Quando dizemos que os avós não deviam ter Facebook, é disto que falamos

Ou como evitar que a tua informação pessoal no Facebook seja roubada.

Facebook Privacidade

O Facebook custa dinheiro. São mais de dois mil milhões de utilizadores que todos os meses usam o site para se conectarem aos amigos, lerem notícias, verem vídeos, etc. Tudo isso tem custos ao nível de servidores, energia, manutenção técnica… por aí fora. Assim, a empresa precisa de dinheiro para alimentar o Facebook e, para que o serviço possa ser gratuito (e, por isso, atractivo) baseia-se num modelo de negócio sustentado em publicidade. Na prática, a empresa tenta traçar um perfil o mais completo possível cada um dos seus utilizadores, com base nos dados que estes lhe dão e em informação que infere da sua actividade, e disponibiliza esse perfil a anunciantes, permitindo-lhes comprar publicidade super segmentada na rede social.

Este modelo de negócio não é exclusivo do Facebook – também o Twitter e os múltiplos serviços da Google são serviços gratuitos e baseados em publicidade. É dessa forma que todos estes players pagam as suas contas e fazem dinheiro extra que torna os investimentos atractivos. Não nos podemos esquecer de que o Facebook, o Twitter e a Google são empresas norte-americanas com fins lucrativos.

Ao utilizar os produtos de qualquer uma destas firmas, é importante termos consciência destas questões antes de, ingenuamente, clicarmos na opção de aceitar os termos e condições. É que nem o Facebook, o Twitter ou a Google são serviços públicos – apenas meros mediadores que facilitam determinados processos online, num modelo de internet ainda altamente centralizada. Podemos em alternativa falar com os nossos amigos através de uma lista de contactos ou acompanhar as notícias de sites que conhecemos por um feed RSS, sem que os nossos dados pessoais estejam a ser monitorizados e vendidos a anunciantes.

Ao longo dos anos, o Facebook tem tornado cada vez mais difícil sair da rede social e uma das estratégias passa pelo simples botão “Facebook Login”, que facilita o registo em dezenas de milhares de aplicações, dando acesso a terceiros a dados pessoais que partilhámos com o Facebook. Algumas dessas apps são úteis, como é o caso do Spotify ou do Airbnb, onde decidimos registar-nos com a conta do Facebook para não ter de decorar mais uma palavra-passe; outras são meramente divertidas (ou parvas) – como jogos para encontrar o nosso amor, brincadeiras para dizer que devemos 100 dólares a um amigo ou testes para descobrir que tipo de queijo somos.

Ao colocar o botão de “Facebook Login” à nossa disposição e permitir que qualquer programador desenvolva apps com base no gráfico social do Facebook, a empresa de Mark Zuckerberg conseguiu criar um mini-ecossistema de aplicações sociais, do qual detém muito pouco controlo. Foi através de uma dessas apps que a Cambridge Analytica conseguiu aceder à informação pessoal de 50 milhões de utilizadores, usando-a em campanhas pró-Trump e pró-Brexit.

Facebook esteve (muito) mal no caso dos Cambridge Analytica Files

Mais vale prevenir, mas também se pode remediar

Nas definições da nossa conta, encontramos uma lista de todas as apps que lhe estão associadas. Podemos, para cada uma, ver a informação a que demos acesso e remover a permissão para determinados dados. Podemos ainda eliminar aquela app por completo e assim remover toda a nossa actividade que lhe está agregada.

Nas definições da tua conta, tens acesso a uma lista de todas as apps às quais associaste a tua conta de Facebook.
Para cada app, podes escolher os dados a que não queres que ela tenha acesso. Cá em baixo, encontras a opção “Remove App”, que te permite apagar por inteiro a aplicação.

Na mesma página nas definições, o Facebook também dá a opção de editares os dados pessoais a que não queres que aplicações de terceiros acedam e de desactivar o “Facebook Platform”, isto é, impedir que a tua conta seja associada a apps. Se desactivares esta opção, podes continuar a usar o Facebook mas sem qualquer integração com um serviço externo, o que quer dizer que deixas, não só de ter acesso a testes para encontrares o teu amor, mas também à possibilidade de entrar no Spotify sem e-mail e password.

O Facebook dá-te mais algumas opções para as apps que utilizas.
Aqui podes seleccionar e desseleccionar os dados a que não queres que as aplicações do Facebook acedam.
Podes também desactivar a plataforma do Facebook por inteiro, ficando sem acesso a todas as apps e integrações.

O Facebook até dá opção de escolha aos seus utilizadores; o problema é o desconhecimento da existência dessas alternativas, nomeadamente por camadas mais tecnologicamente excluídas, como faixas etárias superiores. E as “Cambridge Analytica desta vida” aproveitam-se sobretudo desses grupos. Quando dizemos que os avós não deviam ter Facebook, é disto que falamos. Para garantir a rentabilidade dos seus negócios e o sucesso dos seus modelos, as empresas criam experiências para o utilizador altamente pensadas, escondendo com as chamadas dark patterns as opções comercialmente menos atractivas.

O Facebook pode fazer mais neste campo da educação. A empresa deverá assumir as suas responsabilidades sociais e, acima de tudo, proteger os seus utilizadores olhando para o caso da Cambridge Analytica como uma oportunidade para restringir as permissões a que as aplicações de terceiros têm acesso. O Facebook pode ainda aproveitar para lançar a funcionalidade de Anonymous Login, apresentada em 2014, permitindo aos utilizadores registarem-se sem facultarem os seus dados, que nunca chegou a ser divulgada publicamente.