Ouvir música no trabalho não é distração, é motivação, diz a ciência

Um guia científico para que não te sintas mal por ouvires música no trabalho.

Unsplash/Jeff Sheldon

Os apaixonados por música como eu encontram sempre desculpas para ouvir música no trabalho. Hoje em dia não é difícil depararmo-nos com trabalhadores cujo segundo maior acessório para o desempenho de suas funções (além do computador), sejam os headphones. E se por acaso estás a ler esse artigo no trabalho, é muito provável que os estejas a usar.

A música está na discoteca, nas jantaradas, nos dates românticos, mas também pode estar muito presente no ambiente de trabalho. Mas até que ponto é realmente útil? A ideia desse artigo não é alterar ou sugerir a melhor maneira de trabalhar mas revelar pontos científicos que comprovem esse benefício. Há muita gente por aí a consumir imenso tempo para comprovar que a música é mesmo benéfica, enquanto há poucos que insistem em repetir aquilo que as nossas professoras diziam na escola: Silêncio!!!

Efeitos da Música no corpo, por especialistas

O primeiro estudo oficial de referência data de 1972, por J.Fox e E.Embrey pela ScienceDirect. A principal conclusão a tirar foi: o benefício depende do trabalho desempenhado. Músicas cheias de explosões, por exemplo, ajudam na produtividade àqueles que cumprem tarefas repetitivas que, embora possam perder o foco, não exigem muita capacidade cognitiva. Já em actividades contrárias, músicas agitadas ou com letras atrapalham. Em contra partida, em 1989 um artigo de A. Furnham, observou com ironia que “as tarefas de gestão mais complexas são provavelmente melhor realizadas em silêncio”.

Se achas que música clássica é chata e não estimula o cérebro, tens de deixar essa visão de lado. O estudo mais famoso sobre o impacto da música no cérebro humano aconteceu nos anos 90, quando a psicóloga da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, F. Rauscher descobriu que é possível melhorar o raciocínio com sonatas de Mozart e, desde então, foi bastante discutido. Confirmou-se que o estilo clássico altera sensivelmente as actividades cerebrais e aumenta o que os especialistas chamam de neurotransmissão sináptica. Em palavras do dia-a-dia, quando um neurónio bate um papo com outro.

Um outro estudo realizado pela Canadian Research descobriu que os indivíduos apresentaram melhores resultados nos testes de QI quando estavam a ouvir músicas ritmadas. A música barroca, por exemplo, é uma escolha popular para quem precisa de se concentrar. Num pequeno estudo realizado pela American Roentgen Ray Society, confirmou-se que os radiologistas no hospital de Baltimore, Estados Unidos, relataram melhorias no seu trabalho e humor quando ouviam música barroca.

Numa apresentação na TED de 2009: “The 4 ways sound affects us”,  J. Treasure (fundador da The Sound Agency), explica como os efeitos da música e qualquer outro tipo de ruído são capazes de influenciar o nosso corpo e vida.

O efeito psicológico

O som pode fazer com que a gente se sinta alegre ou triste, e isso é resultado de anos e mais anos de evolução da espécie humana. Para os nossos antepassados o assobio das andorinhas nas manhãs, representava um som de segurança porque significava a sua sobrevivência a uma noite na natureza. Hoje a música é muito mais massificada e cada indivíduo tem a sua própria playlist para sonorizar cada um dos seus efeitos psicológicos (do melhor ao pior).

O efeito cognitivo

O som pode ter um impacto directo na forma como as informações são processadas, pois ainda não somos super heróis a fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Isso significa que trabalhar em um open space pode arruinar a nossa produtividade, uma vez que qualquer risada ou conversa paralela são capazes de distrair o nosso foco.

O efeito comportamental

O som é tão poderoso que nos faz mover. Voltemos ao efeito fisiológico e usemos o som da sirene como exemplo: quando é muito “histeriónica”, tendemos a proteger os ouvidos, fazer caretas e até abaixar-nos. Se por outro, alguém grita alto perto de nós, a reacção esperada, além do susto, é um salto à retaguarda quase instantâneo.

Algoritmo musical para o trabalho

Vistos todos os efeitos da música no corpo agora é preciso encontrares o teu próprio algoritmo musical para o trabalho.  Não é só para acostumar o ouvido do “burburinho” que os especialistas indicam a música para concentração. O segredo está em encontrar o estilo de música que tem melhor efeito na concentração pessoal.

A reacção a cada estímulo altera-se consoante a pessoa (cada macaco no seu galho) e é a própria pessoa que consegue facilmente identificá-la. À medida que a música flui, muitos centros cerebrais diferentes podem ser activados, dependendo se a música é familiar ou nova, feliz ou triste, num tom acima ou abaixo, ou – talvez o mais importante para fins de trabalho – com letra ou não. O truque é escolher a música com cuidado e combinar as músicas escolhidas com a tarefa a desempenhar.

Biblioteca de música a serem incluídas

Como as preferências musicais variam muito de pessoa para pessoa, pesquisadores descobriram que uma das melhores maneiras de escolher a música certa para se concentrar é optar por canções com 50 a 80 BPM. A psicóloga do The British CBT & Counselling Service E. Gray descobriu que esse tempo musical ajuda o nosso cérebro a alcançar o estado alfa. Quando a cabeça fica calma, alerta e concentrada, tudo ao mesmo tempo.

Tente ouvir músicas que não tenham letras — muito menos refrões pastilha elástica. O teu cérebro pode derreter ao tentar decifrar as palavras da música que ouves ao mesmo tempo que tentas escrever um e-mail. Se ainda assim não fores capaz de ouvir música sem letras, tente escolher algo em um idioma que não entendas — como o idioma “hopelandic“, inventado e utilizado pela banda islandesa Sigur Rós.

O cérebro é uma máquina de predição, fazendo uma série infinita de suposições sobre o que acontecerá depois. Quando se trata de música no trabalho, o ideal é não gastar recursos cognitivos a prever o que estás prestes a ouvir.  Ouvir musicas constantes, relativamente imutáveis, que não possuam muitos picos e vales emocionais, ou mudanças de humor, mostraram melhorias nas habilidades cognitivas simples e incentivam  o cérebro a manter um nível de subconsciente baixo, ao contrário da música pop, que possui elementos de distração. Por isso tenta ouvir músicas previsíveis e mais estáveis se não podes precisar de um Xanax ao final do dia.

Alguns estudos sugerem que a música “major-key” (uma música que pareça mais feliz do que triste) faz com que o tempo pareça passar mais devagar. Se isso é bom ou não depende do teu tipo de trabalho e do que precisas fazer antes de ir para casa.

Existe uma única categoria de música no trabalho que tem um conjunto de regras totalmente diferente: o tipo de música para expressar alguma reação emocional. Tenta tocar um hino de rock ou uma banda sonora do teu filme de ação preferido para iniciar com humor o teu dia de trabalho ou ouvir uma música favorita como uma recompensa por um trabalho bem feito. Isso traz muitos dos benefícios cognitivos da música, sem qualquer desvantagem de distração.

A música no trabalho

Razões há muitas para ouvir boa música em qualquer lugar mas é preciso atenção em algumas ocasiões.  A hora menos indicada acontece sempre que tenhas que fazer algo de novo, de aprender algo verbalmente ou pela leitura. A aprendizagem requer análise por parte do cérebro para assimilar instruções e a música pode atrapalhar esse processo, sobretudo quando tem voz e letras que sobrecarregam o cérebro. Da mesma forma, quando ouves música nova, essa tarefa constitui uma novidade, o que pode ser prejudicial ao trabalho, uma vez que a música se torna mais interessante e uma prioridade sobre a tarefa a realizar, roubando a concentração do trabalho.

Poucas empresas têm algum tipo de regulamentação da música durante o horário de trabalho. Mesmo assim, é uma boa ideia consultar o chefe antes de abusar nos uso de phones. Podem achar que não estás envolvido no trabalho ou que estás preso no teu próprio mundo.

Quando o teu algoritmo estiver compilado, podes recompensar o teu tico e teco com alguma aleatoriedade musical. Para isso podes aproveitar serviços de música em streaming como Spotify, Apple Music ou Amazon Music que possuem algoritmos para prever automaticamente músicas que possas gostar. Aqui vai uma playlist, de pouco mais de 10 horas, pensada para isso.

É importante relembrar que esta se trata de uma lista pessoal. Cada um pode ter a sua opinião e podem aproveitar para deixar as vossas sugestões nos comentários.