Infotainment português, uma realidade em construção

No reverso da medalha, as críticas incidem sobre a possível banalização de assuntos sérios, que merecem um tratamento de acordo com a natureza do tema.

'Quem será o John Oliver nacional?'

Março é o mês da Informação no Shifter e não podíamos saltar um tema que marca o status quo dos meios de comunicação social em Portugal e no resto do mundo. Infotainment, a aglutinação das palavras informação e entretenimento, uma ideia que ainda não é unânime na esfera mediática.

Seria relativamente intuitivo pensar este conceito como a produção de notícias com base na informação e no entretenimento. As denominadas soft news são o resultado deste processo e procuram chegar ao espectador, leitor ou ouvinte de uma forma mais atractiva. Contudo, a definição de infotainment não se cinge apenas à concepção de notícias. O século XXI tem sido marcado por aligeirar formatos, misturar elementos de informação no entretenimento e dotar o entretenimento de um carácter mais sério, aludindo à ideia de informar o público. Para cada uma destas ideias darei exemplos concretos que poderão ajudar o leitor a reflectir sobre o tema.

Soft News

O melhor exemplo de soft news passa necessariamente pelos telejornais. É cada vez mais usual existir um tom de jornal até aos 40 minutos e outro diferente a partir daí até ao final. São recorrentes as notícias que envolvem pessoas famosas no Instagram e gatos fofinhos – os chamados fait divers –, alimentando uma vez a discussão se este tipo de informação consistem ou não notícias para o jornal televisivo. A ideia de soft news não contempla o julgamento da notícia. Por outras palavras, cabe apenas ao espectador julgar se uma soft news é boa, má, necessária ou desnecessária.

Num bloco noticioso é possível dividir as soft news em dois tipos. As primeiras são as mais fáceis de descortinar e correspondem às notícias com temas mais ligeiros, que envolvem a vida social de famosos ou polémicas em redes sociais por exemplo — com mais tainment e menos info. O segundo tipo consiste em abordar temas como a política, economia, justiça ou internacional de uma forma mais atraente. No fundo é dar uma roupagem sexy a notícias que podem ser pesadas e aborrecidas. Esta segundo método tem a vantagem de informar públicos que à partida não se sentiriam estimulados a receber estes conteúdos. No reverso da medalha, as críticas incidem sobre a possível banalização de assuntos sérios e que merecem um tratamento de acordo com a natureza do tema.

Hard Entertainment & Soft Information

Mas não só em espaços noticiosos se pode encontrar a prática de infotainment. Invertendo o conceito, são cada vez mais os espaços de entretenimento que contêm informação de serviço público, informação comercial ou informação institucional. Num espaço de entretenimento por excelência, como são os casos das telenovelas, são cada vez mais frequentes nuances no enredo que procuram criar debate sobre questões fracturantes da sociedade. A etnia cigana ou a homossexualidade foram temas expostos nas mais recentes novelas da TVI, que aproveitando espaços mediáticos com audiências elevadas, procuram desmistificar e clarificar estas realidades.

Se o primetime conhece novas realidades de informação, o daytime não foge à regra. Gostava que o leitor Shifter atentasse no número de vezes que médicos e especialistas da área da medicina participaram em programas nos horários da manhã e da tarde na televisão generalista portuguesa. A RTP concebeu um segmento no programa da tarde que contava com um consultório médico onde os telespectadores colocavam perguntas em directo. Com o sucesso do programa, o médico residente passou para um programa em nome próprio ao fim de semana de manhã. Recentemente, a SIC viu neste modelo um exemplo a seguir. Estreou há poucas semanas o “Dr.Saúde”, programa onde um médico aborda diariamente problemas de saúde e respectivas soluções. De notar que há uns anos para cá, a SIC possuía um painel de especialistas que em programas de daytime esclareciam os espectadores, no mesmo modelo da RTP. Como este formato é transversal, a TVI conta com a colaboração de um médico no programa Você na TV, onde o modelo é semelhante aos anteriores aqui falados.

É inegável que o espectador de daytime é fã deste formato. É igualmente fácil de reconhecer que o sucesso tem sido assinalável e transversal a RTP, SIC e TVI. Numa perspectiva de análise, este tipo de programa trata informação séria, importante e que causa ligação com o espectador mas transmitida de uma forma cativante e atraente. Temas de saúde envolvidos numa aura de daytime é a correspondência perfeita de entretenimento com base de informação.

Era impossível falar em infotainment sem mencionar programas de humor político ou formatos políticos discutidos com humor. Se no estrangeiro é fácil de identificar John Oliver e Stephen Colbert como expoentes máximos de sátira política, em Portugal é mais complexo marcar programas e pessoas activas nessa área. Actualmente em emissão, o Governo Sombra, transmitido na TVI24 é o único programa onde existe discussão política com laivos do humor, mas longe da exclusividade de um formato de humor político. Aliás, Ricardo Araújo Pereira foi o último em antena nesse registo, em 2015 com o programa da TVI “Isso é tudo muito bonito, mas“.

Curiosamente tem sido a rádio o meio de comunicação social onde o humor político está mais presente. Nos últimos anos, Tubo de Ensaio, Mata-Bicho, Portugalex ou Um olho no burro, na TSF e Antena 1, são alguns exemplos de humor político constante e diário. Tal como na televisão, a abordagem de assuntos pesados como a política de uma perspectiva mais risível pode captar a atenção de públicos-alvo que à partida não estariam tão interessados para certos temas. Muitas vezes se não existir esta forma de abordagem a certas notícias, muitas pessoas nem tomam contacto com as mesmas, o que por si só torna o humor político útil e necessário à sociedade portuguesa.

O Infotainment não é bom, nem mau, nem assim-assim, é sobretudo o contrário disto e o seu inverso. Como tudo, a boa ou má utilização desta abordagem de comunicação é a chave para produzir conteúdos com propósito e de utilidade a qualquer cidadão atento aos meios de comunicação social. Este artigo não resume nem 1/10 do que pode ser falado sobre a temática. Por isto, que comece a discussão e o debate sobre uma ferramenta para fazer informação, entretenimento ou os dois em conjunto.