50 milhões de perfis de Facebook usados ilegalmente na campanha de Trump e no Brexit

Foi há dois dias que o Facebook anunciou a suspensão para averiguação da empresa Strategic Communication Laboratories (SCL) e da sua subsidiária de análise de dados, Cambridge Analytica.

Cambridge Analytica
Alexander Nix da Cambridge Analytica

Comecemos esta história pelo nosso primeiro contacto com a Cambridge Analytica, porque só isso permite explicar a dimensão da surpresa e o real impacto desta notícia.

Foi no palco central do Web Summit que pela primeira vez ouvimos falar desta empresa britânica pela voz do seu representante máximo, Alexander Nix. Para enquadrarmos a notícia do dia, basta que recordemos o que escrevemos na altura:

“O caso mais paradigmático desta realidade é mesmo o de Alexander Nix, responsável da Cambridge Analytica, uma empresa especializada em recolha, análise e tratamento de dados para optimização de comunicação, peça essencial na campanha de Donald Trump e que, teve no Web Summit, estranhos momentos de questionamento moral a que respondeu quase sempre com um ar naif e uma resposta estranhamente simples: “Nós somos uma empresa de pesquisa e tecnologia.”  

A ideia de que a competência de uma empresa pode ir em caminhos antagónicos ao que o mercado vê como eticamente aceitável foi, de resto, um ponto central de debate. A eleição de Donald Trump estabeleceu um novo ponto de comparação global e sobretudo, tornou evidente a forma como o dinheiro se consegue sobrepor a tudo o resto. 

From Mad Men to Math Men

Cambridge Analytica's Alexander Nix & Freuds' Matthew Freud:How online advertising has moved from the creative sphere to specialists in programmatic advertising and how this data science methodology helped Donald Trump win the U.S. election.

Publicado por Web Summit em Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017

Facebook suspende Cambridge Analytica

Se nesse momento, e pela conversa de Nix, até parecia que a sua empresa contava com a conivência ou eventual parceria das principais tecnológicas como o Facebook, a decisão recente do gigante azul de suspender esta empresa da sua rede social mostra que o caso não é bem assim.

Foi há dois dias que o Facebook anunciou a suspensão para averiguação da londrina Strategic Communication Laboratories (SCL) e da sua subsidiária de análise de dados, Cambridge Analytica. Segundo a nota avançada pela rede social, as duas empresas são suspeitas de terem comprado grandes bases de dados a terceiros, que lhes permitiram traçar perfis de previsão e estratégias de manipulação do eleitorado antes da eleição de Donald Trump e do referendo pelo Brexit.

Em causa está uma estratégia desencadeada por um professor de psicologia da Universidade de Cambridge, Aleksandr Kogan, que terá “mentido e violado as políticas da plataforma, passando dados recolhidos pela sua aplicação, que utilizava o Facebook Login, à SCL/Cambridge Analytica que os usou para trabalho político, governamental e militar em todo o mundo”.

Dados pessoais recolhidos através de uma aplicação de Facebook

Kogan tinha criado uma aplicação chamada “thisisyourdigitallife”, que usava as capacidades do Facebook para fazer login, recolhendo assim os dados dos utilizadores. Foi essa base de dados que o professor acabou por vender não só à SCL mas também à empresa Eunoia.

O caso remonta a 2015 e a aplicação usada para recolher esses dados foi apagada desde que foram detectadas as violações. Contudo, a utilização continuada da informação leva agora o Facebook, passados três anos, a ter que tomar medidas mais drásticas, suspendendo as empresas beneficiárias.

Uma situação desta monta acarreta essencialmente duas lições. A primeira tem a ver com a capacidade de influência que uma empresa pode ganhar ao analisar bases de dados como a que está em questão, com perto de 270 mil contactos e toda a sua informação. A segunda está relacionada com a falência de segurança em que incorremos sempre que nos registamos numa aplicação ou site do qual desconhecemos o criador. Nos termos e condições do inquérito online montado por Kogan, a autorização da venda de dados pode muito bem ter passado despercebida.

A táctica utilizada por Aleksander Kogan e a Cambridge Analytica, e desmantelada pelo Facebook, pode muito bem ser usada numa escala menor com aplicações aparentemente inofensivas a servir de isco para a subtracção de dados sensíveis e violações da privacidade.

270 mil pessoas que podem ser 50 milhões

Este caso concreto – e a área de influência exercida pela Cambridge Analytica nas eleições de Donald Trump –, não parece cingir-se ao agora reportado em comunicado pelo Facebook. Segundo uma peça do jornal The Intercept, a empresa conta com múltiplas ligações na sua fundação a Stephen K. Bannon. Segundo a investigação levada a cabo pelo jornal editado por Glenn Greenwald, a amostra total à disposição da empresa pode ascender aos 50 milhões – sem que se saiba ao certo quantas destas pessoas conheciam realmente os termos e condições de inclusão na base de dados. Uma das pistas é, de resto, uma conferência dada por Aleksandr Kogan em 2014, na Singapura, onde para mostrar o seu mérito acabou por confessar a sua acção ao dizer:

Foco-me especificamente em dados do Facebook e em dois conjuntos de dados com os quais o meu laboratório trabalha actualmente: (a) uma amostra de mais de 50 milhões de indivíduos para quem temos a capacidade de prever practicamente qualquer característica e (b) um macro-conjunto de dados de cada amizade feita globalmente no Facebook entre 2006-2012 por todos os utilizadores do Facebook, agregados por país.

A empresa responsável por todo este esquema, segundo reporta a mesma notícia, responde ao multimilionário Robert Mercer, que terá investido 15 milhões na fundação desta sub-divisão na empresa londrina. Para além desta parcela, Mercer fez outros investimentos avultados na campanha do agora Presidente dos Estados Unidos, como por exemplo na fundação do órgão de comunicação social de ultra-direita, Breitbart News. Também por altura do Brexit, o investidor norte-americano voltou à baila por oferecer a Nigel Farage os seus serviços de análise de dados.

Christopher Wylie, o whitsleblower arrependido

O caso está nas últimas semanas a dominar o panorama mediático, sendo já conhecido como Cambridge Analytica FilesChristopher Wylie, um dos envolvidos no escândalo, concedeu inclusive uma reveladora entrevista ao The Guardian, na qual grande parte do esquema acaba desvendado. Não deixa de ser curioso e de sublinhar que toda esta estratégia de conquista de poder pelos republicanos conservadores norte-americanos teve como um dos principais peões, Wylie, homossexual, vegan e canadiano.

As recentes revelações reportadas pela imprensa internacional mostram ainda que o entendimento – ou a explicação – do Facebook sobre o caso ainda não é completo. No comunicado da tecnológica liderada por Mark Zuckerberg, Christopher Wylie aparece referido como empregado de uma empresa chamada Eunoia, ainda que agora venha a público revelar a sua ligação directas à firma de Alexander Nix.