Facebook está em crise e Mark Zuckerberg em silêncio

O movimento #DeleteFacebook continua a ganhar novos adeptos, como o co-fundador do WhatsApp, e a empresa de Mark Zuckerberg a desvalorizar em bolsa.

Ainda nem acabámos de ler a edição e Zuckerberg já levou mais um enxerto (foto: Shifter)

A capa e o artigo principal da Wired deste mês não poderia fazer mais sentido do que agora. A porrada que o Facebook apanhou nos últimos dois anos não se equipara aos danos que a rede social está a sofrer esta semana. O caso dos Cambridge Analytica Files revelou como a empresa de Mark Zuckerberg ganhou dinheiro com um esquema que envolveu o roubo de 50 milhões de dados dos seus utilizadores para influenciar a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a decisão a favor Brexit, no Reino Unido.

O silêncio ensurdecedor de Mark Zuckerberg desde domingo, quando o Guardian, o Observer e o New York Times publicaram pela primeira vez sobre os Cambridge Analytica Files, só enaltece a gravidade da situação. O líder da maior rede social do mundo, que noutras situações é uma voz presente, tem-se mantido em silêncio. Enquanto isso, o movimento #DeleteFacebook ganha novos adeptos e a empresa que fundou em 2004 afunda brutalmente em bolsa.

Desta vez, o Facebook pode estar mesmo lixado

Ao longo de mais de uma década de existência do Facebook, a estabilidade da rede social foi posta em causa em diversas circunstâncias. Foi o lançamento de produtos controversos como o News Feed ou os perfis em formato Timeline, foi o surgimento de concorrentes como o Google+, foi o aparente desinteresse das camadas mais jovens pelo Facebook em detrimento de plataformas como o Twitter e o Snapchat… Mas, desta vez, o Facebook pode estar mesmo lixado.

Esta frase é também o título de um artigo publicado pelo Gizmodo, que recorda a resolução de ano novo de Mark Zuckerberg, apresentada no início deste 2018, de “resolver o Facebook”, depois de anos de demasiados trambolhões, como resume o supra referido artigo da Wired. Até aqui, o Facebook conseguiu salvar-se de todos os problemas passados, resolvendo-os através de simples refinamentos ao News Feed, de novos produtos ou de pedidos de desculpa

Em bolsa, o Facebook tem vindo a desvalorizar desde sexta-feira, quando anunciou a suspensão da Cambridge Analytica, dois dias antes das notícias sobre os Cambridge Analytica Files. Na terça-feira, o Facebook desvalorizou no mercado bolsista 60 mil milhões de dólares.

#DeleteFacebook?

Depois de divulgados os Cambridge Analytica Files, #DeleteFacebook tornou-se tendência no Twitter (e na Google) com vários utilizadores a mostrarem a sua intenção de abandonar a rede social e alguns órgãos de comunicação social a explicarem como o processo não é assim tão imediato. Este artigo do Mashable, por exemplo, explica como descarregar toda a nossa informação do Facebook, verificar as apps que temos associadas à nossa conta, e guardar os contactos e datas de aniversário antes de apagar permanemente a conta.

Quem também disse que ia apagar o seu Facebook foi Brian Acton, um dos fundadores do WhatsApp, que em 2014 vendeu a sua empresa por 19 mil milhões de dólares ao Facebook. Desde este negócio, Brian tem-se dedicado a financiar plataformas de chat que privilegiam a segurança e privacidade dos seus utilizadores.

Onde anda Zuckerberg?

“Alguém tem de tomar responsabilidade por isto. É altura de Mark Zuckerberg deixar de se esconder atrás da sua página de Facebook, disse Theresa May, Primeira-Ministra britânica, num comunicado emitido logo na segunda-feira, após a revelação do escândalo. O director executivo do Facebook já foi chamado a prestar contas no Congresso norte-americano e também no Parlamento Europeu. António Tajani, presidente deste última instituição, escreveu no Twitter que o Facebook precisa de “clarificar perante os representantes de 500 milhões de europeus que os seus dados pessoais não estão a ser usados para manipular a democracia”.

É notório que o Facebook não lidou bem com toda a questão dos Cambridge Analytica Files, a começar por – segundo jornalistas do próprio jornal – ter ameaçado processar o Guardian quando tomou conhecimento da sua intenção de publicar sobre o caso e sobre as revelações de Christopher Wylie. Esta aparente influência do Facebook na comunicação social terá afectado também o New York Times, cujo artigo original terá sido editado para omitir uma parte da história.

O silêncio de Mark Zuckerberg – e também de Sheryl Sandberg, directora de operações  – não deverá durar muito mais tempo. À publicação Daily Beast, a equipa de relações públicas do Facebook referiu que “o Mark, a Sherly e as suas equipas estão a trabalhar em contra-relógio para obterem todos os factos e tomarem as acções apropriadas, porque entendem a gravidade desta situação”. A mesma fonte avançou que “toda a empresa está indignada porque nos enganaram. Estamos empenhados em aplicar vigorosamente as nossas políticas para proteger a informação das pessoas e tomaremos as medidas necessárias para que isso aconteça”.

O site Axios avançou, já esta quarta-feira, que Zuckerberg deverá falar publicamente dentro das próximas 24 horas, referindo que o executivo esteve inicialmente mais focado em resolver os problemas do que naquilo que iria dizer sobre eles. No passado, o dono do Facebook abordou as várias controvérsias pelas quais a sua empresa passou através de longos ensaios na sua página de Facebook, pedindo desculpa e prometendo sempre fazer melhor. Neste silêncio, a revista Variety especula sobre o que é que Zuckerberg dirá desta vez, tendo em conta as declarações que fez perante os investidores relacionadas com a influência russa nas eleições norte-americanas.

O que poderá dizer Zuckerberg?

Logo a seguir ao episódio eleitoral, no final de 2016, Mark Zuckerberg destacou o papel que o Facebook teve no mesmo enquanto espaço de discussão. Meses depois, revelou que iria aperfeiçoar a inteligência artificial para combater a desinformação no Facebook e tornar mais fácil para os utilizadores reportarem notícias falsas em circulação.

Passaram mais alguns meses, afinal, a inteligência artificial ainda não era suficiente e, assim, anunciou a contratação de mais pessoas para rever conteúdo e de mais pessoas para rever a publicidade na rede social. Já no início deste ano, e em novo encontro com investidores, o CEO do Facebook apresentou uma profunda alteração ao News Feed para privilegiar aquilo a que chamou “conexões com significado” entre amigos.

Em 2004, quando o Zuckerberg de 19 anos lançou o Facebook, na altura, uma plataforma para ligar todos os estudantes da sua universidade, Harvard, terá dito a um amigo: “Se alguma vez precisares de informação sobre alguém em Harvard, basta pedires. Tenho mais de 4 mil e-mails, fotos, endereços”. “Como conseguiste isso tudo?”, terá perguntado o amigo. As pessoas deram-me esses dados. Não sei porquê. Confiam em mim. Burros”. Mais de uma década depois, o número de pessoas que confiaram os seus dados a Mark Zuckerberg são bem mais. Seremos todos burros?