Há dez anos, Nick Cave ressuscitou Lázaro e deixou crescer o bigode

"I don’t think a person truly believes unless they doubt as well. My faith kind of swells up and subsides."

Nick Cave Dig, Lazarus, Dig!!!

Nick Cave é uma espécie de crente. Diz acreditar num Deus, mas questiona uma data de coisas chegando mesmo ao ponto de poder ser classificado de herege. “I don’t know what it is / But there’s definitely something going on upstairs”, conclui no homónimo single “Dig, Lazarus, Dig!!!”. É contra a igreja enquanto elemento institucional e não acredita na “Virgem Maria nem na ressurreição”, mas é fascinado por Jesus e pelo Novo Testamento.

Serve esta introdução para situarmos Nick Cave espiritualmente, pois o título do disco diz muito em relação ao que vem. A Bíblia e as suas referências atravessam o disco, tal como atravessam toda a obra de Cave desde que os Birthday Party usavam o Deus do Antigo Testamento, capaz de destruir nações inteiras, como condutor para aquela raiva e aquele caos. Foi quando começou a ler o Novo Testamento que o australiano começou a desenvolver um fascínio por Jesus, que acaba por estar um pouco por todo o lado em “Dig, Lazarus, Dig!!!”, entre títulos e metáforas. E é para aí que vai todo o destaque do 14.º disco de Cave, para além, claro, do bigode.

É válido então assumir que Nick Cave usa a Bíblia tal como o faz com outras referências literárias que preenchem a sua obra e é assim também em Dig, Lazarus, Dig!!!, que começa a re-imaginar a ressurreição de Lázaro, deslocalizando-a para Nova Iorque, e depois para São Francisco e ainda para Los Angeles. Mais à frente menciona Hemingway, as Mil e Uma Noites , Slaughterhouse-Five, entre mil e uma outras referências literárias

Também é possível olhar para o título e aplicá-lo ao próprio Nick Cave. Ele que vinha de um som muito cru, muito mais Birthday Party, como se os fantasmas do passado tivessem regressado com os Grinderman (que depois de mais dois/três anos, haveriam de ser enterrados (trocadilho não intencional)), assumindo assim a sua ressureição enquanto artista a solo ou, vá, com os Bad Seeds. É um regresso a um Cave mais clássico, menos bruto, mas nem por isso suave.

E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o, e deixai-o ir. (João 11:44)