A banda portuguesa que fugiu da casa dos pais para partir em digressão pela Europa

Antes de se aventurarem sozinhos numa digressão por Espanha e França que eles próprios montaram, os Ditch Days isolaram-se no meio do nada e do frio para criarem novas canções. Querem lançá-las avulso e não em formato de álbum, "porque millennials."

Já se conheciam de outras paragens – sejam elas bandas anteriores ou turmas de faculdade – e decidiram, a certo ponto, juntar-se para fazer música juntos. Assim nasceram os Ditch Days. Em 2015, eram só o José Crespo e o Guilherme Correia. Um ano depois juntou-se o Luís Medeiros e, já com álbum a ser preparado nos estúdios da pontiaq, o Rafael Traquino. Liquid Springs foi editado em Setembro de 2016 – é uma espécie de viagem por um imaginário algo americano de quatro jovens lisboetas ainda com poucas preocupações.

Depois de três singles – “Melbourne”, “Blue Chords” e “Zowee” –, que rodaram vezes sem conta na Antena 3, de três videoclipes e de mais de 40 concertos pelo país, os Ditch Days decidiram voltar a estúdio “fazer músicas novas porque as antigas esgotaram, passaram o prazo de validade”, explicou Guilherme, guitarrista, num dos dias de ensaios. “Não é uma questão subjectiva só nossa. É como funciona a indústria”, completou Rafael, baterista. “O factor novidade é o mais importante”, acrescentou Guilherme. “Fazer músicas novas permite-nos dar novos concertos. Ainda por cima Portugal é bué pequeno, já fomos a todos os sítios, para voltar precisamos de músicas novas.”

Um retiro criativo

Em Fevereiro mudaram-se para Alvorninha, uma freguesia nas Caldas da Rainha onde improvisaram um estúdio na casa de um dos membros da banda. “A nossa ideia é acordar muito cedo para render o dia, mas o que acaba por acontecer é acordar tarde e deitar muito tarde”, disse Luís, vocalista e baixista. “E render a noite”, completou Guilherme. “Acho que na nossa ingenuidade achávamos que íamos chegar aqui e estar a tocar 24 horas por dia porque a comida apareceria feita, a roupa lava-se sozinha, não é preciso aspirar nada…”

Mais o frio que lhes trocou as voltas na primeira semana desta espécie de retiro criativo. “Perdemos mais tempo a procurar mantas no baú, a ir buscar lenha e a acender a lareira do que a tocar, a organizar a digressão que vamos fazer ou a fazer t-shirts de merchandising para levar”, referiu Guilherme. “Os únicos momentos em que fizemos músicas, em que sentimos conforto e o conforto é que trouxe, de certa forma, a criatividade, foi quando viemos cá para fora e nos sentamos em cadeiras a apanhar um bocadinho de sol”, disse Luís. “Era das poucas alturas do dia em que estava minimamente calor.”

Alvorninha é daqueles sítios que fica no meio do nada. A casa que foi dos Ditch Days durante todo o mês de Fevereiro – antes de se aventurarem sozinhos, num carro, em digressão por Espanha e França – era rodeada por um pinhal, algumas quintas e uma barragem. Uma paisagem sem as distracções de Lisboa e onde podem fazer barulho à vontade – leia-se tocar até altas horas. E que também é boa para devaneios. “A primeira música feita aqui aconteceu por estarmos ali sentados e o Rafa [Rafael Traquino] mandar uma linha vocal aleatória”, contou Luís. “Olhei para a montanha e disse: ‘everything is a lie’”, interrompeu Rafael. “E a partir daí foi logo, eh espera lá, e se fizéssemos…”, completou Luís.

O relógio está sempre a contar

Essa canção parece ser consensualmente a preferida da banda, dentro da novas músicas que estiveram a preparar. Não estou a ver mais nenhuma banda que pudesse tocar aquilo, assim que me lembre. É uma música bastante original nesse aspecto. Não quero dizer original de ser incrível, mas não consigo mesmo colocá-la em mais nenhuma banda, apesar de, claro, existirem influências de algumas cenas”, considerou Luís. À data desta entrevista, realizada na segunda semana dos Ditch Days no retiro, tinham 3 canções fechadas e 3 demos.

O facto de terem um calendário rigoroso, com o qual se comprometeram quando começaram a definir a digressão, não dá aos Ditch Days tanto espaço para devaneios como se calhar gostariam. “Comprometemo-nos a vir para casa e em três/quatro semanas fazer tudo do zero”, disse Luís, recordando que para Liquid Springs tiveram mais de um ano. “Não temos mais tempo porque, se esperamos mais, morremos. Há sempre outra coisa a surgir.” Rafa completou: “Por causa do digital, isso é cada vez muito mais acelerado. Fazer música está democratizado e, por isso, é que há cada vez mais bandas.”

A banda reconhece que o relógio é uma pressão que sentem, mas acha que nem por isso cederam nas músicas que têm. “Acho é que estamos a assentar muito muito rapidamente com as músicas que temos. Se calhar, levando ao limite, estaríamos aqui mais três meses e nenhuma daquelas que já estão fechadas estariam no lote das que iam avançar. Para mim, esse é o principal problema: precisaríamos de mais tempo para fazer mais”, referiu Luís.

Músicos empreendedores

Os Ditch Days decidiram fazer tudo sozinhos: da criação à produção das novas músicas à marcação de uma pequena digressão europeia. É uma espécie de emancipação adolescente – ou inevitabilidade do mundo em que se inserem. Sentem que, assim, têm mais liberdade criativa e podem, como dizem, fazer com que as coisas fiquem exactamente como querem. “Não temos de responder a ninguém e podemos experimentar ideias malucas sem ter alguém a dizer que não vai funcionar”, referiu Guilherme. A tour é um bom exemplo disso – foi decidida em Janeiro para dois meses depois, algo que não é comum na indústria que criticam. Invulgar também é o facto de terem decidido viajar num carro. Vão ser “4500 km com a maior parte dos instrumentos todos connosco, se calhar um bocado desconfortáveis e com pouco espaço”, mas fazendo as contas ao aluguer de uma carrinha, como é habitual nas digressões deste tipo, ao combustível e outras despesas foi também uma opção económica. “Com grande parte das bandas com quem falei, a primeira ou primeiras digressões deram despesa, por isso…”, comentou Guilherme.

Dos mais de 150 e-mails que dizem ter enviado a espaços “onde faria sentido tocarmos – com um critério relativamente largo” – , obtiveram resposta de 5 a 10 deles.

“Não estamos no Glastonbury”, disse Luís, “nem conseguimos marcar 25 datas para um mês”, completou Guilherme, mas a banda está orgulhosa das datas que conseguiram, até porque “um dos nossos objectivos não é só ir tocar aos locais, temos também interesse na experiência de digressão fora de Portugal e fazer contactos em cidades que consideramos importantes, como Madrid ou Paris”, explicou Luís. Querem “sair da bolha”, comentou Rafael, e partilhar à descoberta de editoras e agentes, e a absorver as dinâmicas de outras cidades e bares. “Há uma cena interessante sobre a nossa banda. Independentemente de adorarem ou não a nossa música, as pessoas normalmente curtem bué de nós. Temos facilidade em criar amigos em qualquer sítio onde vamos e isso é muito mais importante do que parece”, acrescentou Luís.

A digressão por Espanha e França pode parecer um ponto alto para os Ditch Days, mas será mais a continuação do processo de aprendizagem e maturação que iniciaram em Alvorninha. Na sua fase de adolescência enquanto banda, os Ditch Days conceberam Liquid Springs no meio de uma crise de identidade e agora, mais seguros com o que querem fazer nas novas canções, sentiram necessidade de sair de casa dos pais – ou, pelo menos, de ir estudar para fora. “Para mim, este vai ser o ponto mais baixinho da banda do resto do ano. porque depois isto vai ser a raiz para uma digressão que, na minha cabeça, vai ser maior”, disse José. A opinião é partilhara pelos outros membros da banda. “Para a banda vai ser fixe é quando voltarmos e tivermos muitos concertos no Verão”, referiu Guilherme. Quando voltarmos, o João [Vaz Silva], nosso agente, vai poder a dizer coisas como termos tocado em vários países quando estiver a marcar cá em Portugal. É uma burocracia, mas é assim”, acrescentou Rafael.

Um ciclo fresco depois de uma crise de identidade

“Quem gosta de Ditch Days vai gostar das novas canções. Quem não gosta, não vai gostar”, comentou Guilherme. “Acho que a melhor musica que já fizemos como banda é destas novas”, acrescentou José, teclista. A génese dos Ditch Days são os instrumentos, tanto que a composição inicial da banda era uma guitarra e um teclado. A voz apareceu aquando da concepção de Liquid Springs. “Foi um processo difícil de nascimento da banda. Uma crise de identidade”, recordou José. “Agora não. Já sabemos a nossa identidade, aquilo de que gostamos e o que queremos explorar, tanto que fizemos um compromisso de tudo o que fizéssemos aqui fosse novo. Não podíamos trazer coisas de casa, a não ser pequenos apontamentos. Não uma canção inteira; no máximo, um rife.”

Não conseguem categorizar a sua música numa gaveta menos ampla que “indie rock”, mas dizem não ter chegado a Alvorninha determinados com uma sonoridade nova, mas antes entregues ao processo criativo. Numa sala decorada com pósteres que representam a sua geração e referências que os influenciam, de filmes de Kubrick a imagens de fenómenos recentes como Stranger Things, os Ditch Days constroem as novas músicas tão livremente como tocam, experimentando aqui e ali e aproveitando o facto de já se conhecerem melhor sonoramente. Todos contribuem com ideias a partir dos seus instrumentos e experimentam nos dos outros, “os momentos únicos em grupo”, como descreve Rafael. “Imagina: naquela música, naquele momento, eu – Rafael – faria assim, mas o Luís decidiu fazer daquela forma, de uma maneira muito única que eu nunca na vida faria. Não faz com que seja pior que a minha forma. Eu gosto e faz sentido, e é um momento dele.”

As canções criadas em Alvorninha vão ser estreadas ao vivo e só depois lançadas digitalmente. Os Ditch Days não querem lançar um álbum, mas não descartam a ideia de poderem vir a organizar as novas músicas numa colectânea. Mas o objectivo é disponibilizar as faixas avulso, pois acham que é difícil colocar as pessoas a ouvir 10 músicas de seguida, não só porque há muita oferta hoje em dia no mercado, como porque os hábitos de consumo de música mudaram. “A maior parte das vezes que o pessoal ouve música é, talvez, com uma determinada playlist em shuffle ou com a sua biblioteca de músicas em shuffle. É muito mais singles em shuffle do que álbuns completos de seguida”, considerou Guilherme. “Acho que já não consegues por uma pessoa sentada e dizer-lhe para ouvir 10 músicas”, disse José.

O novo trabalho dos Ditch Days estará disponível no Spotify. Durante este mês de Março, vão tocar em Madrid (dias 8 e 11), Toledo (dia 9), Zaragoza (dia 12), Paris (dia 15) e Sevilha (dia 20). Regressam, depois, a Lisboa, onde tocarão dia 24, apresentando ao público português o que andaram a fazer e recordando também, claro, Liquid Springs.

Fotos de Manuel Casanova/Shifter