Dia Mundial do Teatro: “Coca-Cola pode ser tanta coisa” e a importância de estimular a criatividade

A propósito da data, falámos com Sofia Ângelo, Directora Artística do Teatro de Carnide e responsável pelo grupo Oficinas de Interpretação, sobre a importância da criatividade.

Oficinas da Interpretação no Teatro de Carnide

A propósito do Dia Mundial do Teatro estivemos à conversa com Sofia Ângelo, Directora Artística do Teatro de Carnide. Sentadas na régie com vista para o palco, a Sofia recebeu-me para falar sobre o projecto Oficinas de Interpretação, as ferramentas que o teatro fornece, do conceito de actor/criador e da importância da criatividade no processo artístico. Abordámos ainda a ligação entre o teatro e a sociedade mas praticamente toda a conversa orbitou em torno de uma ideia principal: o teatro enquanto espaço de criação, mas simultaneamente de tolerância e diversidade.

As Oficinas de Interpretação são aulas práticas de teatro, duas vezes por semana, em Carnide, dirigidas pela Sofia Ângelo. O grupo é heterogéneo, formado por massa humana de diversa composição: em idade, altura, género, formas de estar e de pensar, na sua essência, diferentes, partilhando a coragem de se expor e desafiar.

Integro estas Oficinas desde Setembro e por isso há um discurso directo nesta conversa – uma partilha de professora para aluna, quase como se de uma aula se tratasse.

PROPÓSITO DO PROJECTO DAS OFICINAS DE INTERPRETAÇÃO

Estas oficinas servem essencialmente para trabalhar a comunicação, a autonomia, para vos consciencializar em relação aos recursos que têm do ponto de vista criativo e das várias linguagens diversas e divergentes que podem dar sobre uma só matéria.

Por outro lado, as Oficinas também oferecem uma coisa muito importante: o espaço da tolerância, da diversidade e da multiplicidade.

Os alunos são todos muito diferentes e estão na fase adulta, em que as pessoas se fecham cada vez mais e o seu grupo de amigos é mais restrito – o que é normal, faz parte do desenvolvimento. De repente, partilharem experiências criativas, exercícios de exposição, exercícios que promovem uma identidade: mostrarem-se/ revelarem-se, permitindo-se viver a sua intimidade com alguém que não é da família, que não é do seu grupo restrito de amigos…  partilham o palco e a partir dessa partilha surge uma coisa muito importante: a capacidade de observarem no outro, mais do que se identificarem, a diferença.

Ao encontrarem a diferença e a diversidade tornam-se pessoas mais democráticas, mais tolerantes, com uma leitura diversa sobre vários temas. Porque o teatro, de facto, não é só um escape emotivo, é também a capacidade de conseguir observar o mundo, de diversas maneiras.

A IMPORTÂNCIA DA CRIATIVIDADE

Eu agora estou aqui com uma lata de Coca-Cola e nós sabemos que nas Oficinas a partir desta lata, podemos inventar mil coisas. Eu posso brincar com os tons,  posso dizer “Côca-côlá”, “Sabor original”, “Lanigiró”: posso criar uma linguagem diferente a partir da Coca-Cola. Coca-Cola pode ser tanta coisa. E é nesse sentido que eu considero as Oficinas muito importantes. As pessoas estão formatadas para que quando é trabalho, é trabalho e depois quando é lazer, é lazer. Mas é um lazer onde de repente parece que a criatividade desaparece. E as Oficinas são também um lazer que é recreativo, mas que ao mesmo tempo é a estimulação da criatividade.

A VALORIZAÇÃO DE CADA UM

O privilégio de um encenador/ criador é ter a massa humana: se não houver massa humana, não há teatro. Por exemplo, eu posso pegar na lata de Coca-Cola e dizer: “Mariana, bebe essa lata de Coca-Cola muito zangada.” Eu tenho uma determinada ideia de como deves fazer isso, mas aquilo que tu me vais dar é muito mais interessante do que aquilo que eu estou a imaginar, porque tu vais pegar na Coca-Cola numa maneira que é só tua. Ainda que eu te esteja a dirigir e a dar pistas para onde eu quero ir, eu tenho que perceber quem tu és, que particularidades tens, para sacar aquilo que tu tens, que eu não tenho. Tenho de tentar perceber o que de melhor há em cada elemento, porque são as particularidades de cada pessoa, que fazem com que o todo funcione.

Para mim o teatro é sempre uma interpretação: é uma interpretação quando tu interpretas, é uma interpretação quando tu me ouves a dirigir, é uma interpretação quando eu te vejo em cena. É sempre uma interpretação e isso convoca sempre uma ideia de criatividade. A reprodução/ representação é um aborrecimento!

LIGAÇÃO ENTRE O TEATRO E A SOCIEDADE

Agora há uma ligação maior: as pessoas vão mais vezes ao teatro, do que há uns 10 anos atrás. Nos finais dos anos 90 até 2007 houve uma espécie de apatia teatral no panorama português. Actualmente a oferta é muito maior: o teatro e a cultura em geral é muito mais acessível, há muitas mais companhias e há uma proximidade. Ainda assim, nós temos um calcanhar de aquiles grande: todos os teatros são bem-vindos, mas há sem dúvida uma monopolização teatral. Tens o teatro comercial, o teatro  de autor, o teatro de câmara, o teatro de black box, um teatro mais intimista e por fim tens as grandes produções: Teatro Nacional D. Maria, São Luiz, CCB, Maria de Matos. E tudo isso ainda continua a ser um pouco elitista: só algumas pessoas provavelmente irão ao Maria de Matos, ao São Luiz, ver uma encenação da Sofia Ângelo no Teatro Carnide… Porquê? Precisamente porque as pessoas estão habituadas a viver o imediato e se lhe derem só o imediato, não se habituam! O que é que eu quero dizer com isto? A sociedade e a arte estão juntas na medida em que a primeira se responsabiliza por, de maneira muito saudável, fornecer  experiências artísticas aos miúdos desde muito cedo. É aí que há uma relação entre o teatro e a sociedade, e se essa relação não se estabelecer, torna-se difícil criar hábitos.

FUNÇÃO DO TEATRO

A moral da história é uma coisa que se aprende desde pequeno nas histórias infantis. O teatro, as artes performativas têm um espaço diferente: podes pensar nas coisas, mas sem a preocupação da moral, mais com a preocupação de reflectir, de perceber o que para ti é certo ou errado, o que para ti faz sentido… E o problema é que ainda vão muito poucas pessoas ver teatro, simplesmente para desfrutar. Posso perfeitamente ver um espectáculo e emocionar-me plasticamente com o que estou a ver, e naquele momento não estar a pensar em nada. Saio depois e fico a pensar: isto tocou-me, mas tocou-me porquê? Se me tocou é porque está a ser importante para mim na minha vida, neste momento.

Pode não estar ninguém lá, mas basta um espectador estar, para que o teatro se tenha cumprido. Porque teatro é comoção. Sempre.