Neste Dia Internacional da Mulher, faz-se história em Espanha e por todo o mundo

Em Espanha, este ano, as celebrações não são assim tão superficiais. Num país politicamente efervescente, faz-se hoje história por se cumprir a primeira greve geral inteiramente feminina.

Imagens do vídeo de convocatória para a Greve do Dia Internacional da Mulher

As efemérides como a que hoje se comemora, do Dia Internacional da Mulher, caracterizam-se geralmente por celebrar ou recordar determinados momentos historicamente relevantes para o tema em questão. Este caso concreto não é excepção.

Recorda-se por um lado a decisão do Conferência Internacional de Mulheres Socialistas que, em 1910, em Copenhaga, consagrou o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher. E por outro, as manifestações das trabalhadoras russas que precipitaram a Revolução de 1917 e tiveram no dia 8 de Março uma das suas primeiras grandes demonstrações – algo que se tornou simbólico também pelo alinhamento com a decisão do Movimento Internacional Socialista. O suporte destes dois grandes blocos fez com que em 1970 a data fosse oficialmente consagrada pela ONU e, desde então, seja um acontecimento global.

Como também sucedem em muitas destas efemérides, a distância aos fenómenos que lhes deu origem vai enfraquecendo a sua causa, a que raramente se junta muita substância. São vários os exemplos de celebrações e exaltações do Dia da Mulher, mas muito poucos aqueles que se notabilizam por aprofundar a questão ou por relembrar as lutas sociais e políticas que lhe deram origem, preferindo-se muitas vezes a isso a tradicional oferta de flor ou bombons.

Em Espanha, este ano, as celebrações não são assim tão superficiais. Num país politicamente efervescente, faz-se hoje história por se cumprir a primeira greve geral inteiramente feminina. Com o apoio das principais centrais sindicais e organização da Comissão 8 de Março, serve esta acção para relembrar que nem as sociedades modernas estão livres do machismo.

Assim, e com o apoio de conceituadas figuras femininas da política espanhola como Alda Colau ou Manuela Carmena, presidentes das Câmaras de Barcelona e Madrid, respectivamente, as mulheres espanholas pararão durante um dia para pedir “uma sociedade livre de opressão, violência e exploração sexista”.

Para além do apoio expresso pelas duas responsáveis políticas pelas principais cidades espanholas, também institucionalmente se fará sentir o apoio às mulheres com a decoração das respectivas câmaras pensada em tons de roxo – a cor do movimento.

Na base dos protestos estão dados alarmantes como o da mortalidade por casos de violência doméstica – só no ano passado morreram 49 mulheres em Espanha – e outros estatísticos como a diferença salarial entre homens e mulheres. No nosso país vizinho, uma mulher ganha em média menos 12,7% que um homem – em Portugal, essa diferença é de 17,8%.

Como forma de adesão ao movimento, as mulheres são incitadas não só a fazer greve aos seus trabalhos assalariados como a todas as suas tarefas, nomeadamente de lide doméstica, de forma a proporcionar uma chamada de atenção transversal a todas as práticas e relações desiguais entre sexos. Numa nota particularmente curiosa, até as jornalistas das principais televisões e rádio fizeram greve, subtraindo as suas vozes dos habituais alinhamentos. À sua greve, as profissionais do sector da comunicação ainda anexaram um manifesto com mais de 7 mil assinaturas contra o machismo no sector.

Como forma de organização, a comissão responsável criou um mapa completo das convocatórias para concentrações e manifestações que pode ser consultado aqui e revela a imensidão de pequenos grupos que dão forma a esta luta maior.

A facção espanhola alinha-se com o movimento International Woman’s Strike (IWS), que conta com mulheres de mais de 30 países, conferindo uma dimensão global à causa e à acção. Nesse sentido, mulheres (ou homens apoiantes da causa) de vários países e cidades organizaram uma série de concentrações e encontros além fronteiras espanholas.

O movimento IWS iniciado em 2016 pelas mulheres polacas, inspiradas numa greve das islandesas de 1975, ganha assim uma forma internacional considerável. No total, são mais de 200 as acções planeadas. Em Portugal,  LisboaCoimbra e Porto são as cidades onde decorrerão acções coordenadas como manifestações, encontros e debates. No evento central, podem encontrar-se dezenas de outros exemplos de países e cidades por todo o mundo que se juntam à causa, com especial enfoque para Argentina e Polónia, dois países onde a luta feminista está especialmente vigorosa.