Conhece 4 personalidades dos media que criaram projectos com personalidade

Seleccionámos 4 nomes que acompanhamos e cujo presente contributo para o mundo do jornalismo merece a tua atenção.

Composição João Ribeiro/Shifter

No mundo das letras nem sempre as caras conhecidas são as mais influentes ou alcançam um estatuto de popularidade por mérito. A popularidade e o rigor e qualidade no desempenho das suas funções nem sempre andam de mão dada, e quando se faz um bom trabalho por vezes falta tempo, ou vontade, ou motivos, para se dar literalmente a cara por ele no panorama global. No caso concreto dos media, esses exemplos multiplicam-se à sombra de 3 ou 4 caras que se tornam bem conhecidas do público, pelas suas aparições em virais ou na tv. Deste modo, os actores mais consequentes e focados acabam por ver a percepção da sua importância minimizada e passar praticamente despercebidos do grande público — eles e, muitas vezes, o fruto da sua influência, capacidade de inovação e trabalho. Quem geralmente decai para este plano de pseudo-esquecimento é quem arrisca em novos formatos com propostas concretas — assim, abdicando do condão do “mainstream” quem não conhece acha estranho ou inacessível e apenas quem acompanha com alguma proximidade reconhece o seu mérito. Foi com isso em mente e contra a corrente do esquecimento que seleccionámos quatro personalidades de Media internacionais com um passado mas, sobretudo, um presente que vale a pena conhecer.

Amy Goodman

Amy Goodman é o primeiros dos casos que escolhemos. Com 61 anos, é jornalista e, para além de co-fundadora, a cara e a voz do diário noticioso Democracy Now!, no ar há 22 anos.

Amy faz carreira como jornalista de investigação de referência desde o princípio dos anos 90, com passagens marcantes como o conflito em Timor e na Nigéria. No ano 2008 foi distinguida com um Right Livelihood Award, prémio que costuma ser baptizado como o Nobel alternativo, tornando-se a primeira jornalista merecedora desta distinção, por inovar criando um modelo de jornalismo de investigação realmente independente, como força de poder pela paz. É aliás essa uma das frases chaves e que a tem guiado o seu percurso ao longo dos últimos anos. É possível ouvir Amy Goodman em diversas palestras e talks a propagar essa mensagem.

Para além do seu trabalho como jornalista em regime diário, é co-autora de diversos livros sempre com teor jornalístico e de investigação.

O programa Democracy Now! é especialmente relevante no panorama e torna-a merecedora desta distinção tendo em conta que pelo seu cariz de serviço público pode ser transmitido por várias operadoras em vários países. Actualmente, a hora noticiosa e as pontuais entrevistas com figuras políticas influentes, têm transmissão em mais 1500 canais, para além de poderem ser vistas directa e legalmente no computador.

Glenn Greenwald

A segunda personalidade que escolhemos é Glenn Greenwald e se és dos que acompanhou de perto o escândalo despoletado por Edward Snowden com certeza que já não estranhas este nome. Foi aí, e quando trabalhava no The Guardian, que acabou no centro dos holofotes mas a sua carreira está longe de se resumir a esse momento de influência. Já antes e numa investigação do mesmo estilo — tendo como alvo a NSA — Greenwald se tinha notabilizado com vários trabalhos que lhe valeram, juntamente com Amy Goodman, o prémio Jornalismo Independente Park Center I.F. Stone em 2008 e o Prémio Online Journalism de 2010. Foi a sua independência e rigor jornalístico já premiados que fizeram com que Laura Poitras o convidasse a participar no encontro com Snowden que daria origem a um dos maiores furos jornalísticos da última década, publicado no The Guardian, e que lhe valeu o tão conceituado Pullitzer na categoria Serviço Público.

Mais tarde, emigrou para o Brasil com o seu namorado, o agora vereador pelo PSOL, David Miranda, depois de este ter sido detido pela polícia britânica, e de uma série de indícios de que poderia estar a ser perseguido pelas forças que denunciara. Vários políticos norte-americanos pediram mão igualmente pesada para Glenn, como houve para Edward Snowden.

Foi a partir do Brasil que criou e dirige a publicação The Intercept. Financiada pelo milionário Pierre Omidyar, CEO do Ebay, o The Intercept escreve em duas línguas, português e inglês, prometendo tornar do conhecimento público informação sensível ou secreta. Uma das primeiras peças do jornal foi de resto reveladora desse objectivo com a publicação de localizações secretas da NSA.

Tyler Brûlé

Tyler Brûlé pode não ser tão influente no panorama político e social como os exemplos que lhe antecederam neste artigo mas a sua história e a forma como há 11 anos fundou o pequeno-grande grupo Monocle merecia um artigo por si só. Brûlé passou pela BBC depois de terminar os estudos, fartou-se do trabalho quotidiano e começou a freelar, tendo colaborado com publicações como o the Guardian ou a Vanity Fair.

Nessa altura foi convidado pela revista alemã Focus a fazer um trabalho no Afeganistão onde acabou apanhado numa emboscada e no caminho de 3 balas que lhe destruíram parte da mão esquerda e só por pouco não lhe acertaram no coração. Foi no período de recobro desse momento dramático que Brûlé se debruçou sobre revistas de moda e decoração — tentando evitar as desgraças do mundo — e acabou por direcionar o seu futuro. Logo após esse período fundou a revista Wallpaper, dedicada a design, que acabou comprada pela Time INC poucos anos depois. Posteriormente dedicou-se a uma agência publicitária durante alguns anos até que decidiu fundar mais uma publicação, que ainda hoje dirige.

Brûlé é um fascinado pelos velhos media, crente convicto que os formatos tradicionais só precisam de uma nova roupagem — aposta por isso em publicar mensalmente uma revista que nem tem conta de Instagram, twitter ou facebook, a famosa Monocle. Como o próprio descreve, a Monocle é uma intersecção entre a Foreign Policy e a Vanity Fair, dando igual importância aos problemas do mundo e a uma forma de os resolver com estilo. Veja-se como exemplo a última edição, deste mês corrente, dedicada à Coreia do Sul e onde uma entrevista ao Presidente Sul Coreano, Moon, coabita lado a lado com uma entrevista ao braço direito de Barack Obama, um ponto da situação na Ucrânia ou reportagens sobre ateliers de moda e design do país asiático.

Joshua Topolsky

Sem ter forçado qualquer ordem para esta lista, o acaso acabou por dispor em ordem decrescente de idade as personalidades que escolhemos para este exercício. Por idade e por, digamos assim, o teor de cariz social das suas publicações. Se os dois primeiros lideram publicações altamente políticas e o terceiro uma revista que mistura o melhor dos dois mundos, Topolsky é o nome por trás de um dos projectos de publicação digital mais interessantes e disruptivos dos últimos anos, tendo como objecto de análise, reflexão e publicação, a cultura contemporânea e pop.

Joshua Topolsky antes de partir para esta aventura chamada The Outline, fundou e dirigiu durante alguns anos o conhecido media de tecnologia The Verge. Após cessar a sua colaboração com esta publicação, reuniu investimento e preparou em segredo este projecto que, apesar de ter começado devagar coomeça  a conquistar o seu espaço, especialmente nas nossas listas de leitura. Ao contrário do mantra de todas as publicações que vão surgindo neste ambiente digital, o Outline foca-se em slow content: do texto à publicidade, tendo para isso criado um modelo mais ou menos único.

O site não é como estamos habituados a ver noutras publicações, tendo menos artigos e muito menos anunciantes — que se vão refazendo de tempos a tempos. A linha editorial é a sua mais valia e o suporte do mérito de Topolsky. Apesar de ter poucos conteúdos são todos eles relevantes e sobretudo, disruptivos, oferecendo quase sempre uma nova leitura sobre um acontecimento mainstream e desafiando-nos para uma reflexão mais profunda e de uma nova perspectiva.