Porque é que o novo nome da Frente Nacional não é apropriado?

Rassemblement National, ou União Nacional, é o novo nome da Frente Nacional (FN) de Le Pen. Ou melhor, um slogan do partido feito para as Legislativas de 1986 e agora reciclado.

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Marine Le Pen propôs mudar o nome do seu partido, Frente Nacional (FN), para Rassemblement National, este domingo. “O nome Frente Nacional traz com ele uma história épica e gloriosa que ninguém pode negar”, disse a líder do partido de extrema-direita, em Lille, durante o congresso anual do partido. Contudo, acrescentou que o mesmo nome se trata de uma “barreira psicológica”, que impede que mais cidadãos franceses se juntassem ao partido e votem nos candidatos da FN.

Rassemblement National pode ser traduzido como “Rally Nacional” ou “União Nacional”. Mas para que a troca de nome seja definitiva é preciso que a nova opção seja aprovada por parte de todos os membros do partido nas próximas semanas, através de uma votação por correspondência.

A proposta de Le Pen vem também na sequência de a FN ter caído no esquecimento após o fracasso nas Presidenciais e nas Legislativas de 2017, batalhas perdidas para o partido centrista de Emmanuel Macron, República em Marcha. “Deve ficar claro para todos que nos tornamos num partido decidido a governar”, disse Le Pen, no congresso. “Mais do que um projecto, este [novo] nome deve ser um grito para a reunião, um chamamento para que se juntem a nós”, acrescentou.

A troca foi proposta um dia após a surpreendente presença de Stephen Bannon, ex-estratega principal de Trump, no congresso. “Deixem que vos chamem racistas. Deixem que vos chamem xenófobos. Deixem que vos chamem nativistas. E usem essas criticas como um emblema de honra”, disse o ultra-nacionalista, enquanto era fortemente aplaudido.

União Nacional: uma nova viragem com um slogan dos anos 1980

Foi a 21 de Abril de 2002 que Jean-Marie Le Pen viu anunciada, de forma bastante surpreendente, a sua passagem à segunda volta para a corrida às Presidenciais de França. No final, perdeu para Jacques Chirac, com uma diferença de aproximadamente 64,5% (Chirac = 82,2%; Le Pen = 17.7%).

Mas foi este 21 de Abril que marcou uma viragem acentuada na orientação política francesa, incluindo os extremistas de direita num patamar de grande importância, apesar de muitos considerarem esta entrada de Le Pen como um acidente catapultado pelo recorde de 16 candidatos na corrida, e que fez baixar a percentagem para admissão de cada concorrente à fase posterior.

No dia seguinte, os jornais nacionais fizeram capa com títulos como “A bomba Le Pen” (France Soir), “O Choque” (Le Parisien), “O Terremoto” (do conservador Le Figaro), “A França não merecia isto” (do diário comunista L’Humanité) ou, somente, “Não” (do diário de esquerda Liberátion).

Segundo Marine Le Pen, o novo nome surge no sentido de afastar a FN das suas raízes racistas e anti-semitas, reforçadas pelo seu fundador, Jean-Marie Le Pen, que foi inclusive líder do partido de 1972 a 2011. Contudo, o facto de ter ido buscar como alternativa um slogan das Legislativas de 1986 e de ter convidado o Stephen Bannon para falar no congresso anual do partido, aplaudindo um discurso anti-imigração e ultra-nacionalista, parecem motivos que contrariam a vontade da líder e o propósito da mudança.

Às conclusões anteriores, acrescenta-se a seguinte declaração proferida por Marine Le Pen, em Lille, no passado domingo: “Esta é a nossa casa. A imigração legal e ilegal não é mais suportável.”

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