12 filmes sobre jornalismo para jornalistas e aspirantes

São filmes que terão contribuído de forma indirecta para que se possa trabalhar informação como, por exemplo nós no Shifter, a tratamos.

Jornalistas como heróis que servem a comunidade e honram a profissão com as suas investigações. Pessoas de rigor e do realismo – umas com mais, outras com menos – retratadas na ficção, para mostrar o que é o trabalho jornalístico e documentar as mudanças que a profissão tem sofrido ao longo das últimas décadas.

São raros os filmes que conseguem retratar com dignidade e fidelidade a profissão, mas também são muitos os que tentam elevar os jornalistas a valentes símbolos de ética, um engrandecimento que acaba por diminuir a dimensão real das dificuldades e dilemas de um jornalista – quanto mais forte for o jornalismo, mais livre e escrutinada é a democracia.

Nesta lista que reunimos há de tudo. Bons e maus exemplos, filmes que vão dos aclamados ou despercebidos entre a crítica, nomeados e vencedores de Óscar, histórias mornas com boa imagem e estórias poderosas minimizadas pelo show off holywoodesco. São 12 filmes que vale a pena ver, mais não seja porque retrataram determinada era jornalística, e porque, de uma maneira geral, ajudaram a moldar a figura do jornalista, filmes que terão contribuído de forma indirecta para que se possa trabalhar informação como, por exemplo nós no Shifter, a tratamos.

Citizen Kane, 1941

Filme de 1941, foi realizado e protagonizado por Orson Welles, que quis com Citizen Kane desmistificar a história do então poderosíssimo magnata dos jornais William Randolph Hearst (aqui Charles Foster Kane). O argumento assume a forma de uma investigação jornalística sobre a vida da personagem principal, depois da sua morte. Conta a história que, num encontro fortuito entre Hearst e o realizador, na noite da estreia do filme, Welles terá convidado o magnata para a sessão, mas Hearst recusou. Quando este saía do elevador, Orson Welles terá dito: “Charles Foster Kane teria aceitado.”

Nightcrawler, 2014

Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) é um jovem desesperado por arranjar trabalho. Um dia, por casualidade, apercebe-se de que existe um grupo de jornalismo criminal que, atento ao que acontece na perigosa noite de Los Angeles, se dedica a filmar acidentes, incêndios, assassinatos e outros casos de polícia, para mais tarde vender aos canais televisivos. Decidido a começar o negócio por sua conta, inicia uma autêntica patrulha nocturna pela cidade. Como um verdadeiro abutre, espera que o sangue e a fragilidade da vida humana lhe tragam a sorte e a fortuna que tanto ambiciona. Um filme sobre o sensacionalismo.

Spotlight, 2015

Vencedor dos Óscares de Melhor Filme e Melhor Argumento em 2016, conta a história verídica do Caso Spotlight, a investigação que deu ao jornal Boston Globe o Prémio Pulitzer por serviço público. Em finais de 2001, um conceituado grupo de jornalistas vê-se a braços com um caso em que vários padres da Igreja Católica são acusados de abusos sexuais a crianças da comunidade. Ao investigarem a fundo, dão conta de décadas de encobrimento que envolvem os mais altos níveis das instituições da cidade de Boston, seja a nível religioso ou político. Decididos a mostrar a verdade e a levar os responsáveis a tribunal, a equipa de jornalistas empenha-se em encontrar provas irrefutáveis. Para isso, entrevista vítimas, procura dados de arquivo e contrapõe testemunhos ao mesmo tempo que se vê obrigada a fazer frente ao sigilo da instituição eclesiástica. Além do Pulitzer, o grupo de jornalistas de Spotlight foi responsável por desvendar um dos primeiros casos sobre o tema, que entretanto se veio a descobrir ser mesmo um dos maiores tabus da Igreja Católica.

All the President’s Men, 1976

É o filme de jornalismo no qual todos os outros passaram a inspirar-se. Dustin Hoffman e Robert Redford interpretam os jornalistas do Washington Post, Carl Bernstein e Bob Woodward, cuja meticulosa investigação do Caso Watergate levou à queda do Presidente Richard Nixon. Redford e Hoffman passaram alguns meses na redação do Post e conviveram com os verdadeiros Bernstein e Woodward antes da rodagem, para preparem os seus papéis. O filme ganhou quatro Óscares em 1977.

Palombella Rossa, 1989

Este entrou para a lista apenas por uma das cenas, literalmente. O diálogo entre a jornalista e o personagem principal é uma cena marcante e capaz de deixar qualquer jornalista a pensar na vida… e na escolha das palavras. A profunda viragem política dos países de Leste e o impacto sofrido nos Partidos Comunistas ocidentais, servem de pretexto para uma comédia satírica e crítica social, Nanni Moretti style.

The Post, 2017

The Post é um thriller político focado na decisão da proprietária do The Washington Post, que se vê indecisa entre manter o status social ou publicar documentos oficiais que revelavam que o Governo norte-americano tinha mentido durante anos. Conta a história dos Pentagon Papers da perspectiva de Katherine Graham (Meryl Streep), proprietária do jornal que, pressionada por Ben Bradlee (Tom Hanks), o obstinado editor da publicação, acaba por ir contra os amigos que tem na Administração e decidir desvendar a verdade por trás envolvimento norte-americano na Guerra do Vietname. O braço-de-ferro entre a Casa Branca e a imprensa desembocou numa histórica decisão do Supremo Tribunal, que considerou inconstitucionais os mandados emitidos para impedir a publicação dos documentos, autorizando os jornais a prosseguirem a sua divulgação. Aprovada por seis juízes, com os votos contra de outros três, ainda hoje a sentença tem sido interpretada como uma meia vitória que não protege decisivamente os “media” contra a invocação do argumento da segurança nacional.

Capote, 2005

Em Novembro de 1959, Truman Capote (Philip Seymour Hoffman, numa prestação absolutamente incrível), o autor de Breakfast at Tiffany’s, lê um artigo numa das últimas páginas do New York Times sobre o homicídio de quatro membros de uma família do Kansas. A história prende-lhe atenção, e viaja para o Kansas para acompanhar a investigação. À medida que vai conhecendo os intervenientes na história, descobre que aquilo que inicialmente tinha sido pensado como um artigo de revista cresceu e deu lugar a um – um livro que poderia tornar-se um dos mais importantes da literatura moderna, o maior exemplar da literatura jornalística.

Snowden, 2016

Não é sobre jornalistas mas é sobre o seu papel. O filme de Oliver Stone, protagonizado por Joseph Gordon-Levitt, acompanha a jornada de Snowden até à revelação dos documentos secretos da NSA. E é aí que entram os jornalistas, na sua tomada de decisão ousada em publicar os documentos que Snowden lhes havia facultado. Um complemento aos factos documentados em Citizenfour, um trabalho de Laura Poitras.

As Mil e Uma Noites, 2015

Realizado pelo cineasta português Miguel Gomes e dividido em três partes, o filme tem como base a colecção de histórias homónimas. Não tratam jornalismo mas tratam realidade. Destacam-se por incluírem relatos reportados por um grupo de jornalistas que ajudou na concepção do argumento. Maria José Oliveira, Rita Ferreira e João Dias recolheram histórias na sociedade portuguesa contemporânea que ajudaram a construir o guião e a compor um dos melhores filmes portugueses dos últimos tempos.

Sbatti il Mostro in Prima Pagina1972

Um tabloide populista de direita tenta interferir na investigação policial de um assassinato brutal de uma jovem, para tentar ajudar os candidatos fascistas e de direita que apoia nas próximas eleições. Uma verdadeira lição sobre jornalismo e o tão-actual-tema da manipulação da imprensa.

Absence of Malice, 1981

Este filme de Sydney Pollack é o reverso da medalha de All the President’s Men. Uma jornalista (Sally Field) de um grande diário da Florida usa informação passada confidencialmente pelo procurador federal para tentar associar um empresário de bebidas (Paul Newman), filho de um mafioso local já falecido, ao desaparecimento de um líder sindical. O empresário, que não tem nada a ver com o caso, vê-se alvo de notícias que o põem em causa e que a jornalista escreveu sem ter feito as devidas verificações, deixando-se ainda manipular pelas autoridades judiciais. Kurt Ludtke, o autor do argumento, é um antigo jornalista e repórter.

Shattered Glass, 2003

A história verídica de Stephen Glass (Hayden Christensen), um jovem jornalista que durante os três anos da década de 1990 que trabalhou na revista liberal de Washington The New Republic, inventou – parcial ou totalmente – 21 dos quase 50 artigos que ali escreveu, alguns dos quais chegaram a ter honras de chamada de capa. Glass foi desmascarado por um novo director da publicação, Charles Lane (Peter Sarsgaard), que o levou a confessar a sua desonestidade e falta de integridade jornalística, não sem aquele antes ter negado tudo aquilo de que o acusavam.