O lado negro da indústria da moda de que falta sempre falar

TL;DR: A indústria da moda está numa situação de emergência social e ambiental.

Fotografia promocional do documentário True Cost

Considerada das mais poluentes, a indústria da moda está actualmente assente num conceito capitalista difícil de mudar, por muitas “colecções conscientes” que sejam criadas.

Earnest Elmo Calkins, pioneiro do modelo de publicidade moderno, é creditado por ter definido nos anos 30 que “os produtos pertencem a duas categorias: aqueles que usamos, como automóveis ou barbeadores de segurança, e aqueles que consumimos, como pasta de dentes ou biscoitos. [Que] a manipulação do consumidor deve conseguir que se consuma o tipo de produtos que agora meramente usamos.” Foi sobre esta linha de pensamento que o consumismo se desenvolveu. Desde então, tal como a população cresceu, também o seu número de necessidades aumentou. Muitas delas são provenientes de importantes avanços tecnológicos, claro, mas grande parte, ainda assim, são meras ilusões criadas para aumentar receitas de empresas.

As mensagens publicitarias que vendem felicidade traduzem-se na ideia de que os problemas da vida de cada um podem ser resolvidos através do consumo, colocando uma crescente importância na posse de bens efémeros e na procura constante por algo novo que finalmente nos vai satisfazer. Um dos maiores exemplos disso é a indústria da moda descartável, ou fast fashion.

Estamos habituados a olhar para o produto final e acabado, é preciso que nos afastemos para considerar a sua origem e o impacto que o consumo desmedido e inconsciente tem nas condições de vida dos trabalhadores em economias de baixo custo e no ambiente.

Longe dos olhos do mundo ocidental, as marcas não empregam oficialmente os trabalhadores nem são proprietárias de nenhuma das fábricas onde os seus bens são produzidos. Livres de responsabilidade pelas condições de trabalho precárias a que estas pessoas estão sujeitas todos os dias, os custos de produção são baixos e é acumulado o maior lucro possível. Se as fábricas se recusam a manter as suas margens baixas sujeitam-se a perder o cliente; mas a economia destes países tornou-se tão dependente desta exploração da mão de obra que os governos mantêm propositadamente os salários baixos e evitam constantemente a aplicação de leis laborais locais por medo da relocação da produção para outros países. Também as marcas preferem continuar com códigos de conduta voluntários por parte dos donos das fábricas de modo a proteger os seus interesses maiores.
[The True Cost]

Foi preciso o colapso de um edifício comercial que continha uma fábrica de vestuário de várias marcas conhecidas em Dhaka, no Bangladesh, em 2013 e a morte de mais de 1100 pessoas, para que deste lado do globo se despertasse para o real custo de produção de moda barata. Com a atenção em cima deles, as empresas, sindicatos e grupos de direitos dos trabalhadores comprometeram-se a melhorar as condições laborais da indústria têxtil do Bangladesh em cinco anos. Esse prazo chega ao fim dentro de poucos meses e a verdade é que ainda se está longe das metas definidas.

Prevalecentes são também as práticas de terminação dos contratos em caso de gravidez, emprego de crianças refugiadas e salários tão baixos que levam os trabalhadores a querer mais horas de trabalho para conseguirem sobreviver.

Para além das violações de direitos humanos, há ainda o impacto que a compra de 80 mil milhões de peças de roupa por ano tem no ambiente.

Em Fevereiro foi divulgado o primeiro estudo científico aprofundado acerca do impacto ambiental desta indústria. Os dados mostram que a produção de vestuário e de calçado contribui para cerca de 8% dos gases de estufa emitidos anualmente, quase o equivalente ao emitido pela União Europeia.

A produção global de vestuário concentra-se na Ásia, continente dependente de carvão e gás natural para gerar electricidade e calor, o que impulsiona a emissão de gases de estufa nas três etapas mais poluentes: produção de fibra (15%), preparação de fibra (28%) e tingimento e acabamento (36%). Relativamente ao calçado, as áreas de maior impacto variam conforme o material usado — com materiais sintéticos e têxteis a fase de fabrico é a mais poluente (43%), mas para calçado de cabedal, 50% do impacto ambiental vem da extracção do material e do seu processamento. Estes valores percentuais traduzem-se não só na poluição da atmosfera, mas também da água, no uso de produtos químicos tóxicos prejudiciais à saúde e ao ambiente, e na acumulação de cada vez mais lixo têxtil que acaba em aterros.

Cabedal colorido e os efeitos nas calças de ganga, por exemplo, são conseguidas através do uso de químicos tóxicos, o que faz com que o tingimento têxtil seja a segunda actividade que mais polui a água (apenas ultrapassada pela agricultura). Para além de tóxicos, estes químicos são também bio-acumulativos (a substância desenvolve-se mais depressa do que o organismo é capaz de a excretar ou metabolizar), disruptivos hormonais e cancerígenos. O seu uso é proibido na Europa e na América do Norte, mas não em países como a China ou o Bangladesh.

Em RiverBlue, Mark Angelo, um especialista internacional em rios, diz que os rios no Bangladesh chegam a ter mais químicos que água: “Li muito sobre o rio Buriganga e sabia que era um dos rios mais poluídos da Terra. Esta zona, particularmente este rio, sofreu um grande impacto por parte do sector têxtil e das fábricas de peles (…). Ao estar aqui de pé, enquanto levo com o vento na cara, o cheiro é inacreditavelmente mau. É atroz. É difícil imaginar um rio mais poluído do que este. Cerca de um terço desta poluição é proveniente de esgotos e a maioria dessas descargas não são tratadas, mas cerca de dois terços desta poluição vem das fábricas de peles, a montante. É tudo poluição industrial, químicos e metais pesados. Esta água está tão poluída que não suporta vida nenhuma e o nível de poluição é tão elevado durante a época seca que há partes deste canal que podem literalmente ser ateadas.”

Para além de a poluir, esta é também uma indústria com um consumo de água muito intensivo. A pegada de água do algodão varia de acordo com a região onde este é plantado, mas no geral é de 10,000 litros por quilograma, ou seja, uma camisola de 250g de algodão custa cerca de 2500 litros de água. O impacto faz-se notar principalmente nas localidades à volta dos campos de cultivo: a extracção excessiva de água do Amur Darya e do Syr Darya para a irrigação das plantações de algodão é em parte responsável pelo desaparecimento do Mar Aral.

Ainda no caso do algodão, o documentário The True Cost alerta para o uso de sementes geneticamente modificadas e de pesticidas: ao início consegue-se um aumento do rendimento da plantação, mas este começa a descer ao longo do tempo com a contaminação do solo, pois quanto mais químicos se usa, mais e mais fortes é preciso continuar a usar, pelo que os pesticidas são muitas vezes apelidados de “narcóticos ecológicos”. O resultado da exposição diária a este nível de toxicidade resulta em vários tipos de cancro, atrasos mentais severos e deficiências físicas.

Cada peça de roupa comprada hoje é usada menos de metade das vezes que era antigamente; a conveniência dos locais de venda e das constantes promoções tornou o vestuário algo realmente descartável. A saturação é tanta que as marcas deixaram de pensar em colecções Primavera/Verão e Outono/Inverno e passaram a criar pelo menos 52 «micro-colecções» por ano numa tentativa de persuadir os consumidores a comprar cada vez mais. Várias iniciativas para a reciclagem de roupa são levadas a cabo todos os anos pelas principais marcas mas a verdade é que, para além de várias continuarem a incentivar ao consumo com vales de descontos para a próxima compra, as taxas de reciclagem de roupa são ainda muito reduzidas. Até a quantidade de roupa em segunda mão enviada para países de terceiro mundo é tal, que está a causar desemprego no sector manufactureiro tradicional, e consequentemente, incapacitando as economias locais.

Fazendo as contas, por mais barata que tenha sido, a roupa hoje tem um custo monetário total mais levado que nunca — compra-se cada vez mais e usa-se cada peça cada vez menos vezes.

What we start doesn't end at Goodwill. #FastFashion

Publicado por The True Cost em Sexta-feira, 3 de Abril de 2015

E AGORA?

No estudo acima referido são apresentadas soluções para uma maior sustentabilidade desta indústria.

É preciso diminuir drasticamente a dependência em combustíveis fósseis ao mesmo tempo que se aumenta a eficiência energética ao logo da cadeia de produção e distribuição; o aumento do uso de energia renovável terá efeitos positivos tanto na saúde, como na qualidade de água potável.

Novas tendências sob a forma de tecnologias disruptivas trazem enormes benefícios para a indústria ao reduzir emissões nas fases mais poluentes (do lado dos produtores); do lado do consumidor há que facilitar um padrão de consumo mais inteligente, como o aluguer de peças de roupa ou programas de retoma que estenderão a tempo de vida de cada peça, reduzindo assim a procura por novos produtos.

A selecção de fibras com impactos ambientais mais reduzidos e o uso de materiais emergentes que requerem menos energia na fase de processamento são também importantes.

Relativamente ao uso de fibras recicladas, o impacto só será visível se combinado com a redução do consumo de fast-fashion (duas boas alternativas passam pela preferência por lojas de caridade ou de roupa em segunda mão em detrimento lojas convencionais; e o remendo das peças, se possível, em vez de deitar logo fora) e tendo em consideração questões de equidade global (evidenciadas pela crescente proibição das importações de vestuário em segunda mão nos países em desenvolvimento).

A indústria da moda contribui para todas as actividades que mais levam o planeta ao limite. The Pulse of the Fashion Industry

TL;DR

A indústria da moda está a numa situação de emergência social e ambiental.

Todos os dias milhões de pessoas em países em desenvolvimento (principalmente mulheres e crianças) são sujeitas a condições de trabalho que põem em perigo a sua própria vida para fazer algo tão banalizado como um par de calças.

O impacto no ambiente é igualmente elevado: a produção de vestuário e de calçado contribui para cerca de 8% dos gases de estufa emitidos anualmente, quase o equivalente ao emitido pela União Europeia; ao que se acrescenta ainda a poluição da água, o uso de produtos químicos tóxicos prejudiciais à saúde e ao ambiente, e a acumulação de cada vez mais lixo têxtil que acaba em aterros.

É imperativo mudar os padrões de produção e consumo actuais.