Como a inteligência artificial pode ser boa para o jornalismo

Os bots não vão roubar empregos, vão desempenhar tarefas dos jornalistas que são chatas e das quais actualmente são escravos. A força humana não é útil a escrever "notícias-chapa", e pode assim concentrar-se em trabalhos de maior valor jornalístico.

Uma parte do trabalho do jornalistas hoje em dia, por muito que não seja o ideal, é ficar sentado a escrever “notícias-chapa”, isto é, artigos que de criatividade têm pouco e que assumem quase sempre a mesma estrutura, apresentando apenas algumas variações de palavras para não saírem todos iguais. Um tipo de trabalho que pode ser desempenhado por bots – baseados em inteligência artificial.

É isso que várias redacções, do Washington Post à Reuters, estão a experimentar. Os bots não vão roubar o emprego dos jornalistas, mas antes ocupar tarefas que são chatas e das quais estes são actualmente escravos. A força humana não é útil a escrever “notícias-chapa” e pode concentrar-se em trabalhos de maior valor jornalístico, como grandes reportagens, crónicas, etc – coisas que a inteligência artificial (IA) não é capaz de desempenhar.

A Reuters anunciou esta semana que está a desenvolver uma ferramenta de IA que vai ajudar os jornalistas a analisar dados, sugerir-lhes ideias para histórias e ainda escrever algumas frases-base. Essa ferramenta chama-se Lynx Insight e já está a ser testada pela Reuters desde o Verão passado, estando agora a ser disponibilizada a mais redacções da agência noticiosa.

Na prática, o Lynx Insight é capaz de analisar bases de dados gigantescas de informação, disponibilizando aos jornalistas da Reuters os detalhes que são mais relevantes, como preços de acções em subida repentina, mudanças intrigantes num mercado ou padrões mais subtis, segundo escreve a Wired. Os jornalistas podem receber esses resumos por e-mail, analisando depois o seguimento que querem dar – isto é, se querem escrever sobre o tema, dando-lhe o aprofundamento e contexto necessários.

Cada macaco no seu galho

Assim, o sistema de IA da Reuters promete fazer aquilo que melhor sabe – analisar dados e encontrar padrões –, deixando o trabalho jornalístico para… os jornalistas. O Lynx Insight é capaz de aprender consoante o feedback humano, ou seja, dados que o sistema recolha mas os jornalistas não considerem interessantes serão tidos em consideração pelos algoritmos de forma a aperfeiçoar o seu trabalho futuro. A ideia é que, com o passar do tempo, o Lynx Insight seja treinado para sugerir histórias mais relevantes.

A IA vai ainda ser capaz de escrever algumas frases que os jornalistas podem utilizar nas suas peças, bem como de lhes sugerir dados relevantes quando estes estão a trabalhar numa peça. Por exemplo, se um elemento da redacção estiver a escrever sobre uma empresa, o Lynx Insight poderá dar-lhe um conjunto de informações que pode ser incluída ou útil nessa peça. Outra utilidade é a sugestão de fotos ou vídeos para publicações nas redes sociais. O sistema está ainda a ser desenvolvido, pelo que algumas destas funcionalidades ainda não estão desenvolvidas e estão no roadmap da equipa técnica da Reuters. Aliás, o Lynx Insight funciona para já apenas com dados financeiros, mas a agência prevê alargá-lo a outros tipos de informação, como a desportiva.

A Reuters não é pioneira na utilização de inteligência artificial e de bots no campo jornalístico. Também o Washington Post, a Press Association, a Bloomberg, a Yahoo e a Associated Press estão a fazer avanços neste sentido. Algumas dessas abordagens passam por colocar a IA a escrever notícias completas, sejam resumos desportivos, movimentações de bolsa ou avisos de terramoto – áreas onde não é precisa muita criatividade humana.