O dia em que o Hip Hop descobriu a mensagem e o poder da informação

Grandmaster Flash & The Furious Five, os pioneiros do Rap consciente.

A mensagem. Quantas vezes, nós, amantes da cultura Hip Hop, não vendemos o peixe aos amigos mais cépticos sobre a singularidade do rap, usando como argumento principal o poder da palavra face a outros géneros musicais. Esse poder que, só não é um super poder por ser tão relacionado com a realidade, é actualmente um dos maiores trunfos deste género. Mas o Hip Hop, a cultura onde o “Eu” influencia mas é o “Nós” que se fortalece, nem sempre foi território de rimas de intervenção e de mensagens informativas, tendo sido no seu começo bastante semelhante ao que presenciamos actualmente.

Música de festa e rimas de egotripping descomprometidas, por vezes sem grande sentido lírico, faziam e vão fazendo as delícias de quem ouve pela primeira vez umas rimas por cima de um instrumental. Porém a evolução do Rap, como os maturação de alguns ouvidos, permitiu uma maior consciencialização da influência e impacto da palavra.

Relatar a realidade do nosso dia. Tão banal e ao mesmo tempo tão poderoso. O simples acto de contar o nosso quotidiano. O mesmo que sempre fizemos com os nossos familiares e amigos. Partilhar as nossas histórias, angustias, dilemas, ensinamentos.

Actualmente saber o vida de um rapper branco grego é fácil, porém, no inicio da década de 1980, a realidade vivida a 10km da tua casa poderia ser-te completamente alheia. Não por falta de vontade ou desprezo, mas sobretudo por falta de informação, até porque a internet como a conhecemos hoje ainda não passava de um sonho. E foi aí que se revelou o poder da mensagem no hip hop. 

Quando pesquisamos um pouco sobre os primórdios da cultura Hip Hop, rapidamente somos catapultados para o triângulo sagrado, com Kool Herc, o responsável pela primeira festa de Hip Hop e pela técnica Merry-Go-Round, — a principal base que ajudou a prolongar os tais grooves repetitivos — , Grandmaster Flash, pioneiro do double-back, back-door, back-spin, e phasing (mais umas), e Afrika Bambaataa, líder da Zulu Nation.

Grandmaster Flash em conjunto com os MC’s Cowboy, Melle Mel, Kid Th, Rahiem e Scorpio, formaram os Grandmaster Flash & The Furious Five. O maior sucesso do grupo, “The Message”, (originalmente demo “The Jungle”) faz parte do LP com o mesmo nome, lançado no dia 1 de julho de 1982, pela Sugar Hill Records, tendo alterado por completo a percepção e função do movimento Hip Hop.

O DJ até então personagem mais importante do grupo, já tinha começado, gradualmente, a ser remetida para um papel secundário e os MC’s, esses, tornavam-se os principais protagonistas em palco. “O primeiro grupo de Rap em que o MC tinha a dizer algo que realmente significa alguma coisa.” – Chuck D dos Public Enemy.

Contudo mais importante que o surgimento de uma nova dinâmica foi o nascimento daquilo que podemos apelidar de rap consciente. Grandmaster Flash & The Furious Five possivelmente não terão sido os primeiros a idealizar a sua concepção ou até mesmo a cuspir umas barras nesse tom, contudo foram os primeiros a editar uma música com este impacto social.

It’s like a jungle sometimes, It makes me wonder how I keep from going under

A faixa, que imagine-se, esteve para não ser gravada, pois não fazia parte do estereótipo de festa relacionado com o Rap, como afirma Melle Mel, foi escrita pelo próprio e por Duke Boote — membro da Sugar Hill Records. Os autores, perante uma música socialmente tão relevante, acabaram por ceder à pressão e sentir a necessidade de a lançar, pois tornara-se óbvio que tinham de facto algo a dizer. “Nunca tinha ouvido informação, já tinha ouvido “vamos curtir, vamos curtir”, mas nunca tinha ouvido uma mensagem. Era dissonante, chocante, a música não oferecia soluções” — ICE-T.

Grandmaster Flash refere-se a “The Message” como “uma janela para a América Urbana para as pessoas que não conheciam e para as que tinham medo de entrar”.

Conscientes da palavra e da música como veículo de informação, aliada à necessidade de mostrar ao mundo o que os politicos e os mainstream media teimavam em esconder e se recusavam a enfrentar. Num bairro de Bronx, como grande parte da periferia de Nova Iorque, completamente destruída pelos incêndios e inundada pelo crack, “The Message” tornou-se um cartão de visita para a realidade de uma comunidade, uma verdadeira primeira página de um grande jornal local. Darryl “DMC” dos Run DMC refere-se a The Message como “algo mais poderoso que a política, religião ou imprensa”.

Uma curiosidade que se junta à história do tema é que parte da letra é inspirada na faixa “Living For The City”, de Stevie Wonder – A boy is born in hard time Mississippi / A child is born with no state of mind.

O grupo terminou meses depois do lançamento de “The Message”, um possível reflexo dessa mesma nova conjuntura no movimento. Reuniram-se novamente em 1987, contudo apenas durante um ano. Em 2007, foram indicados como o primeiro grupo de Rap a entrar no Rock and Roll Hall of Fame. Em 2012 a a revista Rolling Stone considerou “The Message” como a melhor música de Hip Hop de sempre.

Em Portugal, são diversos os rappers que fazem da informação e da mensagem uma arma, seja de um modo mais ou menos interventivo, mais ou menos pessoal, os contadores de histórias andam por aí e musicalidade não lhes falta, com Allen Haloween, Chullage, Dealema, Phoenix RDC ou Sam The Kid como alguns dos expoentes máximos do Rap em Português.

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