A intervenção de Tio Rex na música: “são as canções que mandam em mim”

Cantautor setubalense, está prestes a editar um novo EP. "This Is An Intervention" é o primeiro avanço.

É Miguel Reis no Cartão de Cidadão, mas na música assina como Tio Rex. Pelo menos desde 2012, altura em que lançou dois EPs online com as suas primeiras músicas. Desde então, já editou Preaching to a Choir of Friends and Family (2013), o seu primeiro LP, 5 Monstros (2014), mais um EP, e Ensaio Sobre a Harmonia (2015), o seu segundo álbum.

Tio Rex, cantautor setubalense, prepara-se agora para editar mais um EP. 5 Tragedies vai ser produzido por Sérgio Miendes e pelo próprio, e será editado pela Planalto Records a 18 de Março. “This Is An Intervention” é o primeiro avanço, que nos chega um mês antes na forma de videoclipe – “uma cautionary tale que escrutina a densidade do vício e a qualidade avassaladora com que molda personalidades, hábitos e a forma como nos relacionamos”, segundo o próprio.

Concebido, captado e editado por Marta Banza e Tio Rex, contando com a performance do próprio e de Ricardo Guerreiro Campos, e assistência de Vito Schmid, este vídeo dá corpo a uma tema expansivo, que culmina num jogo de forças entre piano, saxofone, lapsteel e guitarras eléctricas, e que revela uma nova fase na sonoridade do artista.

“Sinto que todos os meus discos acompanham a minha evolução como pessoa e acabam por espelhar ‘o Miguel’ que sou no intervalo temporal que antecede o início de cada produção. Acabam por ser fruto do que me vai acontecendo, dos estados de espírito e aflicções que me vão assolando, e resultam da minha necessidade de digerir e compreender isto a que chamamos ‘vida'”, explica Miguel Reis ao Shifter, numa conversa por e-mail. “Não sinto que precise de criar momentos de silêncio para ouvir a minha voz, mas antes que me aconteçam coisas para que tenha algo para dizer na música.”

Tio Rex refere que esta faixa, que antecede um novo EP, foi escrita “directamente para uma pessoa em concreto e, com o passar dos dias e semanas, fui-me apercebendo que queria dizer aquilo a mais pessoas”, tendo-se servido daquilo a que os americanos chamam de “intervention” – “acto de sentar uma pessoa e confrontá-la com um problema que os que a rodeiam sentem que a mesma necessita de ganhar consciência que tem e enfrentar”. Ainda assim, não esconde que, apesar de ser uma intervenção de cariz mais pessoal, não possa ser uma tentativa de começo de intervenção social que começa em si, enquanto músico. “Acho que inconscientemente o tema acabou por se tornar naquilo a que nós chamamos ‘canção de intervenção'”, diz.

Quanto à heterogeneidade das suas canções, que tão depressa nos lembram Mazgani, como a seguir evocam, por exemplo, um Benjamin, que mistura português e inglês, ironia e sinceridade, esperança e desesperança, Tio Rex refere que isso é consequência do processo criativo e da panóplia de estilos que vai buscar para cada canção. “Se é verdade que tenho trabalhado maioritariamente com texturas folk/country/southern rock, porque cresci e continuo a consumir muita dessa música – e o meu instrumento principal é a guitarra acústica –, mentiria se dissesse que não vou beber ao meu fascínio por vários projectos de post-hardcore e metalcore, por exemplo, conta. “No fundo, sinto que são as canções em si que “mandam em mim” e na maneira como conto cada história.”

Por isso, para Miguel Reis, é bem possível “vir a fazer discos como Tio Rex à base de piano, ou até mesmo a explorar o spoken word e, quem sabe, as texturas mais violentas derivadas do metal ou as exploratórias da electrónica”. “Contudo só saberei isso quando as canções nascerem”, remata.