The Post: 1+1 nem sempre são 2

The Post é um thriller político focado na decisão da proprietária do The Washington Post, que se vê indecisa entre manter o status social ou publicar documentos oficiais que revelavam que o governo americano tinha mentido durante anos.

The Post Filme
Photo Credit: Niko Tavernise

Foi o filme mais visto nos cinemas portugueses esta semana. Em temporada de entregas de prémios, a escolha não será a mais óbvia, uma vez que The Post tem reunido consenso na crítica mas não tem propriamente coleccionado distinções. Mas Hollywood já nos habitou a uma série de verdades absolutas e inquestionáveis e The Post personifica tudo isso.

A equipa está repleta de nomes sonantes. Realizado pelo veterano Steven Spielberg, o filme tem o peso do protagonismo de Meryl Streep e Tom Hanks. Não é difícil adivinhar que é por aí que anda uma das duas nomeações para Óscar — Meryl Streep só precisa de respirar para ser nomeada Melhor Actriz. A segunda, a de Melhor Filme, demonstra mais uma vez como Spielberg raramente vê o seu trabalho tradicional ser ignorado pelos jurados, ainda que não tenha a mais esperada das histórias com a Academia.

A ausência do seu nome na lista de nomeados para Melhor Realizador é considerada um dos principais snubs deste ano. Com 17 indicações para Óscar – sete delas como Realizador – e três vitórias, Spielberg tem uma daquelas relações tabu com as pessoas responsáveis por distinguir o que de melhor se faz na indústria de cinema norte-americana, daquelas que se falam nos corredores dos estúdios e em sussurros nas poltronas do Dolby Theatre. Alguns dos seus filmes mais aclamados, como o icónico Jaws, The Color Purple (que teve 11 nomeações), War Horse, Bridge of Spies e agora The Post conseguiram todos nomeações para Melhor Filme, mas nenhuma de Melhor Realizador. Vários especialistas dizem que o desentendimento vem desde o tempo de Jaws, altura em que se terá desenvolvido uma relação de algum ciúme entre Spielberg e vários membros da Academia. Os membros da Academia com o coração mais frio podem pensar: ‘Aqui está a única coisa que podemos negar ao homem que tem tudo.’ Ele é penalizado por ser bom, eles têm que o destruir de alguma forma.”argumenta Tom O’Neil, fundador do emblemático blog de previsão dos prémios Gold Derby.

Outros dizem que se tratou de uma inevitabilidade, uma vez que, apesar de ter expandido a categoria de Melhor Filme para até 10 nomeados em 2009, a Academia manteve a categoria de Melhor Realizador limitada a cinco nomes, tornando fatal a exclusão de alguns directores todos os anos. Mas há aqueles que, sobre este ano, acreditam que o problema está mesmo no filme. Argumentam que The Post parece ter sido feito para o Óscar, mas seguindo as directrizes daquilo que era um traditional Oscar movie de outros tempos, uma marca registada de um poder instalado que, ironicamente, sempre resistiu em aceitar Spielberg no seu círculo.

Os ingredientes estão todos lá. Uma grande estória da história dos Estados Unidos, sobre lutar contra o poder pela liberdade da imprensa, mas há formas e formas de a contar.

O polémico caso dos Pentagon Papers surgiu quando o analista militar Daniel Ellsberg copiou ilegalmente milhares de páginas de relatórios de um estudo interno sobre a Guerra do Vietname e depois os divulgou a jornais, que assim desvendaram como a Casa Branca tinha passado décadas a mentir ao público americano, para não sofrer a humilhação de ser o lado perdedor de um conflito bélico. Quando o The New York Times publicou os seus primeiros exclusivos, Nixon fez algo nunca antes feito, proibindo o jornal de publicar mais informações relativas ao escândalo. No seguimento disto, a equipa do The Washington Post teve acesso aos documentos e publicou aquilo que o Governo tinha proibido o Times de divulgar. O que se seguiu foi uma batalha jurídica acérrima que no final deu uma (espécie de *) vitória aos jornais, naquilo que provou ser somente o prelúdio do escândalo que viria a abalar a Administração de Richard Nixon.

Mas The Post é um thriller político focado na decisão de Katherine Graham (Meryl Streep), proprietária do The Washington Post, mulher bem posicionada na capital, com vários amigos influentes e na Administração que, correndo o risco de ver o seu jornal fechar, se vê indecisa entre manter relações e o status social ou aproveitar para fortalecer a sua posição como a única mulher do país na liderança de um jornal, e publicar os documentos oficiais que revelavam que o governo americano tinha mentido, durante anos, sobre a evolução e sucesso da prestação das tropas na guerra no Vietname, que duraria vinte anos e acabaria com uma derrota dos EUA. Tom Hanks interpreta Ben Bradlee, o obstinado editor da publicação, que tenta encaminhar Kat Graham no caminho da verdade.

Com Donald Trump na Casa Branca, o dilema central do filme, sobre a influência governamental na liberdade da imprensa, não podia vir mais a propósito. Parece por isso ser mais que evidente a intenção de Spielberg de que este seja um filme político, uma espécie de caixa de recados à relação da actual Administração com a imprensa, numa altura em que Fake News é a expressão do momento e temos um Presidente dos EUA tão preocupado com isso, que organiza entregas de prémios para distinguir os piores órgãos de comunicação social do país que lidera.

Pesa também o tema da emancipação feminina e das mulheres em cargos de poder, causa sobre a qual Spielberg também quis fazer o check ✓ , de forma até pouco subtil, ao decidir retratar a história pelos olhos de Kat Graham. Num tempo em que as mulheres não ocupavam lugares de poder, a história acaba por ser, mais do que sobre a procura labiríntica e perigosa da verdade, sobre a primeira mulher na liderança de um jornal e a sua jornada como filha, mãe e esposa que se vê numa posição de liderança inesperada, com uma decisão entre mãos que mudaria para sempre a importância do The Post na imprensa americana e o panorama da comunicação social no país.

Em The Post toda a intriga gira mais à volta de uma decisão editorial e administrativa de publicar ou não matéria altamente confidencial do governo norte-americano, do que da aventura jornalística, com tudo o que isso implica. O herói de Spielberg é a herdeira rica do jornal com um dilema pessoal, e não o analista militar que arrisca a vida para pôr a descoberto um conjunto de segredos governamentais que envolvem quatro décadas de governação e quatro Presidentes norte-americanos.

O trio de luxo que se junta em The Post fazia antever o tratamento glorificado que havia de ser dado aos protagonistas — ou haveria alguma forma de Meryl Streep e Tom Hanks não serem os corajosos salvadores nesta história? As intenções políticas do projecto são óbvias e apresentadas sem grande nuance. No filme, Nixon não é mais do que uma silhueta na sala oval, sonorizada pelas gravações originais dos seus telefonemas, documentos históricos sobre o primeiro momento da história norte-americana em que um presidente interferiu na publicação de uma investigação. Mas são mesmo o único documento histórico que se extrai de The Post, uma espécie de novela de Hollywood com a mira apontada a Donald Trump que, se quisermos ser rigorosos, se vê até na escolha do elenco, com o protagonismo da actriz que o Presidente acha tão sobrevalorizada.

* O braço-de-ferro entre a Casa Branca e a imprensa desembocou numa histórica decisão do Supremo Tribunal, que considerou inconstitucionais os mandados emitidos para impedir a publicação dos documentos, autorizando os jornais a prosseguirem a sua divulgação. Aprovada por seis juízes, com os votos contra de outros três, ainda hoje a sentença tem sido interpretada como uma meia vitória que não protege decisivamente os media contra a invocação do argumento da segurança nacional.