Garraiada académica: a tradição persiste se a alimentarmos contra a vontade da maioria

Esta terça-feira a comunidade estudantil da cidade de Coimbra fez história. Com mais de 70% dos votos, os estudantes pronunciaram-se a favor da abolição da garraiada na Queima das Fitas.

Deve o evento garraiada continuar no programa oficial da Queima das Fitas?

A pergunta é simples e embora a resposta pudesse ser óbvia, a garraiada académica é uma tradição que se mantém viva em Coimbra desde 1929. Os alunos manifestaram-se agora, em 2018, naquele que foi um referendo com uma adesão muito relevante, contando com 5.638 votos, num universo de cerca de 24 mil estudantes.

Numa altura em que os direitos dos animais são cada vez mais debatidos na nossa sociedade, a posição desta massa estudantil não deixou margem para dúvidas: 70,7 % que abolir este evento, evidenciando uma nova consciência das gerações mais recentes.

A garraiada é uma festa taurina, tradicionalmente realizada na Praça de Touros da Figueira da Foz, em que os estudantes se colocam no papel de forcados e pegam os garraios – geralmente uma ou duas vacas.

O referendo foi uma iniciativa da Associação Académica de Coimbra (AAC) e do Conselho de Veteranos – responsáveis pela organização da Queima das Fitas, após esta prática ter sofrido algumas alterações em 2016, com a retirada da lide do novilho a pé e a cavalo. Por falta de adesão dos estudantes, a garraiada foi suspensa da Queima das Fitas do Porto, também nesse ano.

O PAN – Partido dos Animais e da Natureza aplaude estes resultados que considera “reveladores de uma nova geração que está desperta para as mudanças sociais de uma nova época e de uma nova consciência”, (palavras do deputado André Silva).

Manuel Lourenço, secretário-geral da Comissão Organizadora da Queima das Fitas (COQF) disse que o Conselho de Veteranos terá “a palavra final”.

Apesar dos pouco expressivos, 26,29% dos votos a favor da garraiada, sustentados por argumentos como a importância de manter a tradição e os costumes, o Movimento ‘Coimbra dos Estudantes’ está determinado em dar continuidade a este evento.

Num comunicado divulgado no Facebook, desvalorizaram a adesão às urnas e denunciaram irregularidades cometidas pela direção-geral da AAC e pela Comissão de Organização da Queima das Fitas, referindo que estas “conseguiram impor a vontade de uma minoria”.

“Acreditamos numa universidade plural, na qual cabem todas as ideias, e não num espaço onde se fomentam proibições e se impõem as ideias de uns a outros. Assim sendo, caso exista uma decisão de exclusão da organização da garraiada pela COQF este movimento de alunos vai organizar a garraiada na Queima das Fitas de 2018”, afirma Ricardo Marques, presidente do movimento ‘Coimbra dos Estudantes’.

A Queima das Feitas de Coimbra irá decorrer de 4 a 11 de maio. Veremos se a vontade democrática se impõe, ou se a tradição falará mais alto.