obra, um autêntico ensaio sobre o jornalismo vítima de pressões, Eco traça com uma ironia refinada, num diálogo entre o casal protagonista da narrativa, uma assertiva crítica aos dois lados da barricada: o do emissor e do receptor. Sem nunca ser óbvio, ou directamente crítico, conta num tom de alguma desilusão como actores e reactores se deixam viciar pelo jogo da normalidade. E este caso não podia ser mais paradigmático.

«É claro, quem disse que a verdade vos libertará? Esta verdade fará parecer mentira qualquer outra revelação. No fundo, BBC prestou-lhes um óptimo serviço a eles. A partir de amanhã podes andar por aí a dizer que o Papa degola crianças e depois as come, ou que foi Madre Teresa de Calcutá quem pôs a bomba no Italicus, que as pessoas dirão: ‘Ah, sim? Curioso’, virar-se-ão para o outro lado e continuarão a tratar dos seus assuntos. Aposto cabeça em como, amanhã, os jornais nem sequer vão falar da transmissão. Já nada nos pode perturbar, neste país. No fundo, assistimos as invasões bárbaras, ao saque de Roma, ao massacre de Senigallia, aos seiscentos mil mortos da Grande Guerra e ao inferno da Segunda… imagina a minudência de algumas centenas de pessoas mandadas ao ar durante quarenta anos. Serviços secretos descarrilados? Coisa para rir, em comparação com os Borgias. Fomos sempre um povo de punhais e de venenos. Estamos vacinados, a qualquer nova história que nos contem, dizemos que já ouvimos outras piores, e talvez esta e aquelas fossem falsas. Se os Estados Unidos, Os serviços secretos de metade da Europa, O nosso governo e os jornais nos mentiram, porque não poderia ter mentido também a BBC? O único problema sério para o bom cidadão é não pagar os impostos, e, depois, os que mandam quefaçam o que quiserem, afinal é sempre a mesma manjedouro amém.

Estás a ver que bastaram dois meses com Simei para também eu ficar esperta?

– Maia em Número Zero de Umberto Eco

A forma como, apesar da emersão dos factos, os protagonistas continuam com o seu ar convicto a traçar e anunciar as suas estratégias gera, no público, uma sensação de alienação face à realidade que visiona. Assim, como diz Eco, uns continuarão a suportar os criminosos e desacreditarão a BBC, o Bureau of Investigative Journalism ou qualquer que seja o meio a protagonizar a revelação, enquanto outros simplesmente se alheiam do assunto em busca de algo com que se relacionem de uma forma mais próxima. A ideia de inevitabilidade inerente aos tons decididos e absolutamente normais mesmo dos prevaricadores é o terreno mais fértil para que verdades chocantes caiam no esquecimento global ou sejam chutadas para canto com o rótulo simplista de teorias da conspiração, mesmo que depois de provadas pelo trabalho de investigação de profissionais.

Os Estados Unidos e a propaganda falsa

Mas voltemos ao caso e aos factos revelados pelo trabalho do Bureau of Investigative Journalism, agora que está feito o ponto sobre a importância de não os esquecermos por muito que o tempo passe. Em discussão estão os primeiros tempos do conflito iraquiano e parte do material que alimentou a opinião pública, criando uma imagem manipulada daquele país – o Iraque – e dos seus governantes. A empresa em questão, ainda hoje no activo e com um rasto deixado por sucessivas polémicas desencadeadas por uma certa “imoralidade” ou “amoralidade”, é a Bell Pottinger e terá sido responsável naquela altura pela criação de todo o tipo de conteúdo, no mais diversos suportes, reforçando a mensagem desejada pelo Pentágono.

Segundo o relatório de investigação, até falsos telejornais com rodapés escritos num dicionário árabe terão sido criados em estreia colaboração entre os serviços militares norte-americanos e a empresa britânica. E se a referência ao Número Zero de Eco ainda não parece totalmente justificada, um ponto mostram como o que escreveu é bem verdade. Lord Tim Bell, o director executivo da Bell Pottinger na altura, e conhecido como o trunfo na campanha de Margaret Tatcher, assumiu o seu papel nesta estratégia conforme cita a peça que serve de base a este artigo.

A empresa, que foi contratada pouco tempo depois da invasão no Iraque, foi apresentada publicamente como um difusor da democracia durante os primeiros tempos de actividade, mas rapidamente se tornou numa máquina de criação de propaganda. Ouvido, na altura, um dos britânicos convidados a colaborar no estratagema – sem, no entanto, saber bem ao que ia – mostra como a aura de naturalidade e profissionalismo conduzem pessoas normais para acções altamente dúbias. Martin trabalhava como editor de vídeo e em 48 horas viu a sua vida mudar, tendo como destino o deserto onde se juntaria aos estúdios de produção da empresa. No local, no meio do Campo Vitória e lado a lado com os soldados norte-americanos, Martin Wells conta que o seu trabalho era editar vídeos de explosões da Al-Qaeda e criar clips de notícias inexistentes que depois seriam distribuídos pelos jornais iraquianos e não só.

O trabalho da empresa britânica neste contexto de guerra era o de colaborar com o Information Operations Task Force (IOTF), produzindo o material anteriormente referido mas não só. Parte do conteúdo era gravado em CDs e encriptado, de modo a tornar-se monitorizável geograficamente à distância pela empresa britânica.

A ideia, conforme reporta Martin Wells na sua reveladora entrevista, seria criar a falsa ideia de que os conteúdos em questão eram inteiramente produzidos localmente e por fontes nacionais. E a Bell Pottinger não terá sido caso único na produção deste tipo de conteúdos – segundo o consórcio de investigação, mais de 40 empresas da área da comunicação terão trabalhado neste esquema. O envolvimento deste tipo de empresas visa proteger os órgãos internos do aparelho americano, uma vez que estão constitucionalmente proibidos de produzir e distribuir propaganda, recorrendo para isso a terceiros.

Quanto ao sucesso ou insucesso do trabalho, e até que ponto cada uma das acções configura um crime tipificado, não é fácil ter-se noção. Segundo aponta a mesma investigação, a Bell Pottinger não recriou nenhuma situação de destruição ou encenou explosões, simplesmente servia como agência noticiosa, criando a partir de situações reais notícias que se enquadrassem com a agenda que o Pentágono queria disseminar.