Quando um jornalista já não sabe o que fazer para ser ouvido

Sem entrar em detalhes, juízos ou tentativas de explicação, o retrato criado pelo jornalista Peter Maass nos seus, até agora, 78 tweets conta-nos uma história que raramente ouvimos sobre a Guerra do Iraque.

Peter Maass é um jornalista como todos os outros deviam ser: a dar o seu melhor por um assunto que acha mais do que merecedor da sua dedicação, merecedor de atenção generalizada. Actualmente faz parte dos quadros do The Intercept, um órgão de comunicação social que destacámos recentemente e que se dedica a revelar a público documentos confidenciais sobre a vigilância dos estados ou outros abusos de poder, mas nem sempre foi assim.

Maass já passou por publicações como The Wall Street JournalThe New York TimesThe Washington Post, e The New York Times Magazine, onde fez trabalhos notáveis sobretudo no acompanhamento da política mundial e dos conflitos armados. Foi precisamente um desses trabalhos de há 15 anos e que o marcou de um modo indelével que Peter Maass recorda agora no Twitter, numa sequência de mensagens emocionante com passagens quase perturbadoras.

Peter Maass está, desde dia 20 de Março, a recordar em tweets consecutivos como viveu estes mesmos dias quando acompanhou os primeiros passos da Guerra imposta pelos Estados Unidos da América ao Iraque.

Sem entrar em detalhes, juízos ou tentativas de explicação, o retrato criado por Peter Maass nos seus, até agora, 78 tweets conta-nos uma história que raramente ouvimos – partilhando algo raro neste meio, o desconhecimento no local perante os factos que se ia noticiando.

É uma perspectiva única, uma espécie de olhar aos bastidores, que nos mostra, por um lado, as dificuldades em fazer este tipo de reportagem – Maass não tinha autorização para entrar no Iraque –, por outro, o sentimento de normalidade inquietante que mobiliza os invasores e silencia os invadidos.

15 anos depois de uma guerra pouco escrutinada, Maass viu nesta tweetstorm uma forma de tentar chamar a atenção para um conflicto sobre o qual ninguém parece querer saber – sob pena das mesmas estratégias se poderem voltar a repetir. O seu testemunho, mais humano do que jornalístico, dá corpo a questões que tantas vezes esquecemos ao observar o produto final, a reportagem de guerra ‘normal’.

É com os olhos da memória, com as nuances da consciência, que o jornalista recorda as principais motivações para concretizar o seu objectivo de noticiar a guerra tal como ele é, numa espécie de missão, que não conhece fim até descobrir o “que fazer para que as pessoas tomem atenção”.