Um artista convidou um designer a criar a sua marca, o resultado só podia surpreender

"A criatividade não tem medida e o que para mim pode ser banal, para outra pessoa pode ser criativo e vice-versa" arrematou João Miranda, designer do projecto.

Antigamente era o tag, agora evoluiu e até os street artists que dão o salto para fora da rua precisam – ou querem, dizendo mais correctamente – uma marca gráfica que os identifique e simbolize de algum modo o seu trabalho. O desafio não é fácil para o designer que fica encarregue de sintetizar graficamente o espírito criativo ou as particularidades do processo do artista numa pequena marca. É habitual fazê-lo para marcas comerciais, para instituições formais, cada vez mais para profissionais dos mais diversos e, agora, também para artistas. Foi esse o mais recente desafio de João Miranda, designer português a trabalhar por Londres, numa resposta ao desafio de AddFuel, Diogo Machado.

O cruzamento entre estes dois universos podia cruzar-se e reflectir-se em demasia na marca — o estilo de AddFuel é inconfundível — mas João Miranda, que assina por vezes como Walking Fearless, decidiu ir por outro caminho, criando uma identidade sóbria que vale por si. O foco foi mais do que para o resultado do trabalho de Diogo Machado para a forma como este o executa, isto é, para o seu processo.

O resultado é único e embora possa não ter o efeito surpresa que as peças de AddFuel têm, é fácil perceber que essa não seria a intenção — provavelmente para que não se confundam os universos e se perceba que por trás do azul-azulejo de AddFuel há uma dimensão técnica e processual superior. Assim se criou uma marca e uma família tipográfica representativas do trabalho de Diogo Machado sem que se confunda com este.

A criação da identidade surge no momento em que Diogo Machado lança o livro “□1”, um dos suportes onde é possível ver a marca em acção.

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Publicado por Add Fuel em Domingo, 4 de Março de 2018

Falámos com o designer responsável pelo projecto para ficar a conhecer melhor as suas particularidade e o processo criativo por trás. 

Quando recebeste o briefing do Diogo, não te assustou ter que desenhar a identidade de algo com um estilo tão definido?

Acho que é aí que reside a beleza de criar e pensar uma marca. São este tipo de restrições que permitem uma direcção informada do projecto. Prefiro que me abordem com um projecto impossível ou que tenha várias condicionantes do que um projecto em que tenho luz verde para fazer o que eu quiser. Há designers que gerem bem esse tipo de relações, mas a verdade é que são raras as vezes em que o designer realmente pode fazer o que quiser. Acho muito mais importante iniciar e manter uma conversa que permita um crescimento intelectual e conceptual partilhado com o cliente, do que ter uma abordagem inteiramente subjectiva e quase artística. Não quero com isto dizer que ter esta abordagem não é válido, antes pelo contrário, tudo depende da própria relação que é criada com o cliente e com a especificidade do projecto em mãos. No caso do Diogo, as características eram óbvias, permitem um território bem definido e isso foi mais que suficiente para conseguir alcançar um resultado com uma abordagem contemporânea tanto ao nível estético como técnico.

O briefing passado pelo Add Fuel incluía os formatos que a proposta final acabou por incluir ou aproveitaste o projecto para dar asas à imaginação e criar para além do pedido?

Originalmente seria um logo (estático) e um tipo de letra com caracteres básicos. Podia ser só isso e ambos ficávamos contentes, mas tendo em conta que não me considero um designer gráfico ou um type designer significa que este projecto comporta todas as características do meu trabalho de sonho. Algo que junta o design de uma identidade visual, uma tipografia e mais tarde animação.

O processo criativo proporciona a situação ideal para questionar [É claro que no processo criativo se questionam] necessidades e oportunidades para a marca], que neste caso se traduziu através de um logótipo com duas variantes (horizontal e vertical), um monograma e um logo animado. Quanto ao projecto tipográfico acabou por se tornar algo mais ambicioso do que inicialmente foi definido, resultando numa família tipográfica com 3 pesos (Mono, Top e Bottom) com um total de (278 x 3) 834 caracteres, permitindo também que o tipo seja utilizado num maior número de línguas diferentes, tornando-se uma ferramenta de comunicação relevante para um artista com presença internacional.

Como é um tipo essencialmente para títulos pareceu-me igualmente relevante desenvolver alguns caracteres com desenho alternativo.

Como encaras esse tipo de trabalho para alguém quase da área. Mais pressão ou mais liberdade criativa na esperança de que uma mente mais parecida entenda as tuas ideias?

É sempre difícil ou incorrecto generalizar este tipo de coisas. Neste caso trabalhar com o Diogo foi um processo simples e fluído. Ele sabia o que queria e passou um brief bastante claro: o logo teria que reflectir o quadrado e o stencil, sem que o stencil tivesse aquele ar militar e da minha parte que acompanho o trabalho dele praticamente desde o início, acabou por se tornar relativamente intuitivo descodificar o que o Diogo transmite com o seu trabalho e como é que eu poderia acrescentar algo mais que o possa surpreender pela positiva.

Nesse sentido ajudou bastante o facto de me identificar com o Graffiti, que desde muito cedo, foi o que ajudou a definir a minha paixão pelas letras. Neste caso, acho particularmente interessante termos percursos semelhantes, do meu lado fui do Graffiti para o Design e no caso do Diogo, o Design foi uma fase que certamente o ajudou a amadurecer e solidificar o seu trabalho enquanto artista.

Se tiver que generalizar, a resposta directa seria liberdade criativa, mas com uma postura consciente de que se não acompanharmos o cliente no processo criativo isso pode tornar-se um problema, isto porque a criatividade não tem medida e o que para mim pode ser banal, para outra pessoa pode ser criativo e vice-versa. Quando apresentei o logo, não foquei a apresentação num logo, mas sim numa ideia e isso contextualiza o potencial e a relevância enquanto peça de comunicação que o logo pode e deve ter assim como criar uma oportunidade para expandir esta linguagem para outros formatos como algumas das interações do website.

Sentiste durante o processo que a marca em si (o logo) ia ter pouca utilização (do género, não há um estacionário, não há propriamente materiais de marca) e se, de certa forma criares, todo o universo foi uma forma de compensar.

Embora não hajam aqueles formatos mais tradicionais que referiste o Logo seria necessário para o website e para aplicar em murais, desde aí, a própria natureza do stencil ser relevante. É claro que em ambiente digital a componente de animação torna-se uma mais valia, servindo de elemento complementar ao trabalho do Diogo.

Não procurei criar um universo que não existisse, mas sim algo que sirva de suporte ao que interessa, que é o trabalho do Diogo, permitindo uma continuação do seu estilo em situações em que o trabalho não consegue estar presente. Neste caso, através de um tipo de letra exclusivo para a sua marca.

E isto só posiciona o desenho de tipos de letra como algo fundamental, para comunicar mais com menos.

Pretendeste mais representar o Diogo Machado enquanto artista e processo ou enquanto autor de um corpo de trabalho passado?

A identidade pretende representar o artista e não apenas o trabalho que ele desenvolveu até à data. O pretexto da nova identidade é a publicação de um livro que celebra o trabalho desenvolvido nos últimos 10 anos, mas a marca deve ser intemporal. Para captar essa temporalidade não basta olhar ao trabalho, é preciso olhar para a metodologia do artista, passando por um processo de síntese de informação, quase como o DNA de alguém. Esta ideia deu origem a um logo e um tipo de letra com raízes no stencil e no quadrado, duas características fortes do seu trabalho, que permitiu uma abordagem tipográfica única que deram origem a uma color font mono-espaçada em que os caracteres têm todos a mesma largura e estão circunscritos num quadrado, reflectindo a ideia de um padrão de azulejos, ao mesmo tempo que o tipo de letra pode ser utilizado a 2 cores, criando uma maior proximidade ao trabalho do Diogo.