Porque devias deixar de ler notícias nas redes sociais

Com tanto conteúdo bom a circular na internet, é a ele que devemos dar atenção. É uma pena que se desperdice a mais valia da internet enquanto veículo de comunicação democratizado e que se caia no populismo e nas bolhas que as redes sociais propiciam.

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Foto de NeONBRAND via Unsplash

No início deste ano, o Facebook foi assunto em todos os órgãos de comunicação social uma vez mais, ao anunciar uma redefinição do News Feed que dará mais destaque a publicações de amigos em detrimento de conteúdo partilhado por páginas. Em resultado, a empresa – responsável por aquele que é hoje um dos maiores veículos de informação online – revelou que a diminuição de notícias no News Feed seria, em média, de 1%. Um dado que, mesmo assim, não apaziguou os responsáveis por órgãos de comunicação social que ao longo dos anos têm assistido a uma diminuição das suas publicações no Facebook.

Subjacente a este anúncio, está, contudo, um problema maior: a dependência do jornalistas das plataformas sociais, que não são controladas por eles, e a dependência dos leitores desses canais, pois é através deles (e dos seus algoritmos) que consomem informação. Na verdade, um estudo da Pew Research, feito nos Estados Unidos em 2016, indica que 62% das pessoas obtém informação através das redes sociais, com 18% delas a fazê-lo de forma muito frequente. A maioria lê as notícias apenas numa plataforma – o Facebook.

Receber notícias pelas redes sociais é um caminho perigoso. Se, neste preciso momento, abrirmos o Twitter ou o Facebook e olharmos para as listas de tendências, verificamos que o que está a ser falado é sobretudo actualidade. Mas nem sempre os tópicos mais falados são os mais relevantes, e todos os dias assuntos pertinentes e personalidades interessantes são deixados de fora das redes sociais, passando ao lado de muita gente.

Algoritmos não são bons editores

É que, ao contrário de um jornal em papel ou de um noticiário televisivo, onde os assuntos são – bem ou mal, mas isso é outra história – seleccionados por editores experientes, que sabem o que é relevante e importante, no Facebook e Twitter são algoritmos que, com base nos nossos interesses e histórico de actividade no site, definem os artigos que nos aparecem no feed. Os algoritmos são capazes de compreender o que é popular ou o que interessa a determinado utilizador, mas não sabem o que é editorialmente mais relevante. Mais ainda: estamos dependentes do que os nossos amigos e do que as pessoas e entidades que seguimos nessas plataformas partilham. É fácil, assim, estabelecerem-se bolhas, seja elas ideológicas, sejam elas temáticas. Por mais que exigentes que sejamos com as contas que seguimos no Facebook ou Twitter, acabamos sempre por perder conteúdo relevante.

Outra questão tem que ver com a atenção que as pessoas despendem online, não só quantitativa como qualitativamente. As estatísticas dizem que a nossa atenção é de cerca de 8 segundos. É muito pouco tempo: não dá para pensar e reflectir. Surgiu uma espécie de cultura de fast information: lemos o título e os primeiros parágrafos (às vezes, nem tanto) e passamos para o próximo; se calhar até tweetamos o link. Este fenómeno também invadiu redações e deu origem ao “jornalismo do headline”, em que importa para o leitor mais o título que o conteúdo da peça, por este validar uma certa teoria ou opinião sua. Os jornais sabem disso e aproveitam-se dessa tendência, apostando em títulos que convidam ao clique e à partilha.

Fast food, fast information

Temos pouco tempo de atenção, mas passamos muito tempo online. Um artigo do Quartz estima que se as pessoas despendem o mesmo tempo a ler livros que aqui que despendem nas redes sociais, poderiam ler facilmente 200 livros por ano. O problema está no contexto em que nos ligamos. E neste campo as redes sociais são um péssimo hábito. Faz-se scroll no Facebook em muitos contextos, como enquanto se espera por um autocarro ou quando se faz uma pausa de cigarro – ou seja, não necessariamente quando se está na disposição de ler um grande artigo, discutir um tema importante ou ver um vídeo espectacular. O Facebook até nos pode mostrar artigos interessantes e pertinentes quando o abrimos no nosso computador ou telemóvel, mas ao ignorarmos esses conteúdos por não estarmos na disposição para os mesmos estamos a treinar o algoritmo para nos mostrar menos desse tipo no futuro.

A interface do Feedly

Entregarmos a distribuição e o consumo de informação às redes sociais é mau. Não só é deixarmos que os algoritmos e as pessoas decidam o que os outros vão ler, como é deixarmos que os algoritmos e as pessoas definam o que vamos ler. Há alternativas como o e-mail e as newsletters ou, melhor ainda, os feeds RSS. Os feeds RSS (o nosso está aqui, btw) são diferentes dos feeds algoritmos porque permitem-nos definir os sites e os temas que queremos acompanhar. Podes usar o Feedly, por exemplo, para isto.

Bem-vindo de volta, RSS

Torna-se necessário deixarmos de usar o Facebook, o Twitter e sites similares para acompanhar a actualidade e tomarmos nós o controlo do que lemos. Se queremos acompanhar determinado órgão de comunicação social, a melhor solução não é seguimo-lo no Facebook e Twitter como tantas vezes acabamos por fazer, mas antes subscrever a sua newsletter ou adicionar o seu feed ao nosso leitor de RSS (além do Feedly, se tiveres Mac ou iPhone/iPad, o Reeder é uma boa alternativa).

Só dessa forma conseguimos que tendências como o clickbait desapareçam, pois são também resultado da pouca atenção que damos à informação. São estratagemas que os órgãos de comunicação social encontraram para nos fazer clicar em peças que de outra forma, no contexto de uma rede social, não clicaríamos. A informação é demasiado valiosas e importante para a sociedade para a tratarmos mal. Com tanto conteúdo bom a circular na internet, é a ele que devemos dar atenção. É uma pena que se desperdice a mais valia da internet enquanto veículo de comunicação democratizado e que se caia no populismo e nas bolhas que as redes sociais propiciam.