Colo: mais uma reflexão sobre Portugal em filme

Colo trata a geração de Teresa Villaverde, uma geração que sentiu que o seu futuro depois do 25 de Abril estava garantido.

Começo por assumir que é o primeiro filme de Teresa Villaverde que vejo, mas a minha ignorância sobre a realizadora portuguesa foi o motivo que me fez ir ao cinema. É assim: gosto da descoberta e de conhecer coisas novas. Colo é um filme que, como outros lançados por cá, comentam uma particularidade actual de Portugal. Se As 1001 Noites, de Miguel Gomes, debatem a crise e A Fábrica de Nada, de XXX, tratam questões laborais, Colo é uma reflexão serena sobre a serenidade das dificuldades económicas.

Colo é, aliás, um filme bastante sereno. Ao sentarmo-nos a vê-lo, entramos na vida de uma família que luta pela sua estabilidade económica e emocional. O pai está desempregado, a mãe acumula dois empregos e a filha, adolescente, acumula esse período já por si turbulento com uma situação familiar difícil. Todos sofrem e no filme acompanhamos os problemas de cada personagem. Poucos são os diálogos que mãe, pai e filha têm entre si e quando existem são tão superficiais que, apesar de todos saberem que algo não está bem, o silêncio domina e cada um prossegue as suas vidas – cada vez mais afastados uns dos outros.

O filme arranca com o pai (João Pedro Vaz) desamparado em casa por a mulher (Beatriz Batarda) nunca mais chegar, dizendo à filha (Clara Jost) que não fez nada de mal mas tem modo que a mãe nunca mais volte. Corre para a porta do prédio, numa tentativa de encontrá-la. Ela chega entretanto a casa, com boas notícias, pois tinha conseguido um segundo emprego. Pergunta à filha pelo pai, uma vez que não se cruzou com ele na rua; o casal acaba por se encontrar na rua.

Assistindo Colo, o espectador vai acompanhando o desenrolar da família através de momentos da sua vida como este, que a realizadora, produtora e argumentista do filme (sim, Teresa Villaverde fez tudo e, por isso, pode ser considerado um trabalho muito próprio da cineasta) escolheu dar-nos acesso. É quase, como se durante um período de uma ou duas semanas (não se consegue especificar muito), tivéssemos uma janela aberta para as vidas daquele pai desempregado e desorientado – algumas vezes doente, outras sensato –, daquela mãe que acredita que aguenta o cansaço diário para conseguir aguentar uma família prestes a romper-se e daquela filha que vai assistindo a toda a tensão, numa espécie de narrativa paralela, onde entra uma amiga grávida e um namorado que é vocalista de uma banda.

Um detalhe a salientar é para a forma como a história da família é contada, através de um argumento que, ao longo das várias cenas, vai revelando ao espectador detalhes e pistas sobre aquela família que vive num bairro nos Olivais e vê a Lisboa moderna (aka Parque das Nações) do cimo do seu terraço. Outro ponto de destaque é toda a fotografia, juntamente com a realização, adensa a tensão da narrativa.

Colo é, lê-se na nota de divulgação, “uma reflexão muito actual, e quase serena, sobre o nosso caminho comum como sociedades europeias de hoje, sobre o nosso isolamento, a nossa perplexidade perante as dificuldades que nos vão surgindo, sobre a nossa vida nas cidades e dentro das nossas famílias. É um filme em tensão crescente que nunca chega a explodir”. O filme trata a geração de Teresa Villaverde, uma geração que sentiu que o seu futuro depois do 25 de Abril estava garantido. Fala sobre o direito à felicidade e sobre como é fácil perdermos-nos numa sociedade complexa e exausta. É um registo que bem podia ser documental.

Além de Beatriz Batarda e João Pedro Vaz como protagonistas, Colo conta com a participação de dois nomes bem conhecidos do público – Simone de Oliveira e Rita Blanco – em dois papéis secundários, e de um elenco de jovens actores não profissionais: Alice Albergaria Borges, Tomás Gomes e Clara Jost, filha de Teresa Villaverde.

Colo, da realizadora nascida em Lisboa em 1966 e que se insere na mesma geração de Pedro Costa ou João Pedro Rodrigues, estreia em Portugal no dia 15 de Março. Poderás vê-lo em Lisboa (Cinema Ideal, Medeia Monumental), no Porto (Cinema Trindade, Teatro Campo Alegre) e em Coimbra (Alma Shopping). Será também exibido em Águeda, Figueira da Foz, Ponta Delgada, Évora, Famalicão, Guimarães, Santarém, Monção, Viana do Castelo, Arcos de Valdevez, Setúbal, Braga, Viseu e Castelo Branco, Amarante, entre outras. O filme foi exibido pela primeira vez em 2017 no Festival de Cinema de Berlim, onde a realizadora já tinha apresentando outra sua longa-metragem, a primeira – A Idade Maior, em 1991.