ZARCO e uma pedra no charco

Conflitos de Armando Piranha é o espectáculo mais recente da banda

João Gonçalves Zarco foi um navegador dos nossos descobrimentos. Já ZARCO, a banda, faz justiça ao seu homónimo, seguindo o conceito de contar histórias mirabolantes através de canções. Gastão Reis, Fernão Biu, Joe Sweats, Pedro Santos, Sala e são cinco lisboetas já com um EP para nossa degustação, chamado Zarcotráfico.

Quando não estão em estúdio a gravar as músicas do álbum que está por vir, reinventam os seus espectáculos ao vivo, como “Conflitos de Armindo Piranha”, que esgotou a primeira exibição no Chapitô – motivo pelo qual vão repetir o serão, já este sábado que vem.

Tivemos a oportunidade de conversar sobre o assunto e acabámos por retirar algumas dúvidas sobre o seu paradeiro.

Pedro, Gastão e Fernão, 3 dos actuais 5 elementos dos Zarco (foto de Maria Sacadura/Shifter)

Vocês já têm alguns anos de estrada, mas a vossa actual formação de banda é relativamente recente. Quando é que ZARCO começou a ter 5 integrantes?

Gastão: Foi em Outubro de 2016 que entraste na banda, não foi Fernão?

Fernão: Particularmente em 6 de Outubro. Foi o meu primeiro concerto!

G: Exactamente! Na verdade, eu só conto a existência de ZARCO a partir de 2015 que foi quando a formação começou a ficar mais estável, também com a chegada do Sala aos teclados, e nos levámos mais a sério na composição das músicas, algumas chegámos mesmo a descartar, noutras melhorámos os arranjos.

F: Ainda assim cheguei tarde para as gravações do EP, só participei nas misturas.

G: Tens razão, só adaptamos os arranjos ao vivo com a tua chegada.

Foi finalmente com esta formação que veio a público o primeiro EP da banda. Qual é o significado de termos como Zarcotráfico ou Spazutempo?

G: Depois de sairmos das gravações, quando o [José Moz] Carrapa nos mandou as misturas ele escreveu Zarcotráfico no assunto do e-mail. Ficou instantaneamente baptizado. Spazutempo foi uma ideia que o Sala arranjou quando estava a escrever a nossa bio.

F: É basicamente um portal do espaço-tempo. É um veículo que nos permite escrever sobre o que quisermos sem parecermos anacrónicos. E é possivelmente título para o disco que estamos a gravar.

Foto de Maria Sacadura/Shifter

Criaram, portanto, um universo a partir das vossas canções numa estética à la rock progressivo. Pode ser considerada uma influência? E quais mais se enumeram?

G: Nós gostamos muito de ritmos africanos, funanás e por aí fora, como se pode ouvir na nossa “Música Bipolar Portuguesa”, quase a homenagear MPB [música popular brasileira].

F: Influências portuguesas, sobretudo, Sérgio Godinho, o “Por Este Rio Acima” do Fausto.

G: Também não podemos negar a admiração pelos Capitão Fausto.

F: É normal, tornaram-se uma grande influência nesta nova geração de bandas.

Se tivessem que sugerir apenas uma canção do EP em jeito de atirar uma pedra no charco e viciar alguém no vosso reportório, qual sugeriam escutar?

F: Ando com essa frase que acabaste de dizer há dias na minha cabeça, a imaginar essa pergunta a ser feita em entrevista. Que surreal.

G: Eu acho que a música mais ZARCO que podes encontrar no EP é a “Sem Nome”.

Pedro: Mas acho que a música que consegue agarrar mais é a “7 Por Sala”.

Capa de Zarcotráfico, o EP que editaram em Janeiro de 2017

Não é incomum ver-vos associados aos Reis da República, como se faz exemplo da vossa aparição no videoclip deles da canção “Samurai”. É pura coincidência vocês terem uma canção chamada “Sá Morais”, ou é claro fruto da vossa sinergia?

G: Foi coincidência, não têm nada a ver. A nossa fala sobre um tipo chamado Sá Morais. No entanto, nós gostamos de dizer que somos os fãs número 1 deles e eles os nossos.

F: Reis e ZARCO têm muitas semelhanças nas influências e na forma como fazem as músicas. Acabamos por casar muito bem em concerto porque faz todo o sentido.

G: Existe essa energia que referiste também porque somos amigos já antes das bandas começarem.

E por falar em trabalhos com outros projectos, sabe-se que chegaram a tocar no Porto com o Conjunto Corona. Como se conta essa história?

G: Eu e o Sala éramos grandes fãs dos Corona. Foi o Sala que nos mostrou o primeiro disco e lá nos convenceu a ir ver o concerto deles no Musicbox em 2015, onde estavam para aí umas 30 pessoas. Depois disso eu e o Sala, às tantas começámos a comentar as cenas dos gajos no Facebook, a divertirmo-nos à brava, e tornámo-nos uma espécie de amigos virtuais até que os conhecemos num concerto.

F: Foi num segundo concerto no Musicbox, não foi?

G: Exacto! Eles devem ter reparado que eu estava a cantar as letras com eles, porque no instante a seguir passam-me o microfone para a mão e “canto” uns versos com eles. Depois do concerto lá os conhecemos, já a sério.

F: Entretanto, o Gastão estava uma vez num ensaio a tocar a malha de baixo da Chino no Olho e a insistir para que os desafiássemos a tocar com eles no Porto. Falámos com eles e foi isso que aconteceu. That was a night of magic.

Com a vossa frenética actividade é de adivinhar que deve haver um disco na calha. O que é que é possível vocês revelarem sobre esse assunto?

G: Estamos a gravar os discos aos bocados. Acabámos de gravar mais umas duas canções.

F: Que são músicas que já vamos tocando ao vivo.

G: Vamos acabar as músicas que faltam até ao Verão e talvez devamos lançar o disco lá para Setembro.

Foto de Maria Sacadura/Shifter

Aparentam ter uma saudável lealdade na base de fãs, muito graças à procura de renovarem a vossa prestação ao vivo, como foi o exemplo com o passado concerto no Chapitô, esgotado semanas antes. Como conjugaram a narrativa de Armindo Piranha com as vossas canções?

F: A ideia surgiu de criarmos um espectáculo com uma linha condutora em que íamos contando uma história que incorporava as nossas músicas. Depois pensámos em introduzir uma personagem com um monólogo e a partir daí fomos criando uma narrativa.

G: Em vez de haver uma pausa entre as músicas, os episódios da vida do Piranha eram eventos paralelos às histórias das músicas. Por exemplo, a “Música Bipolar Portuguesa” narra a história sobre uma mulher chamada Clepto Maria que vai uma festa e no dia seguinte acorda com a mala cheia de coisas. O Armindo Piranha é o marido desta Clepto Maria. E nós criamos estas histórias paralelas ao universo Piranha. O Armindo Piranha já era o Alter Ego do João Salgado, que o interpreta na peça.

E é uma experiência a repetir?

G: Sim, 10 de Fevereiro, também no Chapitô.

P: Até acho que devíamos fazer mais espectáculos neste formato.

Com o que é poderemos nós contar com este concerto? É possível que a setlist contenha músicas novas?

G: Vamos repetir a peça, porque a nova data surgiu da procura que houve.

F: Os bilhetes esgotaram em 4 dias.

G: Sim, os bilhetes esgotaram em menos de uma semana. É uma nova oportunidade para as pessoas que não conseguiram vir à primeira, para poderem ver o que é que ZARCO e Piranha estiveram a tramar neste último mês.

F: E sim, havemos de tocar algumas músicas novas.