Facebook esteve (muito) mal no caso dos Cambridge Analytica Files

Os Cambridge Analytica Files dizem respeito a todos nós, utilizadores do Facebook.

Sarah Marshall/Flickr

Os Cambridge Analytica Files e a recente onda de revelações que assolou a internet durante os últimos três dias – embora possa ainda não ter chegado às massas menos atentas – poderá ditar uma enorme mudança na internet como a conhecemos.

Se é plausível dizermos que nada do que foi agora descrito e confirmado pelo whitsleblower Christopher Wylie é propriamente novidade, é igualmente plausível dizer que não se esperava que se pudesse vir a confirmar desta forma e a revelar ter esta escala – nem esta resposta por parte da gigante rede social, Facebook. No meio de tanta plausibilidade, algumas reações já se deram e outras se esperam no futuro. A perda de confiança no Facebook, essa, parece ser o único resultado previsível no futuro próximo.

Já se sabia há muito tempo

A primeira das questões que surgiram, dirigidas aos altos dirigentes do Facebook, debruçavam-se sobretudo sobre os timings da suspensão e da comunicação pública do sucedido. Entre quem levava esta questão, partilhavam-se links como uma da reportagem em Dezembro do ano passado feita pela MotherJones, que já indiciava parte do que se veio a confirmar. Para além disso, a própria nota do Facebook dava conta de que a empresa tinha conhecimento da situação desde 2014, reforçando a dúvida sobre porque só o denunciavam publicamente hoje.

A essa pergunta, testemunhos de jornalistas do The Observer e do The Guardian podem dar uma resposta. Segundo estes, a tecnológica norte-americana terá ameaçado os jornais com processos em tribunal caso publicassem as peças que tinham preparado. Subentende-se, assim, que o timing da revelação do Facebook deverá ter sobretudo a ver com o facto de saberem que o assunto estava prestes a tornar-se do conhecimento público.

Podemos falar do que é importante?

Depois dos factos emergirem e de se tornar indelével a associação do Facebook ao gigante escândalo, foi a vez dos principais nomes da empresa presentes no Twitter soltarem as primeiras reações. Além de Andrew “Boz” Bosworth, responsável pela divisão de AR/VR e também pelos anúncios do Facebook, também Alex Stamos, responsável de segurança, foi das vozes mais imediatas – a sua preocupação? Clarificar que não se tratava de um data breach.

E, embora esse detalhe possa parecer importante na óptica de um executivo do Facebook, rapidamente a comunidade se prestou a responder-lhe que isso lhes é indiferente e Alex acabou por apagar os tweets. Isto porque, quer os dados sejam obtidos através de uma invasão digital ou através de aplicações que não cumprem os termos e condições, o dano para o utilizador é o mesmo e isso não deve, portanto, diminuir a responsabilidade da empresa.

Snowden diz o que é certo não o que é seguro

Sempre que se fala de dados e privacidade, há uma referência incontornável. Edward Snowden passou o domingo ocupado com as eleições russas  – sobre as quais também fez um tweet que se pode considerar histórico –, mas nem por isso desprezou este assunto capital. Para Snowden, mais do que uma vítima do esquema da Cambridge Analytica, o Facebook é um dos principais cúmplices.

A essa primeira reacção, o ex-funcionário da NSA, que em 2013 denunciou um dos maiores esquemas de vigilância massiva, ainda acrescentou um pensamento que não referindo directamente o acontecimento ajuda a reflectir sobre o momento e a partilha das nossas informações com as plataformas digitais: “As empresas que ganham dinheiro a recolher e vender detalhes de vidas privadas eram, em tempos, descritas como ‘empresas de vigilância’. O seu rebranding como ‘social media’ é o engano mais bem sucedido desde que o Departamento de Guerra [norte-americano] passou a Departamento de Defesa.” — recorde-se que, além do Facebook, também Twitter e Google seguem esse modelo de negócio.

Suspender o whistleblower

Se a gestão do assunto, como vimos, não foi a mais correcta ou pragmática, também o tratamento dado a quem denunciou o caso não é totalmente compreensível. Depois de ter feito capa um pouco por todo o mundo com as suas revelações, Christopher Wylie viu o seu perfil de Facebook suspenso, bem como o de Instagram. Por um lado, pode considerar-se esta uma medida preventiva, por outro, conforme o próprio Wylie refere, torna-se difícil perceber o porquê de o suspenderem agora que assume tudo o que fez se, segundo o comunicado oficial, conheciam as suas práticas desde 2014?

As consequências políticas

Para além dos efeitos imediatos e na própria rede social – como uma mais que provável série de comunicados a anunciar mudanças na política de gestão de dados –, este assunto estende a sua influência a campos com maior impacto na vida das pessoas. O caso da eleição de Donald Trump é o que está a gerar uma maior onda de reacções com representantes dos Democratas a chamar Alexander Nix, CEO da Cambridge Analytica, e Mark Zuckerberg para prestar declarações no congresso sobre esta matéria. Não se sabe ao certo que passos serão dados depois destas primeiras audições requeridas, certo é que o escrutínio sobre as redes sociais deverá agora atingir níveis nunca antes vistos. 

Numa última nota e como prova cabal do comportamento reprovável do Facebook, as acções da empresa estão desde a revelação do escândalo com um comportamento negativo em bolsa, tendo registado perdas na ordem dos 6%.