“Teardrop” dos Massive Attack faz 20 anos e não podia ser feita hoje

E a culpa é da era do imediatismo em que vivemos.

Massive Attack
Captura do vídeo de Teardrop

É daquelas músicas que conheces de certeza, mesmo que o nome não te diga nada no imediato, o soar do primeiro acorde vai reavivar-te a memória. E a isso deve-se o facto de “Teardrop” surgir até aos dias de hoje em filmes e séries (lembras-te de House?), normalmente naqueles finais conclusivos ou em momentos de suspense que condizem com o seu tom sombrio. Foi-nos perseguindo, com o seu tom cardíaco, como um som que nos parece fresco até à centésima audição, daquelas que não nos importamos que seja tantas vezes imposta na banda sonora dos nossos dias porque sempre soou algo futurista, algo que, 20 anos depois, continuaria a fazer sentido analisar. Mas porquê?

A música foi inteiramente construída em torno do ritmo do batimento cardíaco do bombo — um sample de uma peça de Jazz de Les McCann de 1973 chamada “Sometimes I Cry” — que serve de órgão vital do tema.

Os Massive Attack gravaram a primeira demo instrumental em Abril de 1997. Depois, começaram a tentar encontrar a voz que mais se adequasse à melodia etérea. A escolha acabou por ser entre Madonna e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins. Temendo que a opção por Madonna tornasse a música demasiado pop, Robert Del Naja, Grantley Marshall e Andrew Vowles acabaram com a companhia cristalina de Fraser.

Considerada por muitos “a voz de Deus”, Fraser assume que estava carregada de melancolia quando gravou a canção. O seu palavrear quase esotérico ao ponto da incompreensão é uma espécie de homenagem triste a Jeff Buckley, um dos seus melhores amigos que morreu em Maio de 97. Numa entrevista ao The Guardian, Elizabeth confirmou que “Teardrop” é um pouco sobre o músico, um tributo criado à medida de uma luva para o trabalho de Buckley, cuja própria música pode definir-se de forma semelhante no que toca à sua expressão mais dolorosa.

Quando os Massive Attack lançaram “Teardrop” como single do seu álbum de 1998, Mezzanine, a música depressa subiu às alturas vertiginosas do top 10 do Reino Unido. O seu sucesso foi confirmado ainda pelas dezenas de covers que se lhe seguiram. Newton Faulkner, José González, Elbow, Simple Minds ou Gary Barlow ao comando de vários músicos britânicos incluindo Ed Sheeran e o rapper Tinchy Stryder, foram alguns dos nomes que se aventuraram nas águas atribuladas de “Teardrop”.

Mas é aqui que reside uma das principais características da canção, algo tão paradigmático dos dias de hoje, que faz com que seja praticamente impossível para um músico produzir um som idêntico actualmente. “Teardrop” tem uma introdução de 1 minuto. Passam-se exactamente 62 segundos até que a primeira palavra seja cantada, e nem sequer estamos perante uma daquelas intros banais, feitas para captar a nossa atenção ao primeiro acorde. Durante um minuto, “Teardrop” leva-nos num crescendo lento, através do qual, camada sob camada, chegamos a um tema rico em textura e absolutamente imersivo.

Considerados os pioneiros de trip-hop, os Massive Attack conseguiram uma proeza filha do contexto em que foi alcançada, e isso vê-se com os covers que outros artistas fizeram do seu mais afamado single. É que nenhuma das versões acima faladas repete esta introdução que se constrói ao longo de 60 segundos, de forma tão controlada e sombria.

A de Newton Faulkner, habilidoso guitarrista, elimina por completo a introdução e recria algo parecido através da maneira idiossincrática com que bate na sua guitarra entre notas. A de José González, compositor sueco-argentino, é toda reinterpretada com a ajuda da guitarra e, a voz que o caracteriza traz uma vulnerabilidade à música que não se sente na força da “Teardrop” original.

Até a versão dos ingleses Elbow, das mais fiéis que encontrámos, salta para a letra antes dos 20 segundos.

É engraçado ver como bandas dos mais variados estilos interpretam e adaptam um tema já de si tão peculiar, percebendo-se que terá sido precisamente esse o gatilho para o cover. Veja-se a versão dos Simple Minds, que amplifica a falta de compreensão da música numa composição meio assustadora.

No ano passado, um estudante de doutoramento da Ohio State University publicou um estudo no qual concluiu que as introduções das músicas são, em média, 78% mais curtas hoje em dia do que eram há 30 anos. Na era do streaming instantâneo, tornámo-nos impacientes com a música que ouvimos, saltamos de faixa em faixa sem muitas vezes pararmos para relaxar num tema. A nossa procura por imediatismo significa que, agora, produtores e editoras exigem que os artistas cheguem ao refrão — o momento que mais vende da música — o mais rápido possível.

Quando os Massive Attack lançaram “Teardrop” em 1998, Mezzanine, esse clima de eficiência musical ainda não se tinha instalado, e a verdade é que nenhum cover recriou a atmosfera assombrosa do clássico da banda, ou conseguiu cozinhar os ingredientes distintivos que fazem com que o tema seja relevante ainda hoje — e apesar de muitos terem tentado, poucos músicos mainstrean teriam hoje a liberdade para lançar uma faixa tão demorada, na medida certa.