OpenStreetMap: a “Wikipédia” dos mapas

O que acontece quando as pessoas desenham um mapa.

Lançada em 2001, a Wikipédia é hoje uma gigantesca enciclopédia digital com informação sobre os mais diversos tópicos, criada colaborativamente por milhões de pessoas em todo o mundo e disponível de forma livre e gratuita para todos. É um exemplo de como a internet pode unir-nos em torno de um bem comum, mas não é caso único.

Em 2004, inspirado pela lógica de liberdade da Wikipédia, Steve Coast, um empreendedor britânico, começou o OpenStreetMap. Aquele que é hoje um mapa pormenorizado do mundo, começou como uma página em branco. Ao longo dos anos, já mais de uma década, o OpenStreetMap foi sendo construído pelas comunidades locais, graças ao seu esforço voluntário de mapeamento no terreno, de estradas, pontos de interesse, declives e outros dados.

OpenStreetMap, um mapa desenhado pelas pessoas

Apesar de bastante pormenorizado, o OpenStreetMap continua e vai continuar sempre incompleto, não só porque há zonas remotas que ainda não foram mapeadas por ninguém, como espaços estão em constante mutação. Há novas estradas constantemente a surgir, infra-estruturas que mudam de configuração, espaços que fecham portas e outros que abrem, etc.

Porquê o OpenStreetMap se existem serviços como o Google Maps, bastante desenvolvidos e acessíveis em qualquer dispositivo? O Google Maps é desenvolvido por uma empresa privada com fins lucrativos – a Google –, cuja preocupação é disponibilizar um bom serviço e fazer negócio. Já o OpenStreetMap não é um serviço comercial, mas antes um conjunto de dados que não pertencem a uma pessoa ou entidade, mas à comunidade.

Os dados do OpenStreetMap são abertos, estando disponíveis de forma livre e gratuita para quem quiser usá-los nos seus projectos

Quer isso dizer que o OpenStreetMap encaixa numa filosofia de dados abertos. É por isso que, apesar de ter o aspecto de um mapa, podes descarregar parte do OpenStreetMap e utilizar essa informação num projecto pessoal ou mesmo comercial.

Imagina que estás interessado em estudar os declives da cidade de Lisboa ou queres fazer um mapeamento das farmácias do Porto – esses dados estão lá. Mas se o que precisas é mesmo do mapa, podes integrá-lo, sem qualquer contrapartida monetária, numa app ou site que estejas a desenvolver e criar um negócio (leia-se: fazer dinheiro) em cima disso. É o que faz, por exemplo, a Mapbox ou o Foursquare.

Uma das aplicações da Mapbox

Outra vantagem do OpenStreetMap relativamente ao Google Maps é o detalhe que consegue oferecer em determinadas áreas. Apesar de aceitar contribuição dos seus utilizadores, cabe à Google manter e actualizar os mapas. Assim, se em grandes cidades, o Google Maps pode ser bastante completo, o mesmo não acontece em aldeias e vilas de menor dimensão ou mais longínquas, onde os carros e sistemas de mapeamento da tecnológica norte-americana passam com menos frequência.

A Câmara Municipal de Águeda, na região de Aveiro, promove encontros onde a população pode ajudar a colocar o município no mapa, seja através de levantamentos com recurso a GPS portáteis, de análise de fotografias aéreas ou imagens de satélite ou de outros métodos. Graças a essas iniciativas comunitárias, Águeda está hoje melhor mapeada no OpenStreetMap que no Google Maps.

Águeda no Open Street Map
Águeda no mapa: Google Maps à esquerda, Open Street Maps à direita

Tal como na Wikipédia, a informação disponibilizada no OpenStreetMap pode estar errada e alguém, por brincadeira, pode literalmente apagar um país inteiro. Contudo, os fiéis editores da plataforma estão sempre atentos e não só corrigem erros como evitam que outros utilizadores adulterem o serviço. No OpenStreetMap é possível navegar no histórico de edições, pelo que podes ver quem fez o quê e como evoluiu o mapa ao longo do tempo.

No início de Março, o OpenStreetMap motivou um encontro entre geólogos, programadores e entusiastas de dados abertos no Porto, organizado por quatro amigos – o Ricardo, a Ana, a Marta e o João – que queriam um espaço (aberto) para discutir o tema e “meter as mãos na massa”. Agora, todos os meses, promovem uma edição do Date With Data, onde os participantes podem criar coisas como apps, jogos e serviços utilizando dados públicos, o que os ajuda a perceber as limitações sociais e políticas desse tipo de informação. Os últimos dois Date With Data foram dedicados aos mapas abertos, como o OpenStreetMap, sendo que o próximo decorrerá dia 10 de Abril.