Crença ou ideologia? Rastafari é bem mais do que imaginas

Rastafari é fácil de pronunciar, contudo poderá ser difícil compreender a cem por cento o que significa.

rastafari reggae

Tanto a expansão do reggae como a ênfase deixada pelo movimento hippie nos anos 60 ajudaram a criar o estereótipo — estilo de vida despreocupado, minimalista e de profundo desacordo com a sociedade oca e consumista do século XXI. Ficaram as antigas ideologias e ideias revolucionárias que, embora muitas vezes nos agradem e até sejam identificáveis, têm sempre algo por explicar.

Rastafari é fácil de pronunciar, contudo poderá ser difícil compreender a cem por cento o que significa. Em poucas palavras, é o protesto do terceiro mundo contra a divergência socioeconómica, a discriminação e a opressão racial deixadas pelo colonialismo e neocolonialismo. Não necessariamente uma cultura, mas um movimento político e religioso que defende valores centrais como o amor, simplicidade, respeito e a procura pelo bem comum enquanto peças chave da vivência do ser humano com o ambiente que o rodeia.

Cruza o cristianismo protestante com o misticismo e a consciência política pan-africana, sugerindo simbologias e paralelismos bastante próprios que levam a questionar se o cristianismo e o judaísmo poderão ou não andar de mãos dadas. O movimento Rastafari defende a Etiópia enquanto o berço da Humanidade e Haile Selassie I (Ras Tafari) como a reencarnação de Jesus Cristo, inspirando-se na lógica de Nostradamus, afirmando a coroação de um rei africano enquanto terceira reencarnação de Deus, seguida de Maomé e Jesus.

É importante referir que após a abolição da escravatura, os antigos escravos retidos no ocidente, encontravam-se na sua maioria sem meios para voltar a África, provando a curto prazo a liberdade recentemente conseguida com o reconhecimento da sua cidadania, mas não dos seus direitos.

Marcus Garvey, foi um conhecido advogado e ativista dos direitos africanos, inspirado em Booker T Washington e Henry McNeal Turner que, tal como Malcom X, Martin Luther King e Nelson Mandela, teve grande influência nos movimentos pan-africanos decisivos para a independência de muitas nações africanas. Era jamaicano, o que ligou desde cedo a Jamaica ao culto Rastafari.

Em 1914, fundou a UNIA (Universal Negro Improvement Association), cujo lema “One God! One Aim! One Destiny!” defendia a consciência relativamente à dignidade da etnia africana, deixava bem claro o objetivo de desenvolver o continente, através da criação de instituições de apoio e escolas africanas, assim como o financiamento da «repatriação» de África.

O termo “repatriação” poderá ser interpretado de forma estritamente literal, apenas como o regresso de todos os africanos, com o intuito de melhorar, desenvolver e fazer crescer o continente africano. De uma forma menos literal, para os Rastafari, a ideia de «repatriação» poderá assumir um sentido mais abstrato, associando-se à meditação, reflexão e conhecimento do verdadeiro “eu”, enquanto estímulo à consciência e ao sentimento de pertença ao local onde vivemos enquanto seres humanos, isto é, através do regresso às nossas “raízes”, à simplicidade e ao minimalismo de uma forma de vida sustentável que sintoniza o Homem e o lugar que habita – a Terra. 

Garvey rejeitou “a hipótese racista do cristianismo branco americano, em que o homem negro foi criado como inferior, pertencente a uma classe de servos”, afirmando acreditar no “Deus da Etiópia”. As suas palavras revelam uma nova interpretação bíblica, que apela à reencarnação do principal acontecimento da religião cristã, ao mencionar a eleição de “um novo rei africano na Etiópia, o messias que iria unir todos os povos de África”, em clara alusão á passagem bíblica – Apocalipse (05:05),Ezequiel (28:25) – que profetiza a implantação do reino de Israel e a coroação de um novo rei.

Haile Selassie, imperador da Etiópia (Abissínia) coroado em 1930 numa cerimónia que juntou governantes de 72 países africanos, foi uma figura icónica pela luta pelos direitos de África, bem como pela criação da Organização da Unidade Africana em Addis Abeba (União Africana). Ficou conhecido por defender a paz, sendo que entre os seus maiores feitos está a resistência às tropas de Mussolini, durante a II Guerra Italo-Etíope.

Marcou a Convenção da Assembleia Geral das Nações Unidas (agora ONU) em 1936, em oposição ao uso de armas químicas, suscitando um forte discurso (imortalizado por Bob Marley) que apelou à paz mundial e que direcionou a todos os países envolvidos, um pedido de ajuda face à situação em que encontrava o seu país.

 “Until the philosophy which holds one race superior and another inferior is finally and permanently discredited and abandoned. Until there are no longer first-class and second-class citizens of any nation, until the color of a man’s skin is of no more significance than the color of his eyes.

And until the basic human rights are equally guaranteed to all without regard to race, until that day, the dream of lasting peace, world citizenship, rule of international morality, will remain but a fleeting illusion to be pursued, but never attained.”

O carácter divino conferido a Haile Selassie, tem fundamento no facto de ter sido o último regente da linhagem Salomónica que na Bíblia e no Alcorão é associada á proximidade com Deus – a linhagem do Rei Salomão, antigo rei do Reino de Israel (Dinastia de David, 966 a.c), conhecido como o rei da paz e o mais rico e sábio de sempre, cujo reinado não registou qualquer guerra.

Segundo a lógica de Garvey, o proclamado “Black King”, seria a reencarnação de Deus na Terra, que viria para salvar África assim como o povo africano espalhado pelo mundo seria a reencarnação do povo da Judeia (Tribo de Judah) – o povo de Israel, povo nómada que vagueava pelo médio oriente e outrora expulso da antiga Babilónia.

Ora, este paralelismo diz muito sobre uma ideologia que tanto a ver com judaísmo como cristianismo. A Babilónia foi a capital da antiga Suméria, (Império Paleobabilónico) que dominou grande parte do Médio Oriente há mais de 3 mil anos. No entanto, segundo mitos bíblicos, a excelente organização e o largo avanço científico e económico que detinham para aquela época acabaram por ser, questionavelmente, motivos para a sua destruição e para a queda do império.

Para os Rastafari, o termo “Babilónia” simboliza a civilização perfeita – a utopia da vida, onde o consumo é a base da evolução e materializa sentimentos – o que se poderá aplicar à sociedade como a conhecemos, apoiada no sistema capitalista imposto pelo ocidente ao resto do globo.

Existem ainda outros termos que caraterizam bastante a doutrina praticada por este movimento espiritual. A expressão “I and I”, resume a ligação que cada um tem consigo próprio e com o ambiente que o rodeia, permitindo o foco no equilíbrio e estabilidade emocional. Expressa também uma ideia de igualdade (quando utilizado como cumprimento), significando que nenhum homem é superior a outro (o que explica “eu e eu” em vez de “eu e tu”- um género de “olho para ti tal como olho para mim, o sentimento de preocupação e respeito é o mesmo”).

É aqui que entra a marijuana, planta utilizada para meditar e limpar a mente, permitindo atingir um estado de espírito de plena descontração que aproxima o “Rasta” de si próprio. Existe de facto a crença de que a “erva” é apenas uma planta, foi criada por Deus e, portanto, nunca poderá ser um crime, muito pelo contrário.

As rastas simbolizam a ligação do rasta consigo próprio, enquanto raízes do Homem com o seu autoconhecimento e compromisso para com o respeito, consciência e igualdade, permitindo o foco num estado de espírito descontraído e despreocupado, dominado pelo positivismo e simplicidade. Está prática é justificada com passagens bíblicas, tal como o consumo de marijuana para fins medicinais e recreativos.

O reggae tem sido um importante instrumento de difusão, tanto através de artistas jamaicanos como de outras nacionalidades, destacando-se Bob Marley enquanto grande ícone do género musical e profeta do movimento. Já dizia Bunny Wailer que “há quem diga que no futuro, o Homem irá dançar apenas ao ritmo de um som”.

A música representa esta cultura, interligando-se com factos e acontecimentos que a antecederam, bem como os respetivos intervenientes. Através da crítica social e política, expõe as premissas pelas quais se regula, bem como a “revolução espiritual” que pretende. Os temas Promised Land e Revolution de Dennis Brown (inspirados em êxitos de Bob Marley) são claros exemplos disso.

Através do tema Redemption Song, Bob Marley apela o ouvinte a “emancipar-se da escravidão mental”, porque “ninguém para além de nós mesmos poderá libertar a nossa mente”, linhas que provêm do discurso de Marcus Garvey em New Scotland, 1937:

We are going to emancipate ourselves from mental slavery because whilst others might free the body, none but ourselves can free the mind. Mind is your only ruler, sovereign. The man who is not able to develop and use his mind is bound to be the slave of the other man who uses his mind (…)”