Há Jazz Em Agosto mas já há programação e é dedicada a uma lenda viva

Será a 35ª edição deste evento, mas a primeira dedicada a um só músico: o norte-americano John Zorn.

Saudades dos dias quentes e das noites assim-assim? Nós também. E de umas belas noites de Jazz? O Jazz Em Agosto vai regressar… em Agosto à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Será a 35ª edição, mas a primeira dedicada a um só músico: o norte-americano John Zorn. Será, assim, uma celebração de uma das figuras mais intrigantes, inspiradoras e inspiradas, que tem deixado uma profunda marca autoral na música inovadora dos nossos dias.

Residente em Nova Iorque, o compositor, saxofonista, produtor e responsável máximo pela editora discográfica Tzadik, onde edita a sua música e a dos artistas que gravitam na sua esfera de influência, tem abordado todos os géneros e subgéneros musicais, do jazz ao rock, passando pela música clássica, as bandas sonoras, a música ambiente ou a música improvisada. A música e o universo singular de John Zorn estão espelhados nos 18 concertos e cinco filmes que o Jazz Em Agosto apresenta e onde marcam presença, para além do próprio músico, vários dos melhores músicos da cena nova-iorquina.

A 35ª edição do Jazz em Agosto irá decorrer em vários espaços da Fundação Calouste Gulbenkian, nomeadamente no Anfiteatro ao Ar Livre, no Grande Auditório, no Auditório 2 e na Sala Polivalente do Museu Calouste Gulbenkian. A relevância para a música actual dos projetos e dos músicos apresentados nesta edição torna difícil, se não impossível, a missão de destacar uns projetos em detrimento de outros.

O concerto de abertura desta edição especial dedicada a John Zorn apresenta uma formação inédita, em que Zorn se juntará a outros dois improvisadores natos do downtown nova-iorquino, o legendário baterista Milford Graves e Thurston Moore, o guitarrista que pertenceu aos icónicos Sonic Youth.

A este primeiro momento, no Anfiteatro ao Ar Livre, somam-se quatro noites de concertos duplos que focam as composições de John Zorn no âmbito dos projectos Book of Angels e Bagatelles. Ao longo destas noites apresentam-se em palco as formações Mary Halvorson Quartet, Masada, Nova Quartet, Asmodeus, Kris Davis Quartet, John Medeski Trio, Craig Taborn (solo) e Brian Marsella Trio, que incluem também os músicos Dave Douglas, Drew Gress, Joey Baron, Kenny Wollesen, Marc Ribot, Kenny Grohowski, Tomas Fujiwara e Trevor Dunn.

Os grupos Simulacrum, Highsmith Trio, Insurrection e Secret Chiefs 3, que integram alguns dos músicos já mencionados, completam o programa do Jazz Em Agosto no Anfiteatro ao Ar Livre com outros nomes igualmente relevantes da órbita de Zorn, como Ikue Mori, Ches Smith, Jim Black, Matt Hollenberg e a jovem revelação na guitarra Julian Lage, entre outros.

John Zorn

O Jazz Em Agosto apresenta este ano, no Grande Auditório, três eventos inéditos no mesmo dia: o filme John Zorn (2016-2018), nova extensão do retrato intimista sobre este músico que Mathieu Amalric estreou em 2017, e que contará com a presença em sala deste realizador; Jumalatteret, um ciclo de canções para voz e piano inspirado no texto épico finlandês Kalevala, apresentado pela notável soprano Barbara Hannigan e pelo pianista Stephen Gosling, com música composta por Zorn; e, por fim, um encontro de John Zorn, no órgão, com a sua cúmplice e mestre da electrónica Ikue Mori no projecto The Hermetic Organ.

Serão também realizados seis concertos no Auditório 2. De Nova Iorque chegam-nos o grupo de guitarras eléctricas Dither, com James Moore, Taylor Levine, Josh Lopes e Gyan Riley, o trio Trigger, com Will Greene, Simon Hanes e Aaron Edgcomb, os guitarristas Julian Lage e Gyan Riley e ainda Robert Dick, que apresentará um raro solo de flauta contrabaixo. A completar esta programação, dois grupos portugueses que, embora não tenham sido editados na Tzadik, partilham com John Zorn um mesmo universo musical: The Rite of Trio, que anula fronteiras entre géneros musicais sem qualquer pudor, e Slow is Possible, que encontrou no projeto Naked City, a sua principal inspiração.

O Jazz Em Agosto dedica ainda espaço à exibição de filmes da editora Tzadik, na Sala Polivalente do Museu Calouste Gulbenkian: Pomegranate Seeds, um filme-concerto, em que Ikue Mori compõe em tempo real a banda sonora para imagens alusivas a um conto sobre a deusa Perséfone, e os filmes Bhima Swarga, igualmente de Ikue Mori; John Zorn The Book of Heads, de Stephen Taylor; Celestial Subway Lines / Salvaging Noise, de Ken Jacobs; e Between Science and Garbage, de Pierre Hébert com música de Bob Ostertag.

Serão 10 dias de devoção absoluta ao fascinante universo de John Zorn, que ficam igualmente ilustrados na contaminação da imagem gráfica desta edição do festival, desenvolvida especialmente para o efeito por Heung-Heung Chin, designer exclusiva da label Tzadik, revelando o ambiente de pura criatividade em que o músico respira.