Roupa escura com letras góticas e cabelos descolorados: os novos emo cantam rap

Fomos ao concerto dos $uicide Boy$, lotação esgotada para testemunhar o fenómeno na primeira pessoa.

É extremamente difícil mensurar ou categorizar em fenómeno cultural, seja de um artista local ou uma tendência internacional, não chega contabilizar os ilusórios plays nem adianta medir pela lotação das salas — quase sempre esgotadas, — resta-nos portanto tirar ilações subjectivas daquilo que podemos ver e sentir e este concerto dos $uicide Boy$ foi uma riqueza nesse aspecto.

Chegámos faltavam 2h para a abertura das portas e já a fila cobria a fachada lateral do Lisboa Ao Vivo de têxteis pretos com letras góticas difíceis de decifrar. Estávamos no sítio certo (embora ligeiramente deslocados do nosso habitat natural). O primeiro pensamento é incontrolável: “no final de contas, não são só as pitas histéricas que se plantam em filas por horas”; os putos stoners também. O cheiro que se sentia ao longo dos mais de 200 metros de fila não deixava dúvidas sobre como queima o tempo esta multidão.

A proximidade do público com os artistas ou o nível de identificação entre eles é um bom indício da penetração de um fenómeno e neste capítulo a loucura atingiu níveis de quase-cosplay. Rastas descoloradas como o Scrim, cabelos desguedelhados como o Ruby ou as ultra skinny jeans e as madeixas oxigenadas a fazer lembrar Ghostmane mostram que a idolatria vai para além da música; é uma questão de atitude: afinal de contas se não fosse como statement, o que levaria alguém a estar de manga curta e óculos escuros à Kurt Cobain (sim, a referência aqui é outra) às oito da noite de um domingo gelado?

Quem arriscava na frescura sabia que ia ser recompensado. Lá dentro não haveria sequer espaço para o frio e diluir-se-ia a ideia de que era hora de jantar do dia mais familiar — $uicide Boys não é quando o homem quiser, como diziam na fila um grupo de jovens de Quarteira: “Sabe-se lá quando podem vir cá outra vez”, algo que teve direito a uma resposta provocadora do meio da multidão “pois, podem morrer de overdose a qualquer altura”, em jeito de lembrança do falecimento de Lil Peep, assunto ainda quente entre a comunidade.

As portas abriram e o espaço não demorou a compor-se. A festa também não demorou a arrancar. Crystal Meth, Dj de serviço, assumiu a preparação física com um set de Hip hop repleto de hits desta geração de onde só destoou “Gasolina” — escolha que ainda estamos a tentar compreender. Gucci Gang, Travis Scott, you name it; uma sucessão de escolhas fáceis e o mix não muito cuidado pareciam um teste dos norte-americanos sobre a nossa cultura musical que por cento surpreendeu. As cerca de 1000 pessoas que compunham o espaço pareciam preparadas (e sedentas) para assistir a qualquer um dos nomes que passou na sua selecção (excepto Daddy Yankee, claro).

Quando os músculos já estavam quentes e a multidão espacialmente distribuída seguindo uma ordem de propensão para o moche, Crystal largou os pratos para se acercar do público e se assegurar de que estava tudo pronto para a dupla vinda da Florida. O êxtase inicial foi de tal ordem que entre o piscar dos strobes, os rappers pareciam surgidos por magia ou caídos do céu. Ou devíamos dizer, subidos do inferno, para nos enquadrarmos na tendência? 

Ruby e Scrim foram recebidos em absoluta apoteose, acto demonstrativo de que toda a encenação não era pura fantasia. Nem nas barras de flow mais rápido os mc’s ficavam sozinhos; os refrões, esses, geravam um absoluto uníssono que só se deixava romper pelos gritos histéricos de fanmdom. As aproximações dos artistas ao público faziam agudizar a gritaria e levantar um mar de braços que tentavam tocar nesta espécie de líderes de culto.

Com uma energia invejável para quem está há semanas pela estrada, os $B mostraram que não são só gritaria e apologias místicas sem sentido; se dúvidas restassem, a camada performativa e quase encenada do seu concerto ajuda a compreender a emoção empregada em cada música cantada na direção do público. Sentimento que Ruby sintetizou nos agradecimentos finais com um discreto mas marcante “Thank you for keeping us alive”. É que embora a frase possa parecer um mero cliché, ganha substância na observação global do momento — os novos emo —, no nome da banda e até nas suas letras.

Numa altura de crise de valores e até de algum desnorte cultural a nível global, salva-se a ideia de que a ligação entre artistas e público servirá sempre, e no mínimo, para que sintamos o coração de outros bater, nem que seja num bruto moche. Houve respeito, consideração e companheirismo numa multidão que respondia às ordens de Ruby. Emoção, gritaria e muitas caralhadas. Com uma toada que faz lembrar o melhor da atitude punk, os $uicide Boy$ podem falar muito de morte mas transpiram vitalidade.

[Os $uicide Boy$ não autorizaram captação profissional de imagens — a multimédia utilizada foi cedida por espectadores do concerto]