“Mataram uma vereadora e seu motorista” e a dimensão digital de uma tragédia no Rio de Janeiro

Marielle Franco era uma vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL. Morreu esta madrugada num tiroteio na região central do Rio, com pelo menos 4 tiros de metralhadora, num incidente que a polícia está a investigar como premeditado.

Marielle Franco Rio de Janeiro

Marielle Franco era uma vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL –Partido Socialismo e Liberdade. Morreu esta madrugada num tiroteio na região central do Rio, com pelo menos 4 tiros de metralhadora, num incidente que a polícia está a investigar como premeditado. Nascida e criada na favela da Maré, formou-se em sociologia e Administração Pública. Trabalhou em organizações da sociedade civil e coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, ao lado de Marcelo Freixo. Conseguiu, entre muitos outros, o feito histórico de ser uma mulher negra, moradora de favela, eleita vereadora da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, com 46.502 votos – desafiando a política local e brasileira ao reunir o quinto maior número de votos entre os membros do conselho quando foi eleita em 2016.

Nos últimos tempos, focava a sua luta social nos casos de abuso de força policial. No Sábado, denunciou uma acção da polícia militar na Favela de Acari, que segundo a vereadora, estaria a ser demasiado violenta.

Foi baleada dentro de um carro quando ia para casa, depois de sair de um evento sobre representatividade negra na zona da Lapa. Marielle e o motorista morreram no local, uma assessora que também seguia com eles foi levada para o hospital com ferimentos. Fontes da polícia dizem que os assassinos pararam num carro junto ao de Marielle, dispararam 9 tiros e fugiram sem levar nada.

Uma aplicação para a realidade

Cecília Olliveira é jornalista, amiga de Marielle e a criadora do site e app Fogo Cruzado. Foi ela quem denunciou na aplicação os tiros que só mais tarde soube terem estado na origem da morte da brasileira de 38 anos: “TIROS NAS IMEDIAÇÕES! rua do Matoso, na Praça da Bandeira#TirosRJ #FogoCruzadoRJ”. 

Eu postei essa informação no Fogo Cruzado às 21h36 desta quarta-feira. O Fogo Cruzado é um aplicativo que monitora a incidência de tiroteios e disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro e ao qual venho me dedicando nos últimos 2 anos.

Pouco depois da postagem, meu WhatsApp começou a receber mensagens. 21h51: “Mataram uma vereadora do PSOL e seu motorista agora. Rua do matoso esquina com rua joão primeiro”. 21h52: “Tem contatos no PSOL?”.

Paralisei e pensei: “Puta merda. Só tem uma vereadora no PSOL. Não pode ser a Marielle. Ela tava ao vivo no Facebook agora há pouco”.

Cecília relembra que a aplicação é colaborativa. Pede a participação de todos os que oiçam ou assistam a tiroteios, que partilhem detalhes e informações com o resto das comunidades. A plataforma Fogo Cruzado existe em site e app para todos os sistemas operativos – o objectivo é que o maior número de pessoas possível ajude a informar o maior número de pessoas possível.

A homepage mostra-nos um mapa aproximado ao Rio de Janeiro com a nota: “O mapa apresenta as notificações dos últimos 7 dias, para visualizar um período diferente, utilize os filtros”.

É possível filtrar os tiroteios com vítimas fatais, com feridos, sem feridos ou ainda as situações de múltiplos tiroteios no mesmo local. O utilizador pode ainda pesquisar pela sua zona ou rua. A plataforma funciona como um banco de dados, gerido por Cecília, que todos os meses compila a informação recolhida para criar estatísticas da violência na região metropolitana do Rio de Janeiro.

O site e app foram melhorados em 2018 para garantir melhor usabilidade. Foi criado um alerta de notificações com base no GPS que avisa de tiroteios ou disparos nas proximidades, é possível consultar ocorrência por ocorrência, saber o número de agentes no local e até se a imprensa está presente. “Além de receber notificações de usuários diretamente via aplicativo, a equipe de gestão de dados do Fogo Cruzado recebe informações via whatsapp, mensagens diretas via Twitter e inbox do Facebook. No caso do whatsapp, só são consideradas fontes conhecidas e com as quais já existe relacionamento prévio, como coletivos, comunicadores e moradores ativos localmente.” 

Quando chega a notificação de um tiroteio/disparo de arma de fogo, esta informação não é automaticamente publicada no mapa nem nas redes sociais da plataforma. A equipa de gestão de dados cruza as notificações com “scripts e filtros desenvolvidos para agregar informações (…) Desta forma, é possível saber quem, quando e onde está se falando sobre o assunto de forma a cruzar informações sobre um mesmo tiroteio/disparo de arma de fogo. Após tal verificação, a notificação é postada nas redes e o incidente fica em registro público.”

O detalhe com que a equipa do Fogo Cruzado analisa cada caso é demonstrativo da importância que cada uma destas situações vai ganhando na sociedade brasileira. Contra a banalização da violência mas pela sensibilização e consciencialização da que existe, a aplicação é o espelho de tudo o que está errado no Brasil, e de tudo o que precisa de ser feito para que, mergulhado numa crise política, de justiça e social há vários anos, o país consiga emergir e erguer-se, fazendo justiça por pessoas como a Marielle que, sem a conhecermos, já nos tinha representado vezes sem conta.