Lisboa Dance Festival 2018 fez o Beato dançar contra a tempestade

O Lisboa Dance Festival recebeu energia em lugares devolutos do Beato celebrando a música electrónica.

Jorge Dinis/Live Experiences

Mais uma vez, Lisboa viveu uma experiência underground com o festival Lisboa Dance Festival 2018. Depois da sua estreia no LxFactory, na sua terceira edição, esse ano rumou para oriente, com uma proposta de um ambiente mais trendy, nas antigas instalações da Manutenção Militar aka Hub Criativo do Beato.

A estrutura e o modo como o festival foi pensado foi inovador e ambicioso embora a meteorologia não tenha ajudado a tornar os espaços confortáveis. Espaços de antigos celeiros, fábricas de pão e bolachas, enormes salas de fornos e até uma pastelaria, foram invadidas por amantes da electrónica, nos dias 9 e 10 de Março, numa confraternização entre dança, arte e debates.

“A intenção é sempre procurar espaços que tenham este ambiente industrial, de outros tempos e épocas”, explica Karla Campos, promotora do festival da empresa Live Experiences.

A mudança de espaço representa quase como entrar num distrito industrial exclusivo do Lisboa Dance Festival. Salas industriais devolutas que nos faziam viajar no imaginário industrial underground.

Nomes como NAO, Joe Goddard e Nosaj Thing foram os destaques da festa onde houve muito espaço para artistas emergentes, alguns portugueses, com diferentes propostas eletrónicas, que fez do festival um autêntico melting pot de tribos. Mas esse ano o Lisboa Dance Festival contou também com a desagradável presença da Félix.

A tempestade, dessa vez com o nome Félix, não arredou o pé do festival e trouxe com ela chuva forte e rajadas de vento. Claramente afastou o público no início da noite, quando os Djs sets relevantes começavam a dar o ar da sua graça. O receio do pior só foi eliminado mais tarde as salas a comporem-se e o público a explorar o festival.

Jorge Dinis/Live Experiences

Arte

O Lisboa Dance Festival esse ano associou-se com a Biennial of Contemporary Arts (BoCA) na qual concebeu a exposição: Visceral Monuments. A BoCA propõe um conceito colaborativo entre instituições artísticas nacionais e internacionais (museus, galerias, teatros), integrando acções no espaço público e incidindo numa arte transversal que propõe uma sinergia entre instituições, campos artísticos e respectivos públicos.  Infelizmente o espaço era distante e pouco destacado no festival o que resultou em pouca afluência.

A exposição tem a curadoria de John Romão e foi instalada na antiga Central Eléctrica e apresenta obras de 12 artistas portugueses e estrangeiros. Há peças de drag queens de Brice Dellsperger (FR), da activista Tania Bruguera (CU) e uma linha de sapatilhas Nike de Tiago Alexandre (PT). Pessoalmente o ponto forte surge na performance forte e labiríntica da obra de Boris Charmatz & César Vayssié (FR) — uma projecção numa parede descascada (tamanho ecrã de cinema) onde 24 bailarinos da peça “Levée des Conflits” criam uma extensa partitura de gestos non sense em formato random.

Visceral Monuments tem como conceito mostrar os variados tipos de expressões da dança, seja pela diversidade, gesto político, crenças e o ato de criação da mesma. Tal como a música, a dança pode ser uma expressão de ordem, de fascínio e reiteração do colectivo.

Artistas:

André Romão (PT)
Boris Charmatz & César Vayssié (FR)
Brice Dellsperger (FR)
Claudia Maté (ES)
Diogo Evangelista (PT)
Gregor Rozanski (PL)
João Onofre (PT)
João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira (PT)
Tania Bruguera (CU)
Tiago Alexandre (PT)

 Debates (Talks)

O Lisboa Dance Festival foi mais uma vez além da música e este ano volta a organizar conversas com jornalistas, músicos e agentes do meio musical e artístico. Este ano contou com 3 debates que tiveram como tema central o grande boom mediático de Lisboa no ponto de vista musical:

Marcas na música: como equilibrar interesses artísticos e comerciais no presente?” com Oradores: Miguel Cadete (BLITZ), Karla Campos (Live Experiences), Rui Murka (Let’s Get Lost), Pedro Gonçalves (Diretor de Marketing da KIA), GPU Panic (músico).

Lisboa dança com turistas” com Sérgio Hydalgo (Programador Musical BoCA), Pedro Fradique (Programador Musical), Ricardo Farinha (NiT), Xinobi (músico).

“Lisbon is the new what” com Oradores: Branko (DJ/ Produtor/ Enchufada), Ryan Miller (Resident Advisor), Davide Pinheiro (Jornal I/ Mesa de Mistura/ Copenhaga) e Tyson Ballard (DJ/ Produtor/ Condesa Electronics).

Entre as conversas destaca-se a “Lisboa is the new what” onde se debateu como hoje em dia Lisboa soa no cenário musical internacional. “Lisbon sounds different” foi a conclusão. Confirma-se claramente mais músicas disponíveis (locais e internacionais), um público novo e interessado em música; em síntese Lisboa procura o menos óbvio, e isso tem forte resposta mediática de fora.

Desde os tempo de Malkovich que Lisboa chama a atenção mas nunca foi tão explicito como é agora. Houve uma mudança de percepção do país por conta da cultura de Lisboa e também da música. Buraka Som Sistema foram um dos ponto há dez anos quando Branko e sua tribo criaram um magnífico trabalho.

Teme-se pela de sustentabilidade desse hype, e que algumas coisas possam cair, mas esse ecossistema está a ser muito bem trabalhado. Lisboa esta finalmente na eletronic network da Europa e nota-se uma grande competição entre festivais e clubs para trazer bons nomes à cidade.

Actuações

Jorge Dinis/Live Experiences

O 3 nomes vistos no primeiro dia foram todos no palco Kia, na Fábrica do Pão. O primeiro foi a grande figura da noite, NAO.  A sala estava lotada para assistir à sensualidade clássica do R&B, às tácticas do funk e ao apelo de um futuro sintético. Neo Jessica Joshua deu nas vistas com For All We Know, álbum de estreia editado em 2016. Apareceu para divulgação desse álbum em Portugal no Vodafone MexeFest 2016 e desde então deixou grandes admiradores. A verdade é que NAO não é uma artista de eletrónica, nem de dança, nem de hip-hop, é tudo ao mesmo tempo.

A cantora e produtora mostrou uma grande presença de palco, com sua voz a dizer algumas palavras com o público em pausas entre temas; mostrava-se doce, sexy e baixa mas muito confiante. NAO tem o clássico toque R&B ou da soul mas destaca-se pela a mistura digital e crua da eletrónica. Principais temas como: “Girlfriend”, “Fool to Love” ou “Bad Blood”, foram cantados pela plateia ao rubro.

O concerto tinha um som bastante orgânico comparado com o restante cartaz mas NAO não se intimidou com a diferença e fez um concerto dançável, animado e dinâmico.  A plateia ficou extasiada com a presença da britânica.

A seguir mantive-me no mesmo espaço para marcar presença na apresentação do britânico Romare, que constrói música com samples de universos como o disco e o jazz. Estava muito curioso para essa actuação live set mas confesso ter sido dos pontos mais fracos da noite. O produtor londrino esteve mais concentrado na quantidade de equipamentos que tinha do que no próprio público. Não tinha muito simpatia e parecia que a actuação live era para ele próprio.

O conceito por traz era grande mas a execução tinha que ser considerada. A junção de saxofone, percussão, baixo podia ser uma grande chamada para o público mas as falhas técnicas com excesso de grave, sons desconfortáveis e zero de comunicação fez o público perder o interesse da actuação do espaço Kia Room.

Jorge Dinis/Live Experiences

A noite ainda não tinha acabado e ainda faltava uma cartada portuguesa de luxo, Xinobi. Bruno Cardoso não decepcionou em nada e mostrou seu poder na cena house e tecno portuguesa. No seu set apareceram temas do seu segundo álbum On The Quiet, editado no ano passado pela sua produtora Discotexas. “When Dark Becomes Light”, de Karmon, e “Acamar”, de Frankey e Sandrino, foram o auge da performance de Xinobi.

Os três primeiros de sábado formaram uma progressão interessante de ritmo musical. No palco Carlsberg Room, na Fábrica das Massas, os Paraguaii misturaram rock e electrónica com subtileza. Muito simpáticos com o pouco público presente, deram as boas vindas ao segundo dia do festival com guitarras que abraçavam os sintetizadores e a bateria resultando numa óptima performance com uma harmonia singular dos instrumentos.

Depois dos simpáticos Paraguai foi a vez de ir a HUB Room, espaço Grillas, para ouvir as batidas fortes de Prins Thomas. O norueguês fazia todos os que chegavam dançar com seu techno minimal e electrónica espacial, características muito presentes no seus sets. Na plateia, esqueletos balançavam com techno e samples de guitarras funk e até houve espaço para uma versão da música brasileira de forró: Baião Destemperado.

É chegada a hora de descrever a actuação do artista californiano Nosaj Thing,  que já trabalhou com artistas como Kendrick Lamar e Chance The Rapper, entre outros. A simplicidade foi o foco principal da actuação. Nosaj Thing apresenta-se tímido e com o mínimo de iluminação possível. O dj fez todo o set sem iluminação para si e deixou o público imaginar os seus movimentos ou expressões faciais.

Apesar de parecer muito apático e desligado do público, a performance foi muito bem executada e o dj mostrou claramente que a sua experiência de produção não precisa de grandes holofotes. Por cima de si, um strob seguia as bpm harmoniosas, acendendo e apagando num exercício síncrono.  À sua direita, um laser tridimensional e poucas cores, cria um quadro minimal, pautado por mudanças na cor e forma, mas poucas. O campo visual era pobre mas a objectivo de Nosaj Thing parece ter sido bem concretizar: minimizar nos olhos e aumentar a audição.

Por fim, a sala Hub colocou a fritura necessária na frigideira e fez um set digno de encerramento. Com o público mais metamorfoseado, o palco dedicou-se num DJ Set de Techno simbiótico de músicas fortes e dançantes. As luzes do palco – paleta de cores e o globo de espelho encerrou a bem sucedida terceira edição do festival.