O futuro da Estónia é digital, o futuro do digital pode ser estónio

Falámos com Varun Sharma, actual Director de Parcerias do E-residency Program da Estónia, para que nos ajudasse a prever o futuro.

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Quem leu o livro “Homodeus”, de Yuval Noah Harari, sabe que a evolução dos seres humanos pode ser a combinação de dados e biologia numa entidade só. É também isso que prevê Varun Sharma, entre risos, em resposta ao desafio impossível: prever os modelos de identificação digital para daqui a 100 anos  — o intervalo de tempo podia até ser 5 anos, que continuaria impossível de prever, confessa Varun, actual Director de Parcerias do E-residency Program da Estónia.

No dia 23 de Fevereiro, um Comité de Salvação Nacional declarava a independência da república da Estónia, que seria perdida em 1939 para a União Soviética. 100 anos depois, a Estónia é membro em pleno da União Europeia, da Nato, e uma orgulhosa potência digital apesar de ter apenas 1 milhão e 200 mil habitantes. Para assinalar o centenário, um grupo composto por startups privadas e uma pública declarou o compromisso de atingir um sistema de identificação global para pessoas. Optaram assim por não olhar para os últimos 100 anos, que podiam ter sido muito melhores, mas antes, por projectar um futuro promissor. Os participantes, de nacionalidades diferentes, começaram por contar o número de permissões de residência que tiveram que adquirir ao longo dos anos. Alguns deles em mais de 10 países diferentes — Varun é um exemplo, indiano de origem, parte do programa de E-residency há 6 meses.

Desde identificação usando smartphones para reconhecimento facial, impressões digitais e pulsações, até à possibilidade de usar Blockchain e Inteligência artificial para a mesma função, tudo veio à discussão na tentativa de responder à pergunta, será possível ter um sistema de identificação global e unificado?

A verdade é que isso já esteve mais longe. Hoje temos cartões com chips incorporados, com assinaturas digitais válidas, que podem ser usadas em diversos serviços online, como validação de documentos oficiais, acesso ao historial médico, receitas de medicamentos, etc. Tudo isto pelo menos na Estónia. Com o programa da E-Estonia, os estonianos podem aceder a 5000 serviços online. E com o E-residency um cidadão estrangeiro pode aceder a 1500 desses serviços. A ideia é a simplificar a vida a todos.

O programa de E-residency começou em 2014 e os seus objetivos modificaram-se entretanto. Varun explica que inicialmente o objetivo era chegar a 10 milhões de indivíduos, entretanto, o foco direcionou-se para empresas enquanto motor económico. A meta que o programa quer atingir é agora a das 20 000 empresas. O atrativo para empresas externas à União Europeia é o acesso ao mercado comum, já para empresas da UE o benefício pode passar por reduzir custos fiscais. Em resposta à pergunta sobre que teria o programa a oferecer às start ups nacionais, Varun, é peremptório: “Tempo, redução de custos, certificação, e uma comunidade digital para fazer negócio”.

Outra pergunta que se impõe sempre que se fala de programas governamentais desde o boom das criptomoedas: Para quando a Estcoin?

“É preciso que o ambiente na União Europeia e na Estónia se torne mais receptivo. Para isso é preciso concluir um processo de educação sobre Criptomoedas e blockchain em geral.” O banco central europeu tem estado pouco receptivo à inclusão de uma criptomoeda oficial no sistema do Euro, do qual a Estónia faz parte. A jornada para convencer a UE, e o governo da Estónia a pressionar a UE e os parceiros não vai ser fácil. Este seria mais um passo para construir um Estado com funções administrativas absolutamente online, sem o perigo de desaparecer em caso de perda de controlo do território (como nos 100 passados). E se a Estónia é o primeiro país a ter uma criptomoeda oficial, quem seria o segundo? “O mais provável é ser um país com a infraestrutura digital e legal desenvolvida, como a Dinamarca ou Singapura. A China também está a dar passos largos mas não deixa de ser o país com mais população do mundo. Impossível prever.” 

Com todo o envolvimento de diferentes Estados na corrida digital, é importante referir que embora haja várias vantagens para um nómada digital em ter um sistema de identificação único, há o medo de que um país menos transparente ou mais autoritário faça uma utilização abusiva dos nossos detalhes pessoais. O dilema de liberdade individual e segurança é o velho clássico. O que acontecerá em 100 anos anos é uma incógnita, mas é provável que parte da evolução comece na Estónia.