O que ainda ficou por dizer sobre o Facebook e os Cambridge Analytica Files

"Se me tivessem dito, em 2004, quando estava a arrancar com o Facebook, que grande parte da minha responsabilidade, actualmente, seria ajudar a proteger a integridade de eleições e interferências de outros governos... Eu, hum, não ia acreditar que isso seria algo que iria ter que lidar 14 anos mais tarde."

O escândalo dos Cambridge Analytica Files tem feito correr muita tinta e, apesar de as acções do Facebook já terem estabilizado e de o seu CEO já ter quebrado o silêncio, ainda existem várias questões por esclarecer. Além de uma longa publicação no seu Facebook, Mark Zuckerberg desdobrou-se em entrevistas esta quarta-feira, tentando encerrar mais alguns pontos polémicos. Dizemos-te agora o que ele disse e também o que ficou por dizer.

Se me tivessem dito, em 2004, quando estava a arrancar com o Facebook, que grande parte da minha responsabilidade, actualmente, seria ajudar a proteger a integridade de eleições e interferências de outros governos… Eu, hum, não ia acreditar que isso seria algo que iria ter que lidar 14 anos mais tarde”, disse à CNN. Mark Zuckerberg não estava preparado para o que aí vinha, nem, por isso, o Facebook. O executivo deu a entender, no entanto, que aprendeu com as eleições norte-americanas em 2016, permitindo uma actuação diferente em França em 2017. “Aquilo que vimos uns meses mais tarde, durante as eleições francesas, numa altura em que já dispúnhamos de melhores ferramentas de IA [Inteligência Artificial], foi que se conseguiu um trabalho muito melhor em identificar bots russos – basicamente interferência russa – algo que tínhamos antecipado antes do período de eleições e ficámos muito mais satisfeitos com os resultados”, disse.

Na mesma entrevista, o executivo confessou que, se inicialmente, o que pensava ser mais importante era “ter o maior impacto no mundo que me fosse possível”, agora, já pai de duas filhas, é construir algo que as faça ter orgulho em si. “É o tipo de filosofia que me guia neste momento a este ponto; quando vou trabalhar em muitas coisas difíceis durante o dia e vou para casa, pergunto-me apenas: será que minhas meninas vão ter orgulho do que fiz hoje?”

Confiar na Cambridge Analytica foi um erro

Para o homem que dirige a maior rede social do mundo e os dados de mais de dois mil milhões de utilizadores, importante é também garantir que casos como o da Cambridge Analytica não se voltam a repetir. Noutra entrevista, à Wired, Mark Zuckerberg referiu que ter confiado naquela empresa londrina foi “um dos maiores erros que alguma vez cometemos”. “A Cambridge Analytica disse-nos mesmo que não tinham recebido dados em bruto do Facebook de todo. Era algum tipo de dados derivados, mas que eles tinham apagado e que não estavam a fazer uso deles”, explicou.

Assim, o CEO do Facebook referiu que a audição que a empresa vai fazer a todas as apps que anteriormente tiveram acesso a muitos dados de utilizadores, dizendo que vai ser avaliada qualquer actividade suspeita e que qualquer programador que não respeite as regras será “expulso da plataforma”. Ao Recode, noutra entrevista, Zuckerberg disse que todo este processo vai custar “muitos milhões de dólares”. Como é que o Facebook vai fazer essa audição? “Conhecemos todas as aplicações que se registaram no Facebook e todas as pessoas que estavam no Facebook e que se registaram nessas aplicações, e temos um registro das diferentes solicitações de dados que os programadores fizeram”, explicou.

Já à Wired, Zuckerberg acrescentou que o Facebook parou a sua investigação à Cambridge Analytica para dar espaço às autoridades governamentais. “Interrompemos temporariamente a nossa auditoria para ceder ao regulador britânico, o ICO [Information Commissioner’s Office], para que eles possam fazer uma investigação governamental – acho que pode ser uma investigação criminal, mas é uma investigação governamental no mínimo. Então, vamos deixá-los ir primeiro, disse. “Mas certamente queremos ter certeza de que percebemos como todos esses dados foram usados e confirmar totalmente que nenhum dado da comunidade do Facebook está disponível”, sublinhou.

Zuckerberg no Congresso norte-americano?

Tanto à Wired como à CNN, Mark Zuckerberg deixou a porta aberta para ir testemunhar perante o Congresso norte-americano. “O nosso trabalho é levar ao Governo e ao Congresso o máximo de informações que pudermos e que conheçamos para que eles possam ter uma visão completa sobre todas as empresas, toda a comunidade de inteligência, eles podem reunir tudo isso e fazer o que precisam fazer”, referiu. “Então, se for eu sou a pessoa mais bem informada no Facebook e na melhor posição para testemunhar, terei prazer em fazer isso.” No entanto, Zuckerberg explicou que existem na empresa pessoas que estão mais ligadas à área legal e que têm mais detalhes sobre estas questões, pelo que, no final de contas, “não tenho a certeza se serei a melhor pessoa, mas estarei disposto a ir se for”.

Uma questão que este caso da Cambridge Analytica tem levantado é relativamente à regulação. Alguns países, como a Alemanha ou a França, estão a avançar com propostas que regulem negócios como o do Facebook ou a prepará-las, mas são ainda casos isolados. Mark Zuckerberg diz que a questão essencial não é se deve ou não existir regulação, mas como fazê-la. “Muitas das coisas que já existem, do que tenho visto, é bom. Apoiamos”, referiu, acrescentando que o Facebook está a trabalhar em ferramentas para tornar a publicidade que aparece na rede social mais transparente para serem lançadas independentemente da regulação que possa vir a existir no futuro. “E isso é só porque acho que vai ser bom para a nossa comunidade e bom para a Internet se os serviços de Internet estiverem de acordo com os mesmos padrões, e até além, da TV e dos media tradicional – parece lógico.”

O CEO do Facebook defendeu, contudo, que as empresas não devem ser responsabilizadas ao usarem IA para regular automaticamente o conteúdo. “Agora que as empresas, e cada vez mais nos próximos cinco a dez anos, à medida que as ferramentas de IA melhorarem, poderão determinar proactivamente o conteúdo que é ofensivo ou viola algumas regras, qual é a responsabilidade e a responsabilidade legal das mesmas em fazer isso?”, questionou. “Esse, penso eu, é provavelmente um dos debates intelectuais e sociais mais interessantes sobre a regulação.”

Apesar das muitas entrevistas que deu, os Cambridge Analytica Files estão longe ainda de ter um ponto final. Josh Constrine reuniu no TechCrunch algumas das questões que ficaram por esclarecer. Uma delas – talvez a mais importante – sobre porque é que o Facebook tentou ameaçar o The Guardian e o The Observer com acções legais quando queriam revelar o escândalo, lançando as suas peças.