1ª Edição – Informação: mais do que aquilo que nos une, aquilo que nos separa

Iluminar novos caminhos e novas perspectivas possíveis graças aos avanços tecnológicos e reflectir sobre as eternas problemáticas como a demagogia, o populismo e a falta de transparência.

Anunciámos ontem a nossa nova organização e explicámos como advém de uma necessidade interna de evoluir e inovar, numa altura em que nos sentimos cada vez mais confrontados com o nosso próprio trabalho. Não somos infalíveis nem indiferentes à realidade, mas queremos distinguir-nos sempre pela consciência que temos de nós próprios, dos nossos vícios e defeitos. É por isso que queremos iniciar este novo modelo de organização, edição a edição, debruçando-nos, precisamente, sobre nós próprios. Não sobre o nosso projecto em concreto mas sobre o nosso sector: o da informação.

Numa época em que apelidamos o conjunto das nossas relações globais como Sociedade da Informação, em que a globalização ganha forma em plataformas sociais baseadas em trocas informativas e relações puramente assentes em conteúdo — por vezes de duvidoso significado —, emergem tendências como as fake news, os alternative facts e ganhamos noção do impacto e influência que tudo isto pode ter na vida real de cada um e na de todos enquanto espécie. Torna-se imperativo pensar sobre a informação.

A maioria do que hoje se apresenta como um novo conceito não deixa de ser uma nova introdução para eternas questões, mas nem por isso o assunto merece descanso. A evolução tecnológica voltou a reorganizar o xadrez informativo e, se antigamente se manufacturava consentimentos através dos mainstream media, hoje em dia é tudo mais dúbio e complexo, embora continue a existir com a mesma clareza e intencionalidade.

Antigamente, a passividade com que consumíamos conteúdo e informação estava explícita no comportamento sedentário de quem se sentava por horas no sofá entretido a consumir sem distanciamento ou espírito crítico aquilo que os canais de televisão escolhiam; hoje em dia essa passividade ilustra-se com o scroll indiferenciado, quase instintivo, com que passamos o mundo em revista nos mais diversos formatos.

A recente campanha de informação e desinformação sobre a Síria — já antes experimentada em contextos como a Líbia ou o Iraque —, as fantasiosas ilustrações caricaturais da misteriosa Coreia do Norte, no plano global; a propagação de estereótipos ou a polarização sem substância do espaço mediático, no plano local, levam a um sucesso crescente do populismo, inimigo número 1 da democracia activa, informada e transparente, e tornam imperativo o debate e o pensamento sobre o mundo da informação.

Por outro lado, a um nível interno, eleva-se a necessidade de sentirmos que os nossos textos são consequentes e de percebermos como pode o que escrevemos ajudar a moldar uma sociedade mais consciente e igualitária, motivada quer pelas nossas referências, que vão evoluíndo, quer pelos sucessivos debates para que somos convidados e onde acabamos por questionar a forma como o projecto cresce e as direcções que toma.

A necessidade de ouvirmos o eco do nosso trabalho ganhar forma em discussões profícuas e onde surjam novas perspectivas sobre os assuntos; e de sentir que dedicamos atenção a determinados tópicos, em detrimento, do foco constante num presente em rápida mutação e evolução que acaba por pôr em causa a nossa capacidade de concentração, são, não só objectivos internos, mas sinais de como a sociedade progride perdendo a capacidade de reflectir e de se questionar — algo que se evidencia nos líderes de audiências e tiragem em papel.

O que falta? Interna e globalmente? São duas das perguntas que servirão de base para uma série de artigos em que nos confrontaremos com a nossa forma de consumir, produzir e distribuir informação — iluminando novos caminhos e novas perspectivas possíveis graças aos avanços tecnológicos como a blockchain, a realidade virtual ou a inteligência artificial e reflectindo sobre as eternas problemáticas como a demagogia, o populismo e a falta de transparência.

João Ribeiro, director editorial do Shifter