Quatro crews, um só vencedor, num choque de culturas que invadiu o Coliseu

A Red Bull Music Culture Clash voltou ao Coliseu dos Recreios de Lisboa com uma noite marcada por combinações musicais únicas e exclusivas, que não se encontram à venda no mercado.

Red Bull Music Culture Clash
PAUS and Pedras performs during the Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Hugo Silva/Red Bull Content Pool // AP-1UXBTK6EW2111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //

A Red Bull Music Culture Clash voltou ao Coliseu dos Recreios de Lisboa com uma noite marcada por combinações musicais únicas e exclusivas, que não se encontram à venda no mercado. Carlão e Alex D’Alva Teixeira foram os hosts da batalha onde os PAUS e Pedras saíram vitoriosos frente à Bridgetown de Richie Campbell, à Guerrilha Cor-de-Rosa de Capicua e aos Ultramar liderados por Rui Pregal da Cunha. Marcaram também presença alguns convidados especiais, entre eles grandes “bolas de sabão”.

O evento dividiu-se em 4 rounds, os três primeiros de 8 minutos e o último com 15 minutos, sendo que neste último apenas se podiam tocar dubplates, segundo as regras da competição.

E o que é uma dubplate? É uma música produzida por certo artista/produtor para outro, alterando a letra original e em que se pode ou não alterar o beat. A ideia é obter produções criativas e originais com vozes de grandes referências, de forma a engrandecer o detentor e atacar os adversários, alterando para isso pequenas partes da letra.

Estas dubplates são as armas por excelência dos Clashes, conceito bem conhecido pelos simpatizantes da cultura jamaicana. “Soundclash” é uma batalha entre soundsystems, que mistura variantes da música tradicional caribenha e onde, a cada round, a escolha do vencedor depende do feedback do público. É o povo que decide fazendo barulho. Por norma, apenas se apuram dois dos concorrentes para a ronda final, o derradeiro «mata mata», neste caso chamado Dub fi Dub («dubplate por dubplate») onde só se podem tocar dubplates.

A Culture Clash é um conceito que se inspira neste outro, embora altere algumas das regras: os soundsystems viram crews e a música é a que passa na rádio, isto é, com uma maior variedade de géneros abrangida. Neste sentido, o recinto contou não com um palco, mas sim quatro  para que o público se mantivesse perto da sua crew preferida. O feedback do público foi medido com recurso a tecnologia, tendo sido usado para isso um medidor de decibéis colocado na zona ampla do centro da arena, acionado no fim de cada round para obter as pontuações finais.

Capicua e a Guerrilha Cor-de-Rosa, composta por DJ D-One, M7 aka Beatriz Gosta, Ana Bacalhau, Eva Rap Diva, Marta Ren e Blaya, conquistaram desde cedo o público feminino. A excelente coordenação da equipa e a atitude de todos os elementos justificou a sua vitória nos dois primeiros rounds. Mostraram ser “Marias Capazes”, adoptando ritmos urbanos portugueses, africanos, samba e algum ragga, sem medo de arriscar nos beats de Kendrick Lamar (Humble) ou com letras antigas dos Black Company.

Ouviram-se dubplates de Boss AC, Kalibrados (Senhorita) e do convidado Camané. A grande surpresa foi mesmo o convidado especial Bruno Nogueira que cantou o tema taras e manias de Marco Paulo, ao estilo da guerrilha. Terminaram em despique frisando que com quatro paus fariam uma jangada.

Capicua and Guerrilha cor-de-rosa perform at Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Natasha Cabral / Red Bull Content Pool // AP-1UXD6XC6W2111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //

Do outro lado, estavam precisamente os 4 PAUS (Joaquim Albergaria, Hélio Morais, Fábio Jevelim, Makoto Yagyu) e as Pedras (DJ Glue, Mike El Nite, Holly Hood e Silk). Mike El Nite em grande destaque ironizou “That’s How We Roll” (Richie Campbell), já depois de Holly ter dito que a pronúncia do patois de Cascais não se percebia muito bem. A excelente combinação musical entre os PAUS e os rappers em cima de palco foi uma das revelações da noite. Sem medo de arriscar, deram asas ao desafio proposto pela competição e misturaram diferentes variantes do rock com hip-hop, trap e rap puro, a fazer lembrar a old school.

No último round, rodaram os dubplates dos convidados especiais, Janelo da Costa (Kussondulola) e Chullage, dirigidos à Bridgetown com a dica anexa de que aqueles sim, eram os “verdadeiros”. Terminaram com Holly a cantar o original “Fácil” em tom de dubplate. 

PAUS and Pedras perform during the Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Hugo Silva/Red Bull Content Pool // AP-1UXBSE4V92111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //

Com Richie Campbell no comando, a Bridgetown (Mishlawi, General Gogo, Luís Franco Bastos, Ben Miranda, Dengaz, Plutonio, DJ Dadda, Dodas Spencer e Afonso Ferreira) fez jus à essência da soundclash jamaicana, apresentando temas icónicos como “Bad Boys”, “Get Up Stand Up”, uma dubplate do tema “Welcome to Jamrock” (Damian Marley), misturada com algum ragga e dancehall.

Foi evidente a sua experiência neste campo, o que levou a uma “enchente” de ataques por parte das outras crews. Notável a organização do grupo que teve na manga trunfos como Mishlawi, as punch lines finais de Plutónio, bem como Luís Franco Bastos que não poupou “balas”, nem precisou de fazer muitas vozes para ridicularizar ao máximo os adversários, num curtíssimo espaço de tempo.

O humorista apelidou a crew feminina de “Spice Girls”, fez troça de Holly  — “beef’s a sério é com porrada a sério, isso com o Piruka não é nada”) —, não esqueceu presença do amigo Bruno e revelou uma chamada telefónica de Capicua para Richie Campbell, que aproveitou para passar a Deejay Telio dizendo este que “o número para que você ligou, está desligado – É para informar que hoje não atendo”.

Em resposta à crew de Mike El Nite, a Bridgetown lançou uma dubplate de Janelo da Costa (Bam Bam Riddim) e chamou Mayra Andrade. De seguida, subiu ao palco GSon (Wet Bed Gang) e todos disseram Aleluia. De louvar, a originalidade na construção dos dubplates — ouviu-se Toy, Dillaz, Rui Veloso e, por fim, Madredeus (O Pastor), numa das melhores criações a passar no evento.

Richie Campbell performs at Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Natasha Cabral / Red Bull Content Pool // AP-1UXD7VUU92111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //

Já os Ultramar (Capitão Fausto, Memória de Peixe e Throes + The Shine), entraram em palco vestidos a rigor, em alegoria aos “Heróis do Mar”. Começaram com um pequeno teatro que levantou a questão: “Não temos DJ, e agora o que vamos fazer?”.

Rui Pregal da Cunha afirmou não saber o que era atacar alguém, e que por isso daria início à sua “parvoeira improvisada” — “Já tenho mais de 40 anos (amo muito a minha mulher) e há alturas em que nos apetece fazer coisas que por vezes já não deveremos fazer… O que vos digo agora é o que digo a mim mesmo. Hoje, façam o que vos apetecer”.

No segundo round iniciou a atuação de muletas dizendo em tom irónico “hoje já levei uma sova”. À confissão seguiu-se o tema “Oh Amor”, com destaque para a guitarra frenética dos Capitão Fausto, que proporcionou um excelente momento musical.

Para além do pop rock, o grupo integrou ainda alguma ópera e ritmos africanos, cortesia dos Throes + The Shine, terminando com um “mortal” para trás algo desastrado por parte de um dos seus elementos. É de realçar a solidez do grupo que apesar de se apresentar “fora” da batalha por opção, preservou o espetáculo e foi capaz de mostrar o que para si é boa música, demonstrando um elevado espírito de união entre todos os elementos do grupo.

Com a crew de fusão entre hip hop e rock a sair com o prémio oficial da noite, os grandes vencedores foram mesmo os espectadores que puderam desfrutar de um choque de culturas com resultado inédito e, arriscamos, irrepetível. Todas as crews deixaram em palco a marca da originalidade da sua junção representando com excelência os diversos quadrantes musicais ou as diversas formas de estar no palco e na vida.

Rui Pragal da Cunha and Ultramar perform at Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Natasha Cabral / Red Bull Content Pool // AP-1UXD6DUX12111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //
Rui Pragal da Cunha and Ultramar perform at Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Natasha Cabral / Red Bull Content Pool // AP-1UXD75U7D2111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //
Carlão and Alex D’Alva Teixeira hosts during the Red Bull Music Culture Clash in Lisbon, Portugal on March 2, 2018 // Hugo Silva/Red Bull Content Pool // AP-1UXBVVH5D2111 // Usage for editorial use only // Please go to www.redbullcontentpool.com for further information. //